Jornada Cibernética a… Lado Algum!

Josiano Nereu

Caros leitores, chamo-me Josiano Nereu, sou cabo-verdiano, da ilha do Sal, e frequento actualmente o curso de mestrado em Filosofia na Universidade de Lisboa (UL). Neste exacto momento encontro-me a navegar no site oficial da Universidade de Cabo Verde (UniCV). Como é natural, a primeira coisa que procuro quando já estou na página inicial da UniCV é o plano curricular da graduação e da pós-graduação em Filosofia, embora neste segundo caso não tivesse esperanças de encontrar algo já estruturado, como se veio a confirmar. Clico no link que diz «Graduação» e aparecem quatro categorias ou áreas em que se repartem os cursos leccionados na UniCV. A licenciatura em Filosofia encontra-se na terceira destas categorias, na categoria das «Ciências Sociais, Humanas e Artes». Clico no link que diz «Filosofia» e…?! Não aparece nada!

Fico na dúvida se é um erro informático, se é a página que não está actualizada (visto que a última actualização data de 26 de Janeiro), ou se de facto o link leva-nos “a lado algum”. Como se não bastasse que as pessoas, os menos informados claro está, pensassem isso e outras coisas ainda menos dignificantes da própria filosofia, temos agora algo muito mais desinquietante: um caso concreto em que isso acontece, por assim dizer. Mas (in)felizmente não é apenas um problema da licenciatura em filosofia, no site da UniCV, todas as licenciaturas desta categoria levam “a lado algum”; carregando nos links das outras licenciaturas dentro desta categoria verifico que nada aparece, nem o plano curricular, nem a lista das saídas profissionais, em suma não aparece nada. Mas não são só as licenciaturas da categoria de «Ciências Sociais, Humanas e Artes» que têm este destino, em todas as categorias há algumas licenciaturas, mas não todas (já seria demais!), na mesma situação.

O que é que se pode dizer acerca desta jornada cibernética “a lado algum” dentro do site da UniCV? Pondo de parte a hipótese de em princípio não haver, de entre o corpo docente da UniCV, alguém capaz de dar conta do recado, a única explicação que se me avizinha plausível é o facto de ninguém estar disposto a empreender tão “árdua” tarefa como a de especificar o perfil de competências em geral de um licenciado em filosofia ou enumerar as saídas profissionais de uma licenciatura em filosofia. Note, caro leitor, que já nem incluo nesta tarefa fazer a (absolutamente necessária) estrutura do plano curricular, pois isso por si só já seria motivo suficiente para um esgotamento.

Neste momento das nossas bem mais simples observações duas questões vêm ao de cima: quais as competências (técnicas?) de um licenciado em filosofia?, quais são as saídas profissionais, pressupondo que as há, de uma licenciatura em filosofia? Relativamente à segunda questão, uma reformulação pertinente salta imediatamente à vista: quais são as saídas profissionais em Cabo Verde de uma licenciatura em filosofia? Com um pouco mais de raciocínio notamos que uma reformulação análoga pode ser também feita relativamente à primeira questão: quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie em Cabo Verde? Esticando a corda um pouco mais, isto é, levando a questão para o âmbito institucional, impõe-se ainda a seguinte questão, que é aquela que de facto nos interessa: quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie na UniCV?

Relembrando-me agora das minhas crises ‘existenciais’ durante estes seis anos de estudo contínuo na UL (quatro anos de licenciatura e dois de mestrado), confesso que todas estas questões, de uma forma ou de outra, já me assolaram o espírito. Mas desde há algum tempo para cá esta última tem-me deixado mais inquieto. Passo a explicar.

Antes de mais, que fique bem claro (nem podia ser de outro modo) que o valor e a utilidade, para a sociedade em geral, para o mundo académico e para cada indivíduo que se lhe dedique, da filosofia nunca foram uma questão de disputa para mim, apesar de inúmeras opiniões em contrário das quais já fui testemunha. As minhas preocupações são bem outras. Mas não podendo, neste momento, falar apropriadamente de todas, vamo-nos restringir à última questão, que é aquela que mais frequentemente e de forma mais preocupante me tem tirado o sono (apenas no sentido figurado, é claro). Pessoalmente, a questão das saídas profissionais de uma licenciatura em filosofia, e em particular das saídas profissionais de uma tal licenciatura em Cabo Verde, não é em si a que mais me incomoda. A questão que mais me incomoda é a seguinte: será que quando eu voltar para Cabo Verde (como é natural) poderei vir a fazer filosofia como se faz em países mais desenvolvidos? Dito de outra forma, quais as condições (bibliográficas, editoriais, de competêtencia académica, de ambiente académico, de divulgação, de debate, etc., etc.) que a UniCV terá possibilidades de pôr à disposição dos seu alunos e professores de filosofia?

