Tabanca, elemento da cultura popular do povo cabo-verdiano – reconhecimento do património imaterial e resgate da memória.

Rita Ramos

A cultura enquanto também produto da ação do homem na sua relação com o mundo alarga-se em vertentes. Este “produto”, quando chamado cultura popular de um povo, exige de forma atemporal ter seu registo e memória salvaguardados. O arquipélago de Cabo Verde, descoberto pelos portugueses no século XV, possui um património que necessita de um estudo mais aprofundado para também estar presente na ordem do turismo cultural das ilhas.

A tabanca, elemento da gama do património imaterial do arquipélago tem como núcleo central a ilha de Santiago. É lá que ocorre a evidência deste património que une de forma híbrida a herança africana e europeia, mais precisamente europeia de origem portuguesa. O festejo da tabanca realiza-se em homenagem ao santo padroeiro, que corresponde à devoção dos santos dos católicos: Santa Cruz (03 de maio), Santo António (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). Seus membros saem em cortejo pela vizinhança em busca do santo roubado.

A tabanca, enquanto forma de reunir e agrupar pessoas, tornou-se uma “instituição” que por muito tempo organizou e orientou a vida de seus associados, de maneira que houve interferência na comunidade por conta da sua assistência.

Entendemos que a cultura popular é importante para a história, e que esta também ao serviço de uma dinâmica que instrumentaliza a economia do turismo local. É pois um recurso importante para o desenvolvimento das localidades. Contudo, para que um elemento do património esteja na agenda política de um país, é fundamental a participação da comunidade local. Pretexto que permite não só consolidar identidade, mas também conhecer e valorizar a cultura popular. No entanto, diante de algumas leituras e conversas com amigos cabo-verdianos, tive a percepção que alguns, na actualidade “desconhecem” a história da tabanca, bem como o valor cultural deste elemento no seio da cabo-verdianidade.

A tabanca, como demonstração da cultura popular do povo cabo-verdiano viveu seu auge no período colonial, mas tem vindo a perder força após a independência e sobretudo no nosso século. De acordo com o estudo realizado por José Maria Semedo e Maria Turano [2], a Tabanca, ainda no século XX, viveu e sobreviveu a imposição  autoritária do regime colonial. [3]

Esta informação é expressa de forma clara no documentário realizado no ano de 2001 por Carlos Brandão Lucas, cujo título é: “Brincar Tabanca” – disponível na Videoteca Municipal de Lisboa. O documentário não somente trata do tema tabanca, da “tradição” que pede socorro para manter o brio, mas também apresenta uma série de entrevistas com estudiosos e intelectuais do arquipélago acerca deste património imaterial.

A intelectualidade cabo-verdiana entrevistada procura nos dar um traço de entendimento do que foi ou que poderá ter sido, e de que maneira vive este belo património imaterial da cultura popular na atual conjuntura. Entre as vozes, aparecem José Semedo, que realizou um excelente estudo acerca da tabanca, referência para quem quer iniciar o “conhecer” tabanca. Outros cabo-verdianos de elevada importância falam sobre tabanca, entre tantos fatos que nos chama atenção, em determinado momento Félix Monteiro, que escreveu diversos artigos sobre a tabanca na revista Claridade  [4], nos idos de 1940. Félix Monteiro escreveu um artigo nas revistas Claridade 6 e 7.A revista de nº 6, de Julho de 1948, o artigo tem em pauta: a evolução semântica, organização, ciclo de festas, abstinência sexual, linguagem humorística, ritual funerário.

Na revista Claridade de nº 7, de dezembro de 1949, Félix Monteiro dá continuidade ao tema ao apresentar o tópico “lenda. Nos pontos seguintes, Félix apresenta de forma textual as relações simbólicas da tabanca como o totemismo, magia, corda, sincretismo, a tabanca e os candomblés, o qual ele faz uma análoga com os candomblés de Salvador, Bahia, Brasil. São situações elementares que nos interrogam: até que ponto há de fato simetria nesta comparação entre a tabanca de Cabo Verde e o candomblé da Bahia?

Continua o artigo acerca dos “orixás fálicos”, “possessão fetichista”, o” tambor da magia”, e culmina o artigo falando acerca do “sincretismo”. O artigo de Monteiro amplia a carência e necessidade de estudos no campo da etnologia, antropologia para entender os signos e seus símbolos apresentados na “encenação” da tabanca. O simbolismo e os significados destes, não só sublinha participação da comunidade, como revela a necessidade de salvaguardar a tabanca no ciclo de festas populares na comunidade local.  

