A importância da História

Ricardo Serrado

História. Palavra que, na língua portuguesa, contem mais que um significado. Pode significar memória, passado, cronologia, conto, narração, etc. No meu entender, todavia, história é muito mais do que isto. É, para mim, a ciência social que visa estudar, compreender e analisar as sociedades humanas organizadas.

            A língua portuguesa deveria ter, por isso, tal como (por exemplo) a inglesa, algo que distinguisse a ciência social do conto, isto é, que delimitasse o que é história (history) e o que é “estória” (story). A “estória” conta, ficciona, narra, descreve, relata. A história compreende, conclui, discute, reflecte, interpreta, estuda e analisa. A primeira é ficcional a segunda é cientifica.

            Vivemos numa época de revolução tecnológica. Se no inicio da década ainda tínhamos alguns resquícios do que foi o século XX, hoje é claro para mim que estamos nitidamente a entrar numa nova “Era” que pouco tem a ver com o século passado. A internet e as novas tecnologias têm vindo a mudar abruptamente o “velho” mundo e quem nascer nos dias de hoje já terá pouco do que foi o homem do século XX. O paradigma está a mudar. A televisão, a rádio, o papel (da mesma forma que o papiro e o pergaminho foram substituídos, também o papel o será – provavelmente neste século), entre outras coisas, terão neste século uma função completamente distinta da que tiveram no passado. A “Era” digital tomará posse e secundarizará as velhas máquinas do século XX. O cinema, a música, a televisão, a rádio, os jornais e revistas, entre outras coisas, já se estão a adaptar a uma nova realidade que os colocarão subalternos à internet, às redes sociais, ao telemóvel e aos formatos digitais. Hoje temos um mundo à distância de um clique. Compramos, vendemos, visitamos, falamos, conhecemos pessoas e lugares na comodidade da nossa casa. Podemos, de facto, fazer grande parte da nossa vida social e cultural com um telemóvel ou com um computador portátil.

            Num mundo cada vez mais dominado (diria monopolizado) pelas novas tecnologias, pela computorização e pela internet, numa “Era”cada vez mais empresarializada e desumanizada, qual o lugar de saberes como a história? Num mundo onde as novas tecnologias (e todas as áreas directa ou indirectamente ligadas ás mesmas) se assumem como paradigma, qual a importância de tirar uma licenciatura em história e em humanidades?

            Tirei o curso (de história) no virar do milénio e muitos já me perguntavam: “história? Isso serve para quê?”. Outros diziam-me: “que saídas é que isso tem? Vais parar ao desemprego com certeza.” Outros ainda afirmavam: “história? Então mas a história já não está toda escrita?”. Não nego que as perguntas e as afirmações me irritavam solenemente, ao ponto de, com o tempo, deixar de responder ou, então, fazê-lo com alguma austeridade mecanizada.

            Muitas vezes pensava para mim: “como é que é possível haver gente a proferir tais afirmações, tais disparates? Será possível haver alunos universitários tão ignorantes ao ponto de não entenderem que uma licenciatura em história pode significar muito mais do que um mero emprego numa empresa; muito mais do que um lugar ao sol num qualquer escritório; muito mais do que uma formação técnica numa qualquer área de especialização. Não entendem que a história é uma das licenciaturas humanistas por excelência, com uma riqueza de saber dificilmente comparável com outras? Não percebem que é um curso que nos pode dar conhecimentos que extravasam qualquer objectivo de especialização numa determinada área? Não percebem que a história nos ajuda a compreender melhor as sociedades humanas, o Homem, e, com isso, a nós mesmos? Não alcançam que, com outros, é um curso que, acima de tudo, nos incute a importância de pensar (e não como pensar) e da busca do conhecimento; nos dota de uma atitude crítica e activa na sociedade; nos presenteia com saber, com uma postura, e com ferramentas mentais que nos tornam melhores cidadãos? ”.

            Hoje a história, e outras licenciaturas humanistas (filosofia, línguas e literaturas, etc.), vivem, não obstante a história continuar a ser um curso com alguma procura, momentos de alguma fragilidade. O Ministério da Educação, por mais do que uma vez, de forma directa ou indirecta, já ameaçou extinguir a história e a filosofia do ensino secundário (parece que estará para breve!). Por outro lado, o Ministério da Ciencia Tecnologia e do Ensino Superior já, também por mais do que uma vez, deixou a sua intenção de acabar com os cursos que não tivessem um mínimo de alunos (não sendo o caso da história, são muitos os cursos de humanidades nesta situação), ignorando por completo o direito supremo dos cidadãos se poderem formar em áreas que, embora tenham menor empregabilidade, são tão dignas e úteis como as demais.