Não é minha intenção, ao levantar esta(s) questão(ões), querer dizer que tais condições não existem ou que não virão a existir. A minha intenção é apenas levantar uma outra questão fundamental, que deve ser considerada por qualquer instituição que se propõe leccionar um curso de filosofia: quais são, ou virão a ser, as medidas que a UniCV deverá tomar para que as condições acima enunciadas sejam satisfeitas? Ou melhor ainda: tem a UniCV um plano estratégico, mesmo que apenas em linhas gerais, cuja finalidade seja a gradual concretização destas várias necessidades ligadas ao ensino, à divulgação e ao incentivo ao estudo da filosofia? Quanto a mim, não sei se existe um tal plano, mas que a sua existência seja imprescindível, a nosso ver, imprescindível porque a filosofia, ao contrário do que se possa pensar, não é uma actividade de tipo solipsista, isto é, não é uma actividade na qual o filósofo se encontra longe de tudo e de todos, isolado numa qualquer “caverna”; a (boa) filosofia é essencialmente uma actividade social (e é-o desde a antiguidade clássica), na qual o diálogo, a discussão, a disputa e a partilha de ideias (i.e., a divulgação) são imprescindíveis.

A título de conclusão permitam-me, caros leitores, uma auto-crítica. Não serão estes comentários injustos? Ou seja, não será exigir demais à UniCV que ela dê conta de todas estas necessidades? É justo exigir a uma instituição de ensino tão incipiente como a UniCV que possua já um tal plano estratégico, mesmo que em traços gerais? Se é justo ou não, fica a cargo do leitor analisar. Mas que seja uma exigência pertinente e merecedora de atenção é sem dúvida alguma indubitável. Assim como o é o facto de, se a examinarmos com a devida atenção, termos mais hipótese de ir ter a algum lado, e não de desembocar “a lado algum”.

26 comentários

  • Underdôglas diz:

    Estava de acordo consigo até ao ponto da sua questao se poderá exercer filosofia em cverde como num pais desenvolvido quando regressar. Lendo a sua pergunta fiquei desiludido consigo, pois o simples facto de colocar esta questao quer dizer que ainda nao aprender a apreender as questoes essenciais como estas para alguém que estuda filosofia. Nao se pode fazer filosofia em Portugal como se faz em França e na Alemanha por razoes obvias; Logo, com as devidas distâncias também nao se pode fazer filosofia da mesma maneira em Portugal e em cverde. A França e Alemanha sao potências historicas em filosofia, logo Portugal nao pode nem sonhar. A mesma coisa entre Portugal e CVerde, pois você mesmo diz que a Universidade caboverdiana nem consegue ainda elaborar um curriculum duma licenciatura de filosofia. Alguém que ja tem um mestrado de filosofia tem o direito e dever de ter respostas para essa sua interrogaçao. Enfim, sobre as incompetências da Unicv na matéria tem de perceber que tal é mesmo tranasversal à sociedade que ainda nao percebeu o que faz a filosofia. Alias mesmo no meio de gente do direito, que ainda titubeia quando tem de tratar profundamente questoes juridicas com intervençoes na filosofia ou vice versa. A maior parte dos juristas tem uma fraca formaçao filosofica, logo gagueja quando a conversa é hermenêutica juridica, hermenêutica tout court, sem entrarmos para o campo hermético das teologias e religioes. Conclusao: ajude os seus colegas juristas, porque alinhar artigos e normas, você pode aprender em dois seminarios e saber tao somente interpretar português… Boa sorte para o doutoramento..

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Caro Underdôglas,

      Em primeiro lugar, folgo em ver que o meu artigo suscitou a sua atenção, é esse o objectivo.

