Migração: um mal necessário
Metamorfose de uma Nação “Transnacional”. A emergência de uma nova realidade cultural, caracterizada pelo pluralismo, fruto da emigração e de imigração.
A posição geográfica do arquipélago de Cabo Verde, a 500 km da Costa Ocidental do continente africano, a meio dos três continentes (África, América e Europa) colocou-o numa posição privilegiada, no seio do atlântico, o que nos permite dizer que a sua posição geográfica privilegiada está intimamente ligada à formação e ao desenvolvimento social, tendo em conta, sobretudo, o papel dos portos cabo-verdianos ao longo da nossa história, e mais recentemente do aeroporto nas rotas transatlânticas.
No entanto, pela situação geográfica e pelas condições climáticas adversas do arquipélago, o cabo-verdiano “desde sempre” que está habituado a emigrar à procura de uma vida melhor. A emigração constitui, desde há muito, uma realidade ininterrupta da sociedade cabo-verdiana.
Essa actividade migratória remonta aos primórdios da colonização portuguesa. Contudo, durante o século XX notou-se um maior fluxo de emigração no arquipélago e ainda hoje é uma realidade com bastante peso na nossa sociedade, principalmente no que tange a questões profissionais (estudos, emprego etc.) e de saúde, tendo como principal destino os países europeus (Portugal, França, Holanda, Luxemburgo etc.) e os países do continente americano (E.U.A., com principal destaque para as zonas de Boston, Providence, New Bedford, New York, e para o Brasil, Argentina, Uruguai etc.). Como podemos constatar, a migração cabo-verdiana nasceu durante a colonização portuguesa e, fundamentalmente, continuou e continuará, seguramente, a tatuar a vida social dos cabo-verdianos.
Porém, a emigração não é algo recente e nem é fruto do acaso. Ela nasceu, em primeiro lugar, dos reveses naturais: geográficas e climáticas, que vêm culminando, muitas vezes, em estiagens cíclicas e a consequente fome, por vezes endémicas, como a de 1863-1866, 1903-1904, 1947…, isto falando apenas de alguns anos dos séculos XIX e XX. Neste sentido, analisando a emigração cabo-verdiana, permite-nos apontar aqui dois tipos de emigração dominante no arquipélago: a forçada (emigração potenciada pelas circunstâncias adversas do país, como as estiagens prolongadas e a consequente fome, em que as pessoas foram basicamente obrigadas a emigrarem para S. Tomé e Príncipe, para poderem sobreviver) e a livre (uma emigração de carácter espontâneo, que está estreitamente ligado ao sector pesqueiro, tendo como principal destino a América do Norte. Segundo alguns historiadores, como por exemplo António Carreira, na sua obra Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, essa emigração começou no final do século XVII e inícios do XVIII). Como aludi anteriormente, não podemos desassociar os portos (e a sua importância) na migração cabo-verdiana.
A emigração constitui um factor de separação e, simultaneamente, uma ajuda preciosa para o arquipélago, principalmente através das remessas dos emigrantes que têm como objectivo o desafogo familiar, assim como constitui uma ajuda preponderante para o equilíbrio do défice da balança comercial (de forma bastante significativa). A principal origem das remessas são dos E.U.A., e dos países europeus, como Portugal, França, Holanda, Luxemburgo etc. Digamos que ela foi e continua a ser um “mal necessário” para o povo cabo-verdiano.
Contudo, analisando a nossa situação actualmente, que como sabemos há um número elevadíssimo de cabo-verdianos a viver estrangeiro – há no país aproximadamente 500 mil habitantes e no estrangeiro um número igual ou superior de cabo-verdianos –, posso afirmar que somos uma nação-transnacional.
O que quero dizer com uma nação-transnacional?
Ora, há, efectivamente, um Estado-Nação cabo-verdiano (constituído por aqueles que nasceram e vivem em Cabo Verde) e uma nação cabo-verdiana espalhada pelo mundo – de emigrantes – unidos por um sentimento de pertença a um determinado espaço geográfico, uma diversidade cultural e por laços sanguíneos. Ou seja, uma nação constituída pela diáspora (espalhado por três continentes: África, América e Europa).
