Claridade
“ (…) movimento claridoso teve um papel preponderante na afirmação e emancipação da cultura cabo-verdiana face a cultura dominante na época – da metrópole. (…) lutando pela afirmação de uma identidade cultural nacional própria, preocupando-se (…) com a situação social, política e económica do arquipélago”.
O desenvolvimento sociocultural de Cabo Verde, nos finais de século XIX e durante o século XX, deve-se fundamentalmente a tradição escolar local – recorda-se que durante o século XIX temos a criação de instituição de ensino, primaria, secundária e, mais tarde, seminário liceu de S. Nicolau, em 1866 – e a introdução da imprensa no arquipélago. Com isso, temos uma multiplicação local de actividades ligadas: a imprensa, (publicação de vários periódicos, como: O Independente (1877), foi o primeiro jornal publicado em Cabo Verde; depois seguiram-se outras publicações, ainda no decorrer do século XIX, exemplo: Echo de Cabo Verde (1880), Imprensa (1880-81), A Justiça (1881) Revista de Cabo Verde (1899); e continuou no século XX, A Esperança (1901); A Liberdade (1902-1903) etc.), a literatura, ao aparecimento de movimentos literários, como o movimento claridoso etc.
Foi nesta conjuntura social e cultural propícia que apareceu a Revista CLARIDADE em 1936, na cidade de Mindelo, S. Vicente e na mesma cidade foi publicado o último número em 1960.
A ideia inicial dos fundadores da revista CLARIDADE: Baltasar Lopes, Manuel Lopes e Jorge Barbosa, consistia em criar um jornal com a finalidade de pôr cobro a lacuna existente no arquipélago da imprensa, debruçando-se sobre a situação social e política que se vivia em Cabo Verde. Porém, perante o preço do deposito prévio que rondava os 50 mil escudos e tendo em conta, sobretudo, a época em questão, década de 30, e os problemas financeiros existentes localmente, desistiram da ideia do jornal, canalizando assim os esforços para a criação de uma Revista, que vieram a dar o nome de CLARIDADE, influenciados pela existência na Argentina de uma revista chamada CLARIDDAD e também da França, através do romance Le feu, de Henri Barbusse, que era do conhecimento de todos.
Os fundadores da revista foram fortemente influenciados pela cultura local, em particular da literatura cabo-verdiana e dos seus agentes, como dos escritores precedentes: Pedro Cardoso, Eugénio Tavares, José Lopes etc. Receberam, igualmente, influências externas, nomeadamente a presença no arquipélago de alguns escritores portugueses nos anos 20/30, como Augusto Casimiro, António Pedro, José Osório de Oliveira, além das influências da Revista Presença e ainda da literatura brasileira. Todos estes elementos, endógenos e exógenos, tiveram uma tremenda interferência no desenvolvimento do “projecto” literário e nos seus autores.
A conjuntura social e política vigente na altura na metrópole – Estado Novo, com várias influências dos Estados fascistas da Europa: Alemanha e Itália Nazi – e a influência que tiveram nas então províncias ultramarinas portuguesa de África e a própria realidade local motivou-os a definir fins. Deste modo, elegeram como objectivo, por um lado, o combate político a favor do arquipélago através da imprensa, visto que ela por si só constituía uma arma poderosíssima no combate ao regime vigorante e, por outro, como disse um dos seus fundadores, o objectivo passava ainda por «fincar os pés na terra», ou seja, “um debruçar ansioso e atento sobre os problemas vitais de Cabo Verde e as condições de vida do seu povo” (Baltazar Lopes, in: Claridade, 1988, p. XIII-XV).
A revista teve um grande impacto social, fundamentalmente a nível literário, publicando inúmeros artigos literários dos jovens autores cabo-verdianos, dando a conhecer através da literatura: poemas, contos, romances etc., apresentando sempre como “pano de fundo”, a realidade social, política, cultura e quiçá religiosa do arquipélago. Todavia, tendo em conta o regime que vigorava na altura baseado na censura, através dos seus agentes, designadamente da PIDE (Policia Internacional e de Defesa do Estado), tiveram de ser discretos, caso contrário corriam o risco de serem alvos de processos polícias, do referido órgão e encarcerados no temido campo de concentração de Tarrafal, onde foram presos e torturados várias vozes contra o regime. Porém, mesmo assim alguns artigos foram visados pela censura, como por exemplo o artigo da página 9, da revista nº 2, Um galo que cantou na Baía…, um excerto do conto de Manuel Lopes.