      Em segundo lugar, não me é óbvio que “nao se pode fazer filosofia em Portugal [e em Cabo Verde] como se faz em França e na Alemanha por razões óbvias”, quais são essas razões ‘óbvias’? Não vejo motivos nenhuns para que em Cabo Verde (e em Portugal) não se possa fazer filosofia de excelência, muito menos pelo simples facto de não serem ‘potências históricas em filosofia’.

      Para mim, o único motivo que justifique o facto de em Cabo Verde não se fazer (ainda) boa filosofia é o facto de não termos ainda condições logísticas para tal. Não duvido nem por um segundo que quando essas condições forem estabelecidas se faça muito boa filosofia em Cabo Verde assim como se faz noutras ‘potências históricas em filosofia’. Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário.

      Quanto à sua convicção de que “alguém que ja tem um mestrado de filosofia tem o direito e dever de ter respostas para essa sua interrogação”, não me parece que seja bem assim. Pois, em primeiro lugar, as questões que eu levantei no artigo não são de índole filosófica ‘tout court’, mas antes dizem respeito (de forma elementar,claro está) a assuntos relacionados com políticas de desenvolvimento educacional, no meu entendimento. No entanto, agradeço que me tenha, a mim e a qualquer mestrando (porque ainda não terminei o mestrado) em filosofia, em tão boa conta.

      Lamento não poder opinar mais sobre o seu comentário mas foi porque que não entendi o objectivo (e por vezes, o sentido) de algumas das suas opiniões e não por falta de vontade. Sobre a relação Direito/Filosofia confesso que pouco sei sobre Filosofia do Direito e muito menos (na verdade, nada) sobre Direito. Logo, não acho que tenha muito com que ajudar os ‘meus colegas’ juristas.

      Atenciosamente, Josiano Nereu

  • A.C.Silva diz:

    uma pergunta ao josiano:
    confesso a minha total ignorância quanto ao objectivo de um curso de filosofia.
    peço desculpas pela minha ignorância ( se calhar,imperdoavel) e gostaria muito ser elucidada sobre isso: Para que serve o curso?
    os meus cumprimentos…

  • Démis Lobo Almeida diz:

    Meu caro Josiano Nereu,
    Antes de mais uma pequena confissão: fartei-me de rir ao ler o teu artigo, o que só demonstra que escreves bem. Feliz do escritor que consegue retirar uma gargalhada do seu leitor, desde que esta não seja cínica, obviamente.
    Bem, já conheço as tuas posições quanto ao ensino superior em Cabo Verde, que, basicamente, ficaram expressas neste artigo, ainda que o enfoque seja dado ao curso de filosofia.
    As tuas preocupações são, no essencial, as minhas e são legítimas e pertinentes. Todos nós queremos uma Universidade pública em cabo Verde de reconhecido mérito e que goze de um prestígio internacional. Uma Universidade que seja uma referência, onde leccionam os melhores professores, onde estudam os melhores alunos; onde hajam as melhores biblioteca e centros de investigação, devidamente apetrechadas; acesso generalizado às novas tecnologias de informação e comunicação; com parcerias estratégicas com as melhores Universidades do mundo, etc.
    Esta deve ser a nossa ambição. Mas, como já dizia o outro, «o caminho faz-se caminhando». Não podemos querer uma Universidade de referência internacional, já! Tudo a seu tempo. Temos de iniciar com toda a determinação, visão, conteúdo e dinâmica o caminho rumo a esta Universidade dos nossos sonhos.
    Espero que o sr. Magnífico Reitor da UniCV (não sei porquê, mas não gosto nada desta sigla, porquê «UniCV» e não «UCV»?! Seria mais simples e teria mais pinta de Universidade Pública), deste artigo sai muitos subsídios para o aprofundamento da excelência na nossa Universidade Pública.
    Um abraço.
    P.s.: Esperoainda que no futuro toda a equipa reitoral seja constituída apenas por Doutorados com, no mínimo, 5 anos de docência depois do Doutoramento.

  • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

    Cara A.C.Silva,

    A sua questão é, por um lado, uma questão de fácil resposta e, por outro lado, uma questão de enorme complexidade. Passo a explicar.

    Por um lado, eu dir-lhe-ia que o curso de Filosofia, assim como o de Direito, os de Egenharia, o de Arquitectura, etc., tem como objectivo a correcta interpretação do que já foi feito na área e proporcionar a motivação para fazer mais e melhor Filosofia (ou Direito, ou Arquitectura, etc.).