No documentário Félix Monteiro diz não lembrar-se do que escrevera. Porque abordo este ponto? No universo académico há poucos estudos acerca deste património imaterial cabo-verdiano, o que nos leva a questionar se ainda há o preconceito inspirado no período colonial, ou será que o interesse ainda não foi despertado de maneira que houvesse um estudo mais aprofundado sobre este elemento do património imaterial da cultura popular da ilha “crioula”. Em outras ilhas do arquipélago ainda existe o desfile da tabanca, contudo, é na ilha de Santiago que o cortejo ainda marca forte presença.

Em sua complexidade hierárquica há personagens e cenários cuja encenação representada no seu cortejo com a participação do povo nos faz lembrar as romarias portuguesas.

Semedo nos apresenta algumas personagens, mas não diz a função destas personagens: Rainha do agasalho que é a pessoa que comprou o santo, rei da tabanca: responsável pelo acolhimento e alimentação, os oficiais e cativos que dormem em sua casa no dia do cortejo, há ainda: cativos ladrões (geralmente acompanhado por duas mulheres), rainha da tabanca, rei da corte, comandante, rainha do campo, filhas de santo, falcão.

Função: Em torno de sua função, a tabanca funcionou no passado colonial como uma espécie de irmandade, cujo objectivo era fomentar o auxílio mútuo entre os membros associados. O auxílio envolvia ajuda em caso de morte, bem como outras necessidades de amparo aos associados.

Devoção: A tabanca “cumpre” basicamente a devoção aos santos católicos, Santa Cruz, Santo António, São João e São Pedro. Este é o lado religioso. Para o lado considerado profano, estabelece o ritual simbólico do roubo do santo, bem como a festa com a participação do povo que culmina com dança, bebida e comida. A dança, geralmente é o batuque, a bebida, o grogue, e a comida é a cachupa.

Sobre o património imaterial cabo-verdiano, como já foi exposto há lacunas acerca deste que carecem de estudos nas áreas de antropologia, etnologia para compreender um legado tão híbrido quanto a mestiçagem cabo-verdiana. Existe de facto uma necessidade de conhecer este lado da história do património de Cabo Verde, tendo em conta que o próprio documentário apresenta a inquietação de conhecer o notório, mas desconhecido do ponto de vista histórico e que merece não somente juízo de valor histórico, mas também valor por ter valor na evolução da sociedade cabo-verdiana. O documentário existe a pergunta: o quê é a tabanca? As respostas além de serem as mais vagas possíveis, revelam outro dado importante: o jovem do arquipélago não tem interesse na tabanca por desconhecer de facto o que já foi notório, mas também, segundo a resposta de um jovem cabo-verdiano, as músicas da actualidade são mais interessantes.

Entendemos que ao longo do tempo, o património imaterial evolui de forma natural. Contudo, na ilha de Santiago a tradição da tabanca existe, mas sem o vigor do período colonial. Por conta de ainda não haver estudo mais apurado no assunto alguns questionamentos:

  1. Face a proibição de cunho político autoritário, será que as personagens existentes e envolvidas na tabanca representavam o “poder” vigente, de maneira que a representação do rei, rainha e governador da tabanca era uma intimidação a Portugal?
  2. Cabo Verde, perante as outras colónias africanas no domínio português, no meu entendimento era a mais “independente culturalmente” Sendo assim, há no ritual da tabanca o momento do roubo do santo. No entanto, o objeto do roubo é a bandeira. A bandeira é um símbolo importante para uma nação. No decorrer do tempo áureo da tabanca, será que havia o “nascimento” de um consciente coletivo acerca do desejo de ser independente representado no cortejo da tabanca?
  3. O que representa o “beijo” das varas sagradas?
  4. Será uma união do sagrado com o profano o rosário “rezado” por tambores africanos?
  5. No ritual, há o momento de distribuição de comida. Este momento assemelha a também o momento com o candomblé da Bahia. Será este também um dos pontos comuns entre a tabanca e o candomblé dito por Félix Monteiro?

Alguns exemplos audiovisuais da Tabanca:
Ferro Gaita – Rei Di Tabanka

Batuko Tabanka (voces de Cabo Verde)

Tabanka de Achada Grande 2007

Bibliografia

FILHO, J. L. (1981). Cabo Verde, subsídios para um levantamento cultural. Lisboa: Plátano Editora.