Foram publicadas entre 1936 e 1960 um total de 9 números que, pelo qual, podemos dividi-los em 3 fases: o primeiro: ou seja, a fase inicial vai de 1936-1937, foram publicados 3 números; o segundo começou em 1947 à 1949, publicados 4 números; o terceiro e último período começou em 1958 à 1960, foram publicados 2 números. Apenas a primeira fase contou com a colaboração de todos os elementos, sendo que os restantes números foram elaborados e publicados à responsabilidade de Baltazar Lopes. Isto dado ao facto de os outros elementos do grupo se encontrarem ausentes e dispersos por motivos profissionais.
A revista contou ainda com a colaboração de vários escritores cabo-verdianos, a exemplo de Artur Augusto, João Lopes, Pedro Corsino Azevedo, Arnaldo França, António Aurélio Gonçalves, Tomaz Martins, Nuno Miranda, Agnaldo Brito Fonseca, Gabriel Mariano, Félix Monteiro, Mário Macedo Barbosa, Henrique Teixeira de Sousa, Ovídio Martins…
Durante a sua vigência, publicaram inúmeros artigos, focados sempre na tradição local, como por exemplo nos primeiros números deram grande relevo a tradição Oral: Nº 1: Lantuna & motivos de finaçom (batuque da Ilha de Santiago); Nº 2: Vénus – morna de Xavier; Nº3: Poema de quem ficou – Manuel Lopes; os restantes números deram igualmente grande destaque a cultura cabo-verdiana, em particular a língua cabo-verdiana, publicando artigos sobre a música do arquipélago, em particular da Ilha de Santiago, como dos géneros musicais “Finaçon” e “Batuque”. Similarmente, o “Batuque” teve na revista nº 6 e 7 artigos de carácter científicos sobre a sua origem e evolução, ainda publicaram vários outros artigos de carácter etnográfico e sociológico sobre a realidade social e cultural cabo-verdiana.
Em forma de síntese, podemos dizer que o movimento claridoso teve um papel preponderante na afirmação e emancipação da cultura cabo-verdiana face a cultura dominante na época – da metrópole. Representa um ponto de viragem da literatura moderna cabo-verdiana, com uma vertente rigorosamente nacional, lutando pela afirmação de uma identidade cultural nacional própria, preocupando-se, como aludimos anteriormente, com a situação social, política e económica do arquipélago.
Porém, passados hoje praticamente 74 anos da criação da Revista CLARIDADE, penso que é legitimo interrogarmos nos sobre a sua posteridade: O quê que representa o movimento claridoso para os jovens actualmente? Será que estamos conscientes da importância deste movimento para a nossa cultura, ou seja, para a afirmação e autonomia da nossa nação? Etc.
É claro que a nossa intenção não é de todo responder estas questões mas, sim e também, despertar a consciência dos cabo-verdianos de que não se pode construir o presente sem o passado, ou seja, para podermos compreender realmente quem somos hoje temos obrigatoriamente de ter em conta o que já fomos. “Quem somos hoje é fruto de quem já fomos no passado”, dizia António Barreto num programa da RTP1, 2009. Isto é, temos de compreender o passado para podermos perceber o presente, perceber principalmente, que a nossa cultura foi preponderante para a afirmação da nossa nação, que mais tarde veio legitimar a formação do Estado de Cabo Verde – a nossa independência política.
Portanto, este trabalho não é apenas uma reavivar da memória cultural cabo-verdiana, uma homenagem ao movimento claridoso, mas também um grito de apelo à todos nós sobre a nossa responsabilidade de estudo, preservação, divulgação e, fundamentalmente, da compreensão da nossa própria história. Sabemos, todavia, que não é fácil lutar contra “os males do tempo”, sobretudo nos dias que correm – estamos constantemente a ser “torpedeados” por factores que apenas favorecem o esquecimento – contudo, é possível lutar contra esses “males”, mesmo sabendo que não é possível preservar tudo. O importante aqui é saber o quê que devemos “preservar”, dar prioridades e o que simplesmente devemos ignorar, esquecer, estando sempre consciente de que “o esquecer”, também faz parte da história. Pois, este trabalho também pode ser encarado nesta óptica.