Essas sociedades passaram e ainda passam por vários problemas de carácter social (como a integração a uma nova realidade social e cultural etc.), muitas delas foram simplesmente deixadas à mercê do destino incerto da marginalização. Mas, mesmo em situações adversas, não abandonaram as suas raízes, mantiveram sempre o contacto com Cabo Verde e graças a essas comunidades de emigrantes podemos definir o nosso país hoje. Essas sociedades de emigrantes afirmam-se pela memória das suas origens. A herança dos seus antepassados, da sua terra natal, marca a diferença perante as outras realidades, que por um lado certifica a continuidade, e por outro, através das múltiplas influências vai fortalecendo uma nova identidade, forjado nos traços culturais herdados e nas adquiridas.
A emigração contribuiu para a formação e desenvolvimento de novas nações, mas também para o enriquecimento cultural do nosso país, tornando-o (por influências da diáspora, dos repatriados e dos imigrantes em Cabo Verde, como os dos países da África Ocidental, como a Guiné-Bissau) multicultural. O problema consiste em saber lidar, ser tolerante e receptivo a nova realidade cultural, que se caracteriza pela sua diversidade, visto que haverá contacto, influências de parte a parte.
Em suma, podemos dizer que a nação cabo-verdiana é uma nação que transcende a geografia do arquipélago, ou seja, transcende em muito o Estado cabo-verdiano. Essa nação-transnacional formou-se, efectivamente, através da emigração, constituindo-se pela diáspora cabo-verdiana, apregoada pelo mundo, unidos por um sentimento de pertença a uma cultura plural, a um espaço geográfico e por laços sanguíneos próprios. Porém, como somos um país de emigrantes e de imigrantes é preciso saber lidar e tirar proveito, se for possível, da riqueza cultural que, de parte a parte, podem transmitir um ao outro.
Caro Edmilson,
Antes de mais queria lhe dar os parabéns pelo tema. (In)felizmente, este mal perdurará no tempo, como disseste e bem, devemos saber lidar e tirar proveitos da migração.
Devemos estar ciente, estudar, planear, preparar para este fenómeno, aproveitando ao máximo para tirar o maior proveito dela e de certeza vamos ganhar, principalmente, a nível social e cultural. O que fazer?
- Pode-se criar as condições para integrar os “rapatiados” na sociedade, trazem com eles muitas virtudes que podem ser aproveitados como as técnicas do basquetebol, línguas(inglês), artes(desenhos, pinturas) etc;
- Pode-se criar condições para o ensino da esculturas, pinturas, manusear os colares e outras artes e culturas trazidas da África Continental
Enfim, temos que criar estratégias e condições para minimizar os efeitos negativos e maximizar os efeitos positivos da migração.
Cumprimentos,
Caro mrvadaz,
Antes de mais muito obrigado pela atenção dado ao artigo e pelo comentário.
De facto tens razão e concordo na íntegra com a sua ideia. É preciso, verdadeiramente, que haja uma análise, uma reflexão profunda na nossa sociedade sobre os imigrantes e os “repatriados”, no sentido de “tirar proveito” da sua vivencia, da cultura que levam consigo para o arquipélago.
Porém, analisando a situação cabo-verdiana actualmente podemos facilmente chegar a conclusão que até então não soubemos aproveitar a diversidade cultural desses grupos, o que para mim é uma tristeza, porque são grupos de uma riqueza cultural extraordinário, que podia, com uma boa estratégia de inserção local, ser uma mais valia para a nossa sociedade.
Mas, entretanto, temos, também, de estar atentos a essas novas realidades culturais, caracterizada pela sua diversidade e saber conviver, respeita-las de modo a não permitir um possível “choque cultural”. É um assunto muito sério e que merece da nossa parte todo o respeito e consideração. Precisamos de reflectir seriamente sobre essa realidade e apontar um caminho a percorrer…
Mais uma vez muito obrigado.
Com os melhores cumprimentos,
Edmilson Varela