    Por outro lado, se me perguntar para que serve o curso de Filosofia para a sociedade em geral, ou para si em particular, ou para os próprios filósofos? Bem… terei que escrever um outro artigo (fica já aqui a promessa de o fazer); e pode ter a certeza que não haverá consenso.

    Resumindo, a sua ‘ignorância’ está longe de ser imperdoável e pode ter a certeza que muitos filósofos padecem do mesmo mal.

    PS: se for a uma boa biblioteca de certeza que encontra uma boa obra de introdução à Filosofia. Há muito boas obras de introdução à Filosofia nas quais vai encontrar uma resposta à sua questão mais completa e acertada do que a que eu lhe poderia dar.

    Atenciosamente, Josiano Nereu

  • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

    Caro Démis Lobo Almeida,

    Ainda bem que te divertiste a ler o artigo.

    Como sempre (ou quase), não tenho muito mais a acrescentar ao que disseste. Apenas posso dizer que, porque o ‘caminho faz-se caminhando’, espero que cheguemos a bom porto e que a caminhada não seja demasiado longa e com muitas ‘paragens’ pelo meio.

    Concordo contigo quanto à sigla: ‘UCV’ é muito mais sóbrio e tem mais pinta de Universidade Pública que ‘UniCV’. Espero que alguém que tenha o poder de o substituir partilhe da nossa opinião.

    Atenciosamente, Josiano Nereu

  • A.C.Silva diz:

    Caro Josiano,
    agradeço a tua resposta e desde já comprometo-me a seguir o seu conselho e procurar conhecimento nessa área que desconheço. Nunca é demais adquirir conhecimento!!
    Quanto à pergunta que lhe dirigi sobre o objectivo do curso, quis perguntar quais as aplicações práticas do mesmo.O que faz um licenciado em Filosofia, em concreto??
    atenciosamente A.C.Silva

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Cara A.C.Silva,

      Como já lhe tinha dito, essa questão dá pano para mangas e não é consensual!

      Eu já me comprometi a fazer um artigo a tentar delinear uma resposta à sua questão.

      No entanto, assim de chofre e sem papas na língua, digo-lhe que , no meu entendimento, a principal capacidade que um licenciado em Filosofia deve ter é capacidade de Análise Conceptual. De forma breve, o que isto quer dizer é que um licenciado em Filosofia deve ter a capacidade de, quando confrontado com uma questão filosófica (sim, porque muitas vezes exige-se de um filósofo que ele tenha algo a dizer sobre uma questão que nada tenha de filosófica), de analisar a questão logicamente, determinar um problema e tentar resolvê-lo.

      Penso ter respondido à sua questão, assim como me pediu. No entanto penso que a sua questão prendia-se mais com o que é uma questão filosófica do que com o que faz um licenciado em Filosofia ‘em concreto’. Todavia, como já me tinha comprometido, fica para mais tarde um artigo dedicado apenas a esta sua questão.

      Atenciosamente, JN

  • Dany diz:

    Na UniCv e em CV em geral parecemos antes de sermos.
    As vezes a UniCv parece-me tristemente com um distribuidor de tachos para ex-politicos, licenciados bem relacionados e quero muito acreditar que realmente parece e não é.
    É urgente filosofar, pensar, partir do problema conhece-lo e criar as soluções (estarei eu próximo daquilo que a filosofia pretende?) . Em CV faz-se algo parecido, pelo menos de fora nossos governantes parecem pensadores dos mais agudos, mas com a desvantagem de criarmos muitos problemas tais como uma Universidade sem instalações, sem Professors um improviso total.

  • Underdôglas diz:

    Josiano, fiz uma ma manipulaçao e perdi o meu comentario à sua resposta. Ja nao tenho paciência para voltar a escrever a mesma coisas. Mas digo-lhe simplesmente que grosso modo nao estou de acordo consigo sobre o fazer filosofia em CV e na Alemnha; nem tao pouco a sua afirmaçao de que nao é nas grandes naçoes que se tem os melhores pensadores mas sim nas pequenas.

