Quem somos ou o que somos (pessoas ou mercadorias)?
Num mundo reinado pelo capitalismo, onde damos prevalência aos bens materiais, ao luxo, ao conforto, num mundo em plena evolução e desenvolvimento onde dispomos das mais avançadas tecnologias desde que existe o Homo Sapiens, em pleno século XXI, atribuímos valor a tudo.
Catalogamos e colocamos um preço em tudo, comercializamos os mais diversos produtos sejam eles matérias-primas ou produtos secundários que já passaram por algum processo de transformação e industrialização.
Fazemos todos os esforços para nos darmos bem com os nossos parceiros comerciais e até para conseguir mais, de modo a expandir o nosso negócio, a ir além fronteiras pois só com bons parceiros no estrangeiro, com uma boa política comercial e alfandegária, com a livre circulação de bens nos mais diversos mercados e através dos vários meios de transportes, conseguimos crescer e desenvolver.
É a mão invisível da economia, são todos os mecanismos utilizados neste sector que ajudam o desenvolvimento e crescimento dos mais diversos países, um tem matéria-prima, outro tem os meios de transportes, outro o conhecimento, outro a maquinaria, outro o banco, enfim uma roda onde todos giram e fazem parte, mas só uns aparecem, não obstante todos serem afectados.
Actualmente, atendendo à conjuntura económica internacional não é fácil manter o negócio rentável, mas mesmo assim ano após ano há negócios que crescem cada vez mais e que lucram cada vez mais. Não porque o objecto comercializado seja caro ou raro, muito pelo contrário.
Um bom negócio deve concentrar-se não só em ter bons parceiros como também em ser transnacional e apostar na diversidade, variabilidade e versatilidade dos produtos. E, o mais importante, todo o comerciante sabe que deve retirar o máximo de lucro com o mínimo de custo, o que por outras palavras significa que devemos obter o produto a um baixo preço e vendê-lo por um valor superior ao que o comprou, é daí que advém o lucro, também rentabilizá-lo se já não serve para o efeito inicial utilizá-lo/adaptá-lo para outra função, é daí que advém o sucesso de qualquer negócio.
Obviamente que ao falar de comércio e de mão invisível que move a economia mundial não podemos ignorar os comércios ilegais, porque estes sim realmente movem, através de uma máquina não invisível mas muito bem camuflada, algumas das quais conhecemos, como a burocracia e o filho desta, a corrupção, grandes quantias na nossa economia encadeando vários negócios alimentando vários vícios e males de modo a esconder o que realmente está por trás de tantos milhões.
De todos os negócios ilegais o tráfico de seres humanos é o terceiro mais rentável, drogas e armas ocupam os lugares de topo.
O tráfico de seres humanos é muito bem organizado, bem estruturado, transnacional e diversificado afecta todos os países, estes actuam como exportadores, intermediários, transportadores ou importadores.
Em média gera cerca de 27 biliões de euros por ano, estima-se que cerca de 800 mil pessoas a 2,4 milhões possam ser traficadas por ano em todo o mundo. O preço de cada ser humano varia com quem trafica, da proveniência, do que o mercado procura, enfim, de vários factores. Acredita-se que o lucro por cada pessoa seja de 300 mil euros, convém salientar que por vezes são vendidas, inicialmente por 100 euros.
Não existe um grupo de pessoas que são traficadas, qualquer pessoa pode ser traficada, contudo há alguns grupos de risco que são crianças, mulheres e imigrantes, escusado será dizer que a pobreza é um dos factores que potencia este comércio.
A ideia de uma vida melhor e a boa fé permite que muitos se iludam com falsas promessas e acabem por imigrar para outro país onde irão trabalhar. Só não são informados que assim que estiverem a trabalhar primeiro têm de saldar a dívida resultante das despesas da viagem, dívida que na verdade nunca será saldada.
Também não têm conhecimento de que os seus documentos não irão ficar com eles e sim com o seu empregador, que nunca é aquele que o recrutou porque entretanto já foi vendida sem ter conhecimento disso, e não sabem que não podem sair da rede onde se encontram.
Se isso acontece com adultos, que dizer de uma criança, a grande diferença é que as crianças na maior parte das vezes foram sequestradas, exceptuando os casos em que são vendidos pelos familiares ou entregues por estes a uma pessoa que supostamente irá cuidar dela melhor e dar-lhe melhores condições de vida. Embora existam casos de adultos que também são sequestrados e levados à força para outro país.