            A história, apesar de ser ainda uma licenciatura com alguma procura (muitas vezes como opção para seguir outros domínios – como jornalismo, cultura, etc.), vive, tal como as outras áreas de humanidades, uma situação de alguma precariedade (e de algum “descrédito social”). Tudo em nome de um futuro onde parece não caberem as humanidades e as letras, em detrimento de uma formação técnica especializada que contribua directamente para o desenvolvimento tecnológico e\ou empresarial do país. Mais do que nunca apela-se à formação dos engenheiros, dos informáticos, dos empresários, dos gestores, ou então, aos cursos de formação média das mesmas áreas, como se fossem estas as profissões chave para o desenvolvimento humano; como se estas fossem as áreas de ensino que deveriam sustentar a sociedade onde nos inserimos.

            Serão, com toda a certeza, as formações chave para o desenvolvimento tecnológico e material, mas não serão, com o mesmo grau de certeza, as formações nucleares para o desenvolvimento humano, isto é, para a humanização das sociedades e para o desenvolvimento social e cultural, tão ou mais importante que o avanço tecnológico.

A história tem, neste quadro, papel fundamental. Para além das vantagens já enumeradas, a história pode dotar o cidadão de consciência histórica, cívica, humanística, factores primordiais e imprescindíveis para um melhor conhecimento das sociedades humanas, do homem, de si próprio e, consequentemente, para o desenvolvimento intelectual, cultural e social. Pode-nos ajudar, também, nesta nova “Era”, a desenvolver um melhor, mais adequado, e mais competente uso das novas tecnologias. A história, entre outros saberes, é primordial para uma sociedade consciente e activa, ciente de si. Talvez esteja aí o segredo do nosso (in)sucesso. Ao ignorarmos as ciências sociais e humanas, e as letras, como alavanca fundamental para o desenvolvimento de um país, estamos a ignorar uma identidade, uma cultura; estamos a criar cidadãos adormecidos. Especializados, sim, a produzir, também, mas sem consciência de si no “mundo”. Sem identidade. Sem memória. Sem verdadeira cidadania. Enfim, sem cultura, com tudo o que este conceito implica.

4 comentários

  • Edmilson Varela Nome Edmilson Varela diz:

    Caro Sr. Ricardo Serrado,

    Confesso que fiquei maravilhado com este breve “trecho” sobre as problemáticas do mundo contemporâneo, assente no discurso em torno da importância das ciências sócias e humanas, como a História.

    São preocupações legítimas e pertinentes do “triste” mundo em que vivemos. Um mundo que gira em torno do mediatismo, do económico, do supérfluo, do material …, e ignora por ignorância, por exemplo, o “desenvolvimento humano”, o ser. Sim, falhamos na educação do “Homem” como um ser social, cada dia que passa deparamos com inúmeros problemas dessa natureza. O passado deixou de fazer parte das nossas sociedades, deixou de ser o exemplo. Sabes, ainda em algumas sociedades africanas o mais velho ainda é líder, porque representa a experiência o saber. Contudo – perante os problemas que acabaste de levantar… –, penso que ainda vamos a tempo de “colmatar” esses erros, investindo seriamente nessas áreas, sensibilizar (e mobilizar) as estruturas administrativas competentes sobre a importância dessas áreas do saber no desenvolvimento de qualquer nação.

    Sabemos, pois, da sua importância. Mas será que a conjuntura actual é favorável ao investimento nessas áreas do saber, em particular em história? É verdade, surgi aqui uma outra questão, o mercado (…).

    Mas não podemos culpar apenas o desenvolvimento de outras áreas pelo estado em que chegaram as ciências sócias e humanas. Se analisamos bem à nossa volta não é difícil de perceber que estas áreas durante anos fecharam-se dentro das suas instituições, não estiveram ao serviço da comunidade, porque não só utilizaram e utilizam uma linguagem complexa como também esqueceram do seu verdadeiro papel social e cultural. É preciso mudar porque ainda é tempo meu caro.

    Muito obrigado pelo artigo e sobretudo pela preocupação que evidenciou durante a sua abordagem sobre o papel e importância da história em qualquer sociedade humana.

    Os meus cumprimentos,
    Edmilson Varela

  • Ricardo Serrado diz:

    Obrigado pelas tuas palavras Edmilson.

    De facto considero que estamos a entrar numa “Era” em que, não só as humaninades, como a própria arte, parecem não caber. Concordo quando dizes que vivemos num mundo em que o importante é o material. O consumismo, certo? O que importa é a produção em massa, o lucro e a ostentação. É o lado negro do capitalismo, que estimula sem cessar o mercado de consumo, a competetividade e parece ignorar aquilo que é mais importante: o humanismo; o homem.

    Ando a ler um livro, da autoria de Manuel Sérgio (professor catedrático do FMH) sobre filosofia do futebol. E ele enterroga: “Para quê a filosofia [essa área de saber tão importante para a descoberta do "universo"]?” E responde: “Para que o código genético da Sociedade do Conhecimento seja povoado de interrogações; para que não seja possivel questionar os ditadores (que os há também, na velha democracia em que vivemos); para que ninguém falte ao encontro marcado com a liberdade, «porque não há machado que corte a raiz do pensamento»”.