    Enfim achei-lhe muito humilde quando diz nao entender grande coisa de direito e nao ter conselho a dar aos seus colegas juristas. Convido-lhe apenas a ler o estudo ao lado sobre o direito penal e dizer-me que nao conhece as ideias dos filosofos citados sobre a maté ria de filosofia penal. Para um mestrando…

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Caro Underdôglas,

      Compreendo a sua falta de paciência para escrever tudo de novo.

      Se não está de acordo com o que eu digo sobre “fazer filosofia em CV e na Alemanha”, então isso é indicador que este debate não vai acabar por aqui; o que é óptimo.

      Quanto à sua afirmação de que eu digo “que não é nas grandes nações que se tem os melhores pensadores mas sim nas pequenas”, sinceramente, não sei de onde foi tirar isso, dos meus escritos é que não foi, garanto-lhe. Foi um mal entendido.

      Por fim, obrigado pelo elogio e agradeço igualmente o seu convite a ler o estudo ao lado. Vou fazê-lo.

  • Ernesto Marley Cabral diz:

    Antes de mais parabéns pela inicitiva.
    Apetece me cantar “sun is shining” do Bob Marley. Agora temos que crescer juntos.
    A. Cabral estaria orgulhoso de certeza…

    Aproveitando o facto de estarem a abordar um tema relacionado com um site oficial, e que tal o site da Embaixada de Cabo Verde em Portugal?
    Um site sem utilidade e com um design triste.

    É preciso passar um dia na Embaixada par tirar um registo criminal? É difícil ter este serviço, e muito outros possiveis de ter o mesmo tratamento, disponiveis online?

    Desafio vos a reflectir sobre um problema muito proximo, podemos começar a revolução por ai.

  • Underdôglas diz:

    Os debates nunca têm fim mas pelo contrario você e eu porque nao somos eternos. Com que entao você continua convicto de que se pode pode fazer filosofia de qualidade que seja referência universal em Cverde, assim como tem sido o caso de Alemanha?

    Sinceramente meu caro, seja mais humilde. Ou ja pensa que pode ser um Kant, um Heidegger, um Husserl, um Hegel? Sinceramente, acha que CVerde pode um dia vir a ter um Hegel? Que é possivel produzir-se uma obra como a Fenomenologia do Espirito de Hegel em CVerde?

    Enfim, vejo que finge nao entender a pequena interpretaçao que eu fiz da sua afirmaçao. Bem desta ves para nao haver duvidas vou mesmo citar-lhe à letra:

    (…) se faça muito boa filosofia em Cabo Verde assim como se faz noutras ‘potências históricas em filosofia’. Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário”

    A primeira parte da citaçao sobre a tal “boa filosofia em CV assim como noutras potências (como Alemanha p ex) ja està respondida acima. Vejamos entao a ultima parte:

    “. Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário”.

    O que é que esta sua frase quer dizer a nao ser a interpretaçao que eu fiz e cuja frase volto a citar?:

    (…) que não é nas grandes nações que se tem os melhores pensadores mas sim nas pequenas”.

    Mas nao acha que as duas frases sao idênticas, querem dizer a mesma coisa?

    Quando afirma que “. Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário” o que é que quer dizer entao?

    Nao quer dizer que nao sao as potências hitoricas que produzem os pensadores como Hegel, KANT e outros citados por mim, mas sim “bem o contrario?

    O contrario de potências historicas, sabendo que potência quer dizer grande, magnânimo etc, nao seria pequena? Nao seria aquela naçao que nao é potência, logo pequena? Logo, por exemplo CVerde?

    Cite-me la entao os pensadores (de filosofia, pois é isso que está em debate) de CVerde que estao em pé de igualdade dos da Alemanha ou França!

    Acho que você meteu-se em dificuldades querendo ver-se ja no mesmo patamar de Hegel! Para um mestrando que acha que nao percebe grande coisa de direito, como é que pode perceber a filosofia do direito de Hegel?

    Ja agora, em Portugal, um mestrando de filosofia ja tem no seu curriculum as linguas alemã e grega para a interpretaçao directa de texto? Antigamente no tempo em que uma licenciatura era de 5 anos e um Mestrado de dois anos, quer dizer 7 anos de estudo, existiam essas opçoes.

    E’ porque você nao pode fazer filosofia a sério pondo CVerde no mesmo patamar que a Alemanha seja conhecer os textos no original quer dizer em alemao e grego.