O tráfico de seres humanos não consiste simplesmente no tráfico sexual, também consiste na exploração da mão-de-obra, melhor dizendo na escravatura laboral.
Esta questão é importante uma vez que inconscientemente todos acabamos por contribuir para o sucesso do tráfico de seres humanos, uma vez que podemos estar a comprar um produto que foi feito por um escravo, uma pessoa que foi sequestrada, vendida, iludida e que actualmente é explorada e vive em condições sub-humanas.
O tráfico/escravatura assemelha-se a um polvo, tem vários tentáculos que correspondem aos diversos tipos de trabalho a que se destinam: pode ser para prostituição em bar de alterne ou não, pode ser para paraísos sexuais, para redes de adopção ilegal, para redes de pedofilia, pornografia, mendicidade, indústria, extracção de órgãos, recrutamento de novos indivíduos através dos que já foram traficados, por exemplo uma criança serve de isco para outra.
É extremamente difícil pensar em todos os casos para os quais as pessoas são vendidas e o porquê de tanta procura e mais difícil ainda é traçar um perfil dos recrutadores, infelizmente pode ser qualquer um.
Ao contrário do que se poderá pensar, muitas dessas pessoas que são traficadas vão para países desenvolvidos, são retiradas das zonas mais pobres dos países subdesenvolvidos ou de desenvolvimento médio, o que demonstra a transversalidade e transnacionalidade do crime.
Não pretendo e nem vou introduzir números, estatísticas e estudos por dois motivos: primeiro este é um dado que facilmente se encontra na internet pelo que parece-me desnecessário estar a reproduzir o que se pode encontrar rapidamente com uma pesquisa no Google; segundo esses números não são exactos são com base nas queixas, investigações, processos etc., o que claramente indica que o número que dispomos com certeza é inferior ao que realmente existe, creio que basta ter em mente que esses números não estão inflaccionados, muito pelo contrário, e que tendem a aumentar todos os anos.
Basta pensarmos que, o dobro da população de Cabo Verde é traficado todos os anos e que o lucro que se obtém em poucos anos é superior a riqueza de alguns países.
Para escrever um texto sobre o tráfico de seres humanos abordando-o na totalidade, seria necessário abordar: as várias formas como operam os recrutadores que são a ponta da meada do tráfico; os vários argumentos que utilizam para ludibriar as pessoas, que sem saberem constituem a matéria-prima; os esquemas burocráticos e os subornos necessários para que cheguem ao país de destino, pois mudam frequentemente de lugar de modo a evitar que a polícia lhes apanhe o rasto; os diversos mercados para os quais são mais tarde distribuídos, alguns de luxo, outros não, e os diversos produtos que serão por elas mais tarde produzidas: filmes, fotografias (ambos pornográficos), bolas, camisas, etc.
Enfim, por todos esses motivos e mais alguns é difícil obter dados estatísticos precisos sobre esse tema, e aí reside também a dificuldade das autoridades desmontarem esse tipo de negócio, um negócio extremamente rentável que envolve boa parte dos crimes constantes no Código Penal no que respeita a crimes contra as pessoas, que afecta todas as formas dos direitos humanos que viola todas as convenções.
Temos de ter noção que o objecto do negócio são pessoas, seres humanos como nós ou os nossos familiares, que não é um flagelo distante que só acontece no estrangeiro ou em países pobres, mais uma vez ressalvo que os países ricos muitas vezes são os destinatários.
Gostaria simplesmente que reflectissem sobre isso, não temos de fazer algo somente quando a desgraça nos bate à porta, convém dormirmos descansados sem pensar que uma pessoa que conhecemos e gostamos pode desaparecer para sempre não porque morreu mas porque é mercadoria.
É um produto que alguém queria, gostou e comprou e que quando se cansar descarta, através do homicídio ou vendendo para outra rede de tráfico para ser usada noutros serviços ou ser leiloada por aquele que der mais.
Seria bom pensarmos que os produtos que consumimos e compramos não foram feitos pelo pai/mãe, filho/filha, irmão/irmã de outra pessoa, algures numa cave qualquer sem comida, sem as mínimas condições de vida, condições básicas como um banho, um copo de água ou uma cama e cujos familiares (pais, cônjuges, filhos) e amigos aguardam dias, meses, anos à espera de uma notícia nem que seja para dizer que faleceu.
É nosso dever assegurar que isso não acontece, é nosso dever procurar e ajudar nas buscas sempre que alguém desaparece nunca podemos ter a certeza se não foi levado por um braço invisível.