Para terminar, gostaria de apresentar um dos poemas do autor e um dos fundadores da Revista: Baltazar Lopes da Silva. Ele utilizava muitas vezes o pseudónimo de Osvaldo Alcântara, como podemos constatar no exemplo a seguir de um dos vários poemas publicados na Revista CLARIDADE:
MAMÃI
Mamãi-Terra
Venho rezar uma oração ao pé de ti.
Teu filho vem dirigir suas súplicas a Deus Nossenhor
Por ele
Por ti
Pelos outros teus filhos – espalhados
Na superfície cinzenta do teu ventre mártir,
Mamãi-Terra.
Mamãizinha,
Dorme, dorme,
Mas, pela virgem Nossa Senhora,
Quanto te acordares
Não te zangues comigo
E com os outros meninos
Que se alimentam de ternura das tuas entranhas.
Mamãizinha,
Eu queria dizer minha oração
Mas não posso;
Minha oração adormece
Nos meus olhos, que choram a tua dor
De nos quereres alimentar
E não poderes.
Mamãi-Terra,
Disseram-me que tu morreste
E foste sepultada numa mortalha de chuva.
O que eu chorei!
Sinto sempre tão presente no meu coração
O teu gesto de te levantares
Buscando o pão para as nossas bocas de criança
E no dirigires a consolança das tuas palavras
Sempre animadoras…
Eu procurei teu túmulo
E não o encontrei.
E depois,
Na minha dor de filho angustiado,
Me disseram que te haviam sepultado
Numa migalha de terra
No meio do mar.
Embarquei num veleiro
E fui navegando, navegando…
Não morreste, não, Mamãizinha!
Estás apenas adormecida
Para amanhã te levantares.
Amanhã, quando saíres,
Eu pegarei o balaio
E irei atrás de ti,
E tu sorrirás para todo o povo
Que vier pedir-te a bênção.
Tu nos deitarás a bênção.
E eu me alimentarei do teu imenso carinho…
Mamãizinha, afasta-te um bocadinho
E deixa o teu filho adormecer ao pé de ti…
Osvaldo Alcântara, Mamãi, in: Claridade, Mindelo, S. Vicente, 1936, Nº. 2, p. 7.
Bibliografia:
- Cabo Verde, Insularidade e Literatura, coordenado por Manuel Veiga, Paris, 1998, Karthala.
- CLARIDADE, Revista de arte e letras, Organização, Coordenação e Direcção de Manuel Ferreira, Praia, 1989, Instituto cabo-verdiano do Livro.
- OLIVEIRA, João Nobre, Imprensa Cabo-verdiana 1820-1975, Lisboa, 1998, Fundação Macau.

caro Edimilson
Sem dúvida que, o movimento claridoso teve um papel e uma acção prreponderante na contrução da nossa identidade cultural que nós hoje vivenciamos, no entanto o seu apelo á conciência colectiva, quanto a necessidade de retrocedermos ao passado, no sentido de compreendermos a fase embrionária da eclosão do estado Caboverdeano, parece-me não ser de todo, tendo em conta a conjutura mundial, o essencial.
Concordo, com a posição e o ponto de vista do Dr. António Barreto, mas também tenho a plena conciência de que, qualquer sociedade é amanhã, o que ela fizer hoje.
Sendo assim, no meu ponto de vista, urge primeiramente a necessidade de na conjuntura presente colmatar os aspectos nefastos e torpes na nossa cultura como forma de preparar um amanhã diferente, e não hipotecar a sanidade do futuro do espectro socio-cultural da geração vindoura.
Abraços
Caro Ulisses Vieira,
Antes de mais muito obrigado pela atenção dado ao artigo e pelo interessante comentário do mesmo.