    E, de facto, parece que, no mundo contemporâneo, as humanidades são acessórias, quando deveriam ser nucleares. Porque vale a pena perguntar. Seremos hoje, com este consumismo, com este materialismo, com esta ostentação, com esta evolução tecnológica, mais felizes? Viveremos melhor? Diria que não. Porquê? Porque o homem não se realiza com o que lhe é exterior, mas com o que lhe é interior – com a procura do “eu” e do “eu” no mundo.
    Será a busca do conhecimento, conseguida através das humanidades, que poderá dotar o homem de maior sabedoria e, consequentemente, de maior harmonia consigo e com o mundo que o rodeia. Será através do conhecimento do “eu” que o homem se poderá realizar e contribuir para um mundo melhor.

    A tecnologia, o mercado de consumo, isso sim, deveria ser acessório. Importante? Claro. Necessário? Evidente. Mas secundário.

    Mais uma vez obrigado.

    1 abraço. Ricardo Serrado

  • Ulisses diz:

    Caríssimos. Li o que escreveram, contudo fico entristecido. Nos vossos textos repetem chavões e ideias que não encontram correspondente em diferentes realidades. O principio base que vos faltou foi distinguir as singularidades no mundo e as tendências globais. Recomendo-vos a obra “A Mundialização da Cultura”, de Jean-Pierre Varnier. Aí, através de uma argumentação consistente, observam que escrever sobre estas matérias tem de ser algo claramente ponderado e distintivo quando abordam contextos individualizáveis, ou entre si. Por exemplo, não podem tratar estas transformações da mesma forma nos Estados Unidos da América, em Portugal ou em Cabo Verde. O conceito “globalização” tem várias limitações, e muitas delas perigosas se forem tomadas a sério. Cumprimentos.

  • Ricardo Serrado diz:

    Olá Ulisses,

    Agradeço o teu comentário. Mas devo dizer-te que o que escrevi não são chavões, apenas ideias que tenho e principios que defendo acérrimamente. Acredito profundamente que a busca da felicidade e do equilibrio social (afinal aquilo que todos desejamos) não se encontra nesta revolução tecnológica nem neste capitalismo exacerbado (atenção que não sou anti-capitalista), assim como considero que esta mesma revolução contribui significativamente para a estupidificação das sociedades, designadamente a internet que tem, de facto, muitas vantagens, mas também imensos inconvenientes. Mesmo estas mensagens e estas ideias que aqui debatemos seriam muito mais proficuas se fossem partilhadas de outra forma.
    O que defendo é simples. As humanidades e a cultura em geral é sobrevalorizada em Portugal, em detrimento das novas tecnologias e da formação técnica o que acaba por provocar um certo adormecimento social e cultural na (e da) sociedade. E isto está na base da ignorância e da falta de sentido cívico que existe, em doses alarmantes, no meu páís. Em Portugal não há consciência política. Em Portugal não há, muito menos, consciência cultural nem tão pouco consciência histórica e muito menos atitude crítica (no sentido da critica consciênciosa e construtiva). E isto é fundamental para sabermos o que queremos para a nossa sociedade.
    Concordo contigo quando dizes que existem diferentes realidades e que as mesmas devem ser tratadas de forma distinta. Evidente. Porém, eu estava a falar do país onde vivo e que, ao longo de vários anos, tive oportunidade de estudar, conhecer, analisar e compreender. De certo que nem todos os países sofrem do mesmo problema. Não conheço, em rigor, outras raliades para me pronunciar. Portugal é, todavia, claramente um exemplo de um país em que as humanidades têm sido, mais do que sobrevalorizadas, muitas vezes meramente ignoradas. E é triste. É triste porque é através delas que, muitas vezes, se consegue o tal impulso e o tal progresso há tanto desejado, pois penso que o desenvolvimento, mais do que tecnológico, deveria ser humanistico e social.
    Lógicamente que não defendo que as pessoas se formassem apenas em humanidades ou em ciências sociais e humanas. Claro que não. A tecnologia é importante e podemos melhorar a nossa qualidade de vida com ela. O que digo é que as pessoas em Portugal deveriam ser mais icentivadas e estimuladas para o mundo das humanidades, independentemente da formação e da profissão que escolhessem. O mundo empresarial, por exemplo, carece em muito da componente humanistica. Porquê? Porque as pessoas que as gerem não estão sensibilizadas para a questão. A produção e a competitividade está a cima de tudo. Por isso digo que é fundamental as disciplinas de história e de filosofia no ensino secundário, assim como as pessoas deveriam ser esimuladas em se formar complementarmente em áreas que lhes poderiam trazer um maior conhecimento do seu “mundo” e do seu lugar nesse mesmo “mundo”.

    1 abraço

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