    Underdôglas

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Caro Underdôglass,

      Em primeiro lugar, penso que se gerou aqui um enorme mal entendido, relativamente a uma frase minha que, penso eu, é completamente clara e inequívoca. Mas apresso-me a esclarecer o mal entendido.

      Penso que que as seguintes frases:

      “Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário.”

      e

      “(…) Não é nas grandes nações que se tem os melhores pensadores mas sim nas pequenas.”

      não são equivalentes, i.e. não querem dizer a mesma coisa. Na verdade são contraditórias entre si. A primeira frase diz que os grandes pensadores, não o são por nascerem neste ou naquele país, seja ele uma ‘potência’ em filosofia ou não. A segunda frase diz que os grandes pensadores só nascen nas pequenas nações (‘não-potencias’ em filosofia, entenda-se), o que contradiz a primeira frase.

      Espero que se tenha resolvido o mal entendido.

      Quanto à minha firme convicção de que grandes pensadores não são propriedade da Alemanha ou da França ou…, reafirmo-a. E acredito que em CV se venha a fazer filosofia de excelência, com as condições logísticas certas.

      Atenciosamente, JN

  • Underdôglas diz:

    Para se compreender ha que corrigir a ultima da frase a terminar depois de Alemanha, lendo no lugar seja…. sem conhecer os textos…..

  • S. Félix diz:

    Li o texto de Josiano Nereu e as críticas que lhe seguiram e acho que é claro como água que o que quis dizer é que um bom pensador pode nascer em qualquer nação.
    Cabo Verde, simplesmente, (ainda) não não tem tradição filosófica.

    Além do mais, penso que leituras extensivas sobre a filosofia do direito de Hegel, que tem um sistema filosófico tão complexo, não servem de muito a quem nem tem capacidade de interpretação de um texto tão simples do Josiano Nereu.

  • Underdôglas diz:

    Nao, Josiano nao se gerou nada de “enorme mal entendido”! Nao entre pânico porque ainda estamos apenas a interpretar uma frase em lingua portuguesa; Nao estamos ainda a comentar ou interpretar um texto filosófico. Portanto tenha calma e comece primeiro por saber português. A mesma coisa peço ao Felix que se arma em atrevido quando nem sabe empregar o se; o correcto é que se lhe….

    Vamos retomar as coisas do começo. No meu primeiro comentario à sua primeira contribuiçao eu escrevi esta frase palavra por palavra sempre partindo do pressuposto de que estavámos como é óbvio a falar de filosofia. O tema é filosofia e nao literatura, matematica ou medicina:

    “A França e Alemanha sao potências historicas em filosofia”.

    Foi a partir desta frase que o Josiano respondeu e cito:

    “Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário.”

    Até aqui tudo claro ou nao?! Claro que sim.

    Ora bem, eu nao estava e nao estou de acordo com a sua afirmaçao pelo que fiz uma interpretaçao que nao caiu no seu agrado, apesar de eu continuar a defendê-la, pelo vamos pô-la por ora de lado.

    FiQUEMOS pois com a sua afirmaçao que você agora esclareceu assim:

    “os grandes pensadores, não o são por nascerem neste ou naquele país, seja ele uma ‘potência’ em filosofia ou não”.

    Ora bem eu nao estou de acordo com esta sua leitura. Esta ultima citaçao nao interpreta correctamente a sua primeira citaçao que volto a colocar aqui:

    “Não são as potências históricas que fazem os pensadores, é bem o contrário”

    Esta ultima citaçao é uma nova citaçao e nao é idêntica a aquela que quer que seja. Você acabou pois por escrever duas frases distintas. Até porque nao se esqueça que você me estava a responder ao meu primeiro comentario que repesco para que as coisas fiquem claras:

    “A França e Alemanha sao potências historicas em filosofia”.

    Ora bem com esta minha afirmaçao eu chamava-lhe à atençao para o facto de nao ser possivel ainda fazer filosofia em CV e Portugul que seja referência MUNDIAL, como se fez e se faz em França e Alemanha que sao potências historicas em filosofia.

    Claro como agua, ou nao? E’ um facto historico que estas duas naçoes a França e Alemanha sao referências mundiais, o que chamei potências, em matéria de filosofia? E’ verdade ou falso? Claro que é verdade e os nomes que eu citei estao ali para o provar.