FILHO, J. L. (1985). Defesa do património sócio-cultural de Cabo Verde. (J. A. Ribeiro, Ed.) Lisboa: Ulmeiro

FILHO, J. L. (2003). Introdução à cultura cabo-verdiana. Praia: Instituto Superior de Educação – República de Cabo Verde.

LUCAS, C. B. (Realizador). (2001). Brincar Tabanca [Filme].

MONTEIRO, F. (Julho de 1948). Tabanca , evolução semântica. (S. d. Lda., Ed.) Claridade, revista de arte e letras , pp. 14-18

PEIXEIRA, L. M. (2003). Da mestiçagem à caboverdianidade,Registos de uma sociocultura. Lisboa: Edições Colibri

SEMEDO, M. R. (1991). A Tabanca de Cabo Verde: aspectos culturais . Itália.

SILVA, F. E. (2005). Cabo Verde, 30 anos de cultura : 1975-2005. Praia: Ministério da Cultura de Cabo Verde – Instituto da Biblioteca e do Livro.

SOUSA, T. d. (1958). Cabo Verde e a sua gente . Praia, Cabo Verde: Ed. Propaganda.


[1] Professora – Governo do Estado da Bahia, Especialista em Educação Infantil, Mestranda em Arte , Património e Teoria do Restauro – Universidade de Lisboa.

[2] TURANO, J. M. (1997). Cabo Verde – o ciclo ritual das festividades da tabanca. Praia: Slpeen – Edições.

[3] Os documentos históricos descritos por Semedo e Turano: Boletim Oficial nº 17, de 28 de Junho de 1920, portaria nº 439, o documento trata das concessões para permissão das Tabancas. A portaria de nº 52, de 26 de abril de 1923, proíbe a manifestação da tabanca como espetáculo, mas permite a mesma a socorrer os associados mediante as formalidades legais.

[4] Claridade, Revista de arte e letras criada no ano de 1936 na cidade de Mindelo.

10 comentários

  • ...Skrebe diz:

    Un artigu ku monti pontu di interogasãu. Tabanka era (é) festejaju, brinkadu Kabuverdi o so na ilha di Santiagu? Pamodi es titulu di artigu? Ami ta parse-m ma kada ilha ten un manifestasãu kultural di ambitu rejional. Pa fala só des vertenti: Tabanka i Funana sta pa ilha di Santiagu, only. Morna ku koladera e Nasional. Bandera Fogu i Brava; Kola Sanvisenti i Sintanton (nu pode fra ma es sta difundidu na ilhas di barlaventu?). Katxupa pur izenplu e un pratu Nasional. Djagasida e un prtatu tipiku do Fogu, N sabe ma kada ilha ten un pratu tipiku ki ta representa-l … Ago, du sta na bon kaminhu, istu e, investigasãu kultural e un nesesidadi… Forsa, Rita Ramos

  • Edmilson Varela Edmilson diz:

    Caros “Leitores”,

    Chamo-me Edmilson Varela, um dos responsáveis do Espaço Cultura do “site” e como tal, gostaria de chamar atenção para que os comentários feitos a este artigo em particular sejam em Português, porque a autora do artigo não é cabo-verdiana, portanto não percebe o crioulo.

    Ela é brasileira, uma Mestranda em patrimónios na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ao qual escolheu estudar para o tema final de mestrado o património imaterial de Cabo Verde, em particular da Ilha de Santiago. Posteriormente será colocado uma pequena nota biográfica da autora.

    Muito obrigado pela vossa compreensão.

    Atenciosamente
    Edmilson Varela

    • Rita Ramos Rita Ramos diz:

      É de fato um artigo com algumas interrogações pela própria necessidade em questionar a “Tabanca”, o “Batuque”, indenpendente da regionalidade, ser património cabo-verdiano. Ademais, é um universo ainda pouco estudado, por isto que insisto nas interrogação para que a partir da “provocação” elementos “informativos”. Agredeço imensamente a colaboração, visto que como ainda pesquiso uma cultura que embora não me pertenca, tenho ampla admiração e respeito. Isto é de fato uma investigação cultural e uma necessidade!
      Muito obrigada,

  • ...Skrebe diz:

    Ao Emilson, (e a mestranda Rita Ramos) : eu adoro escrever a minha língua, o Caboverdiano, no espaço ciber. Aqui mostro-a desde que não seja proíbida. Minhas desculpas: quando tempo tiver farei uma tradução para a LP, se se justificar.
    Abraço para si e já agora para a mestranda Rita Ramos.