No entanto, continuo a achar que o presente é fruto do passado e não podemos passar por cima, porque senão estaríamos a construir um “falso presente”. Mesmo as más memórias, há muitos casos disso e de conhecimento de todos, que é preciso ignorar porque sabemos que não são boas memórias e que consequentemente não podemos tirar nenhum proveito desse passado. Mas atenção, isso não quer dizer que devemos ficar simplesmente “agarrados” ao passado, não é isso, portanto temos de ver o passado como o exemplo (em alguns casos).
Em relação ao “último parágrafo” do seu comentário:
“Sendo assim, no meu ponto de vista, urge primeiramente a necessidade de na conjuntura presente colmatar os aspectos nefastos e torpes na nossa cultura como forma de preparar um amanhã diferente, e não hipotecar a sanidade do futuro do espectro socio-cultural da geração vindoura”.
Confesso que não consigo perceber a razão, porque na nossa cultura não vejo os tais “aspectos nefastos e torpes” ao qual devemos colmatar para construirmos um futuro melhor. Penso, com todo o respeito, que não é o caso.
Muito obrigado.
Cordialmente,
Edmilson Varela
caro Edmilson
Primeiramente, queria lhe chamar atenção pela equivocação interpretativa do texto redigido por mim, da sua parte.Sendo assim, não queria eu insinuar, que devemos ignorar o passado cultural do nosso povo,porque tenho a plena conciência que Cabo – Verde é hoje em parte fruto do que os nossos ascendentes fizeram ontem.
Existe, a necessidade de proteção no seio da nossa identidade cultural certos valores(a integridade fisíca das mulheres e das crianças, a paz, a integridade patimonial e.t.c) que, infelizmente estão a ser constantemente lesados(violência doméstica,os distúrbios socias, assasinatos, pertubação da ordem pública e.t.c) ora por comportamentos desviantes isolados ora por subculturas desviantes comportamentos idiossincraticos ignóbeis ou ainda por políticas socais ineficazes e mal direcionadas.
É necessário e é de suma importância, que nós devamos olhar para as coisas boas do passado, como forma de compreendermos a nossa identidade cultural, no entanto tendo em com, o status quo de momento, não nos deixa manobra para tal, a não ser que enveremos pelo trilho duma contracultura adequado á necessidade de alternância, dos tempos caóticos que na nossa realidade interna se vivencia.
O debate continua…
Abraços
Caro Ulisses,
Antes de mais peço desculpa pelo equívoco. Mas, sinceramente, confesso que o primeiro “paragrafa”, como pode constatar na citação, pareceu-me que queria dizer exactamente o que acabou de defender, ou melhor corrigir, no último comentário.
“ (…) no entanto o seu apelo á conciência colectiva, quanto a necessidade de retrocedermos ao passado, no sentido de compreendermos a fase embrionária da eclosão do estado Caboverdeano, parece-me não ser de todo, tendo em conta a conjutura mundial, o essencial”.
Em relação ao último comentário, concordo com o que o Sr. acabou de dizer, reconhecendo que é um problema sociocultural e não apenas um problema cultural, intrínseco na sociedade cabo-verdiana.
Actualmente, a nossa sociedade depara-se com muitos problemas. Porém, antes de analisarmos esses problemas, penso que é preponderante que esclarecermos de facto de que sociedade estamos a falar e o quê que podemos esperar dessa mesma sociedade. Os problemas de que enfrentamos hoje não nasceram ontem, esses problemas actuais, que acabaste de apontar, são problemas que tiveram anos de “gestação” e ninguém (tanto os governos e a sociedade civil) preocupou minimamente com esses factos que hoje transformaram-se em problemas graves para o nosso país. O mais grave ainda é que não nenhuma “solução à vista”.
Agora a pergunta que se coloca aqui é: será que ainda vamos a tempo de “protecção” (protegemos no seio da nossa sociedade) dos valores que apontou? Como faze-lo??
Enfim, são muitos os “porquês” que ficam no ar. Contudo, penso que a solução passa pela educação e formação cívica (…), usando a nossa cultura (através dos vários agentes da cultura) ao nosso favor. Ainda há esperança, mas é preciso agir e urgente.
Mais uma vez muito Obrigado.
Edmilson Varela