    So que você quis contrariar-me, o que é um paradoxo, depois de você ter feito essa critica demolidora sobre o curso de filosofia na UNICV, o que alias eu estou de acordo e que ficou bem claro no meu comentario.

    Ora bem você de repente reage ao meu comentario, dizendo que nao, é possivel fazer-se filosofia em CVerde e Portugal com um mesmo nivel universal daquele que se faz em França e Alemanha. Mas até agora nao foi capaz de o provar nao tendo citado por exemplo um unico filosofo universal de Portugal e de CVerde. No caso de Portugal até que existiram bons filosofos no passado como por exeplo Fonseca, o Aristoteles português. Mas por acaso nao me referia a esse passado longinquo, mas bom até que me podia acenar com esse. Mas em relaçao a CV, quem?

    Mas ha ainda uma pequeno entorse que fez nas suas interpretaçoes. O de me responder “pensador”, quando você sabe perfeitamente que estavamos a falar de filosofia. Porque é que nao escreveu filósofo preferindo “pensador”.

    Você sabe perfeitamente que um filósofo e um pensador podem nao ser sinónimos e até ha países que alguns querem que tenham somente pensadores e nao filósofos. Digamos que a leitura ocidental é de que os filósofos existem nos países de cultura ocidental, enquanto a China por exemplo nao teria filósofos mas sim pensadores.

    Mas aqui ja estou a complexificar mais a tematica.

    Conclusao: fiquemos mais cingidos aos nossos três comentarios, o meu inicial e os seus dois outros, que sao duas frases distintas.

    Como é evidente que estou de acordo consigo quando afirma e cito:” “os grandes pensadores, não o são por nascerem neste ou naquele país, seja ele uma ‘potência’ em filosofia ou não”.

    Infelizmente o ponto de partida era outro; ” A França e a Alemanha……”

    Underdôglas

  • Ladner de Fortim diz:

    Desculpem lá a minha ignorância filosófica. Então acham que este chão de “Cao Berdi” não é suficientemente adubado filosóficamente a ponto de nascer um filósofo “dret”? Meu Deus. Essa agora, Conseguimos pôr de pé um país a partir do nada e não podemos criar, fazer ou parir um grande filósofo. Sabem uma coisa, deixa pra lá, é melhor preocuparmo-nos por enquanto com a luta contra pobreza no sentido de “a favor dos pobres” e deixemos coisas de pensadores. Pensar com barriga vazia não é exatamente agradável. Porém, houve, há e haverá sempre gente a pensar e a filosofar, agora o grau ou nível a atribuir vai depender de quem analizar esses pensamentos. Cícero disse: Para ser orador, é preciso ter uma filosofia. Oradores temos muitos e bons, aí filosofia é coisa que não falta. Mas, como dizem voces, não são tão bons a ponto de serem UNIVERSALISADOS.

  • Djão/João diz:

    se bo tivesse tirado um curso a serio, ca é cursos da bla bla muito, poxa bosses faze ciencias é que principalmente pode faze terra evolui, agora filosofia, direito, cabo verde ta cheio desde tipos li que ca ta faze nada, ta espera pode entra na politica pa poi mo na bolso e cmé camarão..

    Mas ca no esquece ki cabo verde é pequeno ca tem espaço suficiente pa “GRANDES HOMENS” , pq infelismente nem dentro de africa no ca tem voz

    filofosos ja da o que tinha pa dá (muitos seculos a traz quando ainda pessoal podia ser: filofoso, matematico, fisico…), agora é copiadores que mania de inventores.

    Saida profissional:
    - da aula de filosofia (limitado)

    jovem mim ca estuda nada de filosofia mas um ta filosofa tb.

  • Underdôglas diz:

    Filosofia é para ensinar-nos a reflectir, a pensar…. CORRECTAMENTE! Nao basta pensar, porque toda a gente pode pensar ; ha que pensar correctamente e segundo os contextos, as matérias e disciplinas, sobre a vida e a morte; de maneira correcta, segundo os cânones.

    Mas fundamentalmente filosofia serve para nos ensinar a falar, a debater com argumentos de peso, logicos e repeitando sempre o outro, a dignidade humana. Saber fazer uso da dialéctica, da retórica, saber encadear silogismos. Por exemplo Josiano diz que Cverde pode fazer filosofia universal como Alemanha, mas fundamentar.