    • Rita Ramos Rita Ramos diz:

      Olá meus caros,
      No que diz respeito a escrita, creio que o senhor deve continuar escrever em crioulo. A língua também é um património. No que diz respeito em especial ao cabo-verdiano é importante expressar e comunicar em crioulo não somente pela desenvoltura das ideias, mas também por uma questão de identidade!

      Um abraço!

      Rita Ramos

  • Edmilson Varela Edmilson diz:

    Caro Skrebe,

    Compreendo perfeitamente à vontade de escrever em crioulo. Sou cabo-verdiano e sou daqueles que também acredita que há coisas que saem melhor na nossa língua do que em português. É um facto.

    Não, não há nenhum problema em expressar em crioulo neste espaço. Apenas para alguns dos nossos convidados, como é caso da Dr.ª Rita, que não é cabo-verdiana, apelamos que os nossos leitores escrevam em português, por motivo já mencionado. Do resto esteja à vontade.

    Sabes o nosso objectivo passa também pela divulgação e valorização da nossa cultura, é por isso que criamos o “Espaço Cultura”, ao qual já demos o primeiro passo, ou seja, já começamos a estruturar, como podes constatar na nossa página.

    Para terminar gostaria de lhe agradecer pela sua compreensão. Este é um espaço de debate e reflexão, sempre que tiver algo que queira partilhar connosco é bem-vindo.

    Atenciosamente
    Edmilson Varela

  • Rita Ramos Rita Ramos diz:

    Antes de mais nada vou aqui expressar de forma muito clara meu respeito e estima ao povo de Cabo Vede. Na Universidade de Lisboa tem sido meus irmãos. Sinto-me muito próxima do povo cabo-verdiano pela maneira de pensar, agir e lidar com as situações. Quando resolvi estudar o “patrimônio” de Cabo Vede, desconhecia a riqueza cultural que tem o cabo-verdiano, e mais que isto a referência que tem este povo com a cultura brasileira. Espero que aqui além de “debater” ideias, possamos interagir conhecimentos e humildimente aprender sempre!
    Um abraço em todos!

    Rita Ramos

  • Undertaker diz:

    Parabéns á Rita Ramos pelo seu artigo e por ter descoberto Cabo Verde e estar a estudar as suas manifestações culturais. Obrigado, também, ao Demilson Varela pelo aviso, porque senão isto aqui ia ser um antro acalorado doz alupekaz. Quanto ao já escrito, em alupekaz, de certeza que o Skrebe já pediu a sua tradução ao Marciano, tanto para pretugues, assim como para a lingala da Makedonia. Adoro muito a interpretação da tabanka, assim como todas as nossas manifestações culturais. Espero e faço votos que os jovens venham mais ler e debater neste espaço, porque é o espaço mais aberto e democrático da cibernetica caboverdeana. Que digam aos vossos amigos que apareçam por cá, porque aqui os debates são frutiferos.

  • Nuno Lopes diz:

    Olá doutora Rita.

    Gostei muito do seu texto e penso que contribuiu muito para melhor compreensão desta “moribunda” manifestação cultural. Gostei da curiosidade envolta no facto de, mesmo ser uma actividade quase pagã, ter bases religiosas muito sólidas o que torna tudo tão interessante para a realização desses tais estudos que a doutora lamenta carecer todo esta actividade cultural.
    Em tom de reparo, gostaria de corrigir uma troca nos nomes próprios. Os autores são o Doutor José Maria Semedo e Mariza Turano, italiana estudiosa da tabanka. Ainda como sugestão, que tentasse consultar o mais recente livro do Doutor José Maria Semedo sobre a mesma temática.
    Um abraço e parabéns pelo artigo,
    Nuno Lopes.

  • Carlos diz:

    Edmilson Varela, É só uma nota ( vou escrever em portugues por respeito a Rita, então muda o nome do blog) e também agradecer a Rita sobre o artigo e pelo simpatia pelos caboverdianos.
    Rita um concelho para te: Faz uma viagem pelas ilhas de cabo verde e tira notas de todas as ilhas porque cada um tem a sua maneira de viver e ver as culturas, embora agora com algumas tranformações, um abraço.

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