    Saber nomear a, b ou c e nao dizer que acha. Quando lhe peço para me mostrar o Hegel caboverdiano ele tem de fazer isso e provar por a mais b, e nao limitar-se a pensar que acha que…

    Enfim, eu nunca escrevi aqui nem em lado nenhum que CVerde nao pode ter um filosofo “drêt”. Claro que CVerde pode ter. Mas um filosofo drêt nao responde à minha pergunta. Eu disse filosofo que sirva de referência universal, como Kant, Descartes ou Hegel serviram e continuam a ser vir de modelo.

    Alias, Josiano estudou filosofia, mas que filosofos, senao os que acabo de citar e mais os gregos etc e tal?

    Volto a perguntar Cverde pode vir a ter um Platao, um Aristoles? Duvido seriamente. Mas com isto nao digo que CVerde nao possa ter os seus filosofos, mas nao da envergadura dos da Alemanha e França.

    Poderia ter se Joao Vario tivesse feito de facto filosofia. Alias, na sua obra ha muita filosofia, ha muita metafisica. Mas nao acho que ele tenha chegado à altura de Hegel e dos outros. Até porque ele fez mais poesia e ciência.

    Mas que em ciencia, neurologia e biologia e mesmo poesia, Joao Vario ja pode ser equiparado a Goethe e ultrapassado Hegel, porque em matéria de ciência Hegel nunca meteu o pé!

    Alias, se se debruçar a fundo sobre a obra de Vario, talvez ainda se descubra algo na sua poesia que possa vir a ser vista como filosofia. Eu ainda nao cheguei la…

    Agora que Vario era um pensador igualado a Hegel, Goethe, Shiller, Pessoa e tantos e tantos outros nomes da cultura e civilizaçao universais, eu nao tenho duvida nehuma. Mas é so Vario, no meio da nosssa gente, chegou a esse patamar.

    Underdôglas

  • sandro diz:

    Josiano, o que entendes dizer com a expressao fazer “boa filosofia”? Existe entao, uma “boa” e uma “mà” filosofia? Se em CV, ainda nao se faz a boa filosofia, quer isto dizer que se faz aquela mà? E mais, quais sao essas condiçoes logisticas que impedem o devir da boa filosofia em CV?
    Sinceramente, de um estudante de filosofia nao esperava tais conceitos… mas pode ser que estou errado!!!

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Caro Sandro,

      ‘Boa filosofia’ é filosofia conceptualmente rigorosa.

      Sim! Existe boa e má filosofia: a boa é aquela que não é rigorosa, a má é q não é.

      Não! Em CV não se faz nem boa nem má filosofia, ainda não se faz filosofia (visível, pelo menos).

      Quanto à sua última questão, a meu ver deixei claro no artigo quais são os défices logísticos de que estamos a falar.

      Atenciosamente, JN

  • Enio Fontes diz:

    Alô Nereu, era só pra te enviar um grande abraço. Já la vão 5 anos desde o tempo que estive na faculdade de letras. Boa iniciativa esta Tertulia Crioula. Parabens pelo projecto. deixo aqui meu mail: lanuvio@hotmail.com . Força!

    • Josiano Nereu Josiano Nereu diz:

      Caro Énio Fontes,

      É verdade, já lá vai muito tempo. O tempo passa a correr.
      Participa mais vezes, precisamos de mais filósofis por aqui.

      Atenciosamente, JN

  • sandro diz:

    Caro Sandro,
    Confesso-te que fiquei desiludido com a resposta às minhas observaçoes.
    Acrescento somente que, como observou bem o sr. Underdoglas, tens um deficit de manipulaçao dos conceitos. Nao que isso seja um pecado, mas para fazer a tal “boa Filosofia” (achei a tua definiçao muito redutiva e vaga) de que falas, nao è suficiente somente a rigorisidade…
    Depois esta expressao “logistica” empregada aquì soa como se estivesses falando de alguma mercadoria. Repito, como estudante de filosofia foste muito reticente; mas, como consolaçao digo-te que tens ao teu favor o tempo:
    Por isso, boa sorte.
    Atenciosamente.

  • sandro diz:

    Naturalmente, o comentario era endereçado ao Josiano e nao à minha propria pessoa, pelo que é correcto: Caro Josiano.
    As minhas desculpas.

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