Se tal como uma blusa ou uma bicicleta não foi exportada de barco ou avião para ser vendida; se tal como um papel usado não irá para reciclagem ser colocada num site para ser leiloada ou vendida a 100 euros para outra rede para prestar outros serviços ou então amputada para que possa render mais dinheiro na mendicidade ou ainda ser-lhe retirado os órgãos para serem vendidos no mercado negro enquanto ela morre algures porque não recebeu os cuidados necessários aquando da extracção do órgão.
Para evitar que a M…, o J…, o A…, a R…, a B…, o N…, sejam mais um produto mais uma matéria-prima com inúmeras possibilidades de produzir e criar produtos secundários, para evitar que a roupa que eu uso, a mala que eu levo para a praia seja a causa de inanição e morte de tantos outros; temos de ter consciência da situação do modo a Prevenir, Reprimir e Punir, acima de tudo Prevenir porque é na Prevenção que está a cura de todos os males.
Mais tarde ou mais cedo vamos ter de fazer alguma coisa, quanto mais cedo melhor, podemos não nos aperceber disso, aliás o secretismo, o silêncio são ingredientes fundamentais na fórmula mágica do sucesso desse crime, mas o tráfico de seres humanos existe, é real e está mais próximo de nós do que julgamos.
Silenciar e não agir é compactuar, não temos de ficar à espera até que nos bata à porta, podemos não ser os exportadores ou importadores, mas podemos ser os transportadores ou intermediários, por isso o mínimo que podemos fazer é exigir mais rigor e controlo nas nossas fronteiras, sejam elas marítimas ou áreas.
Cara Adalgiza,
Penso que tocaste num dos problemas graves do mundo actual, principalmente do mundo ocidental onde estes actos horrorosos são, felizmente, mais “visíveis”, porque também são mais denunciados e combatidos.
Acabamos com a escravatura, em alguns Estados no século XVIII e noutros no séc. XIX, mas entretanto a escravatura continua presente entre nós. Hoje fala de outro tipo de escravatura, engendrados pelos grupos altamente criminosos e profissionais, agrupados em redes transnacional, maioria deles ligados a sexo e ao trabalho forçado.
Agora a pergunta que se coloca aqui é: que medidas? Como lidar com esses grupos altamente profissionais e capazes…? Será que todos os Estados, com especial atenção para os países mais fracos, têm condições para lidar com esses grupos -problemas? Não será conveniente uma união transnacional entre os Estados de todos os continentes com a finalidade de por cobro a esse problema?
Bem, sinceramente são muitos os porquês que ficam no ar. Contudo sou optimista e pra mim todos os problemas tem uma solução e aí concordo em pleno contigo é preciso agir, é preciso que todos nós contribuamos para por fim a este mal, porque no fundo quer directa (ver tais actos não denunciar, ou até mesmo contribuir para tal…) ou indirectamente (comprando tais produtos e serviços) estamos a pactuar com esses “actos”.
Portanto é preciso acção, sobretudo despertar consciências.
Muito obrigado pelo pertinente e real – artigo.
Cordialmente,
Edmilson Varela
oh meu Deus. agora todo mundo quer armar em desertor, conhecedor de alguma coisa. va estudar mais e deixa de dar palpites em assuntos que nem sabes do que estas a falar. contenta em ler e criar calcanhar para depois escrever algo. so trivimento.
Cara Adalgisa
Na minha opinião fria, crua e objectiva, o homem é e foi sempre uma mercadoria.
Vejamos: somos um dos factores de produção e de escravatura (mão-de-obra explorada, e as mulheres duplamente, em casa e fora); somos objecto de comércio sexual (mulheres, crianças); somos objecto de imigração clandestina; somos objecto de venda de órgãos; somos objecto de violência a todos os níveis e de todas as formas, até a nível político (homens, mulheres e crianças), etc. O que comanda o mundo é o dinheiro e os interesses económicos. A razão de ser da estruração politico-social das sociedades é sempre e em primeiro lugar, é sempre o económico, o financeiro.
Não se põe a tónica em qualquer decisão pública e pessoal a pessoa, o ser humano.
A questão da violência, v.g., é debatida agora em termos de custos sociais mas da perspectiva económica, a saber: quantas faltas a vítima dá por ano por causa da violência; o que representa isto em termos de produtividade, de custos policiais e judiciais, and so on.
Por isso, sou de opinião, que qualquer luta a favor do ser humano, das pessoas, tem de ser abordada pelo lado económico, para se poder acessar a fundos para canalisá-los a projectos de protecção do ser humano.
Enfim, o mundo que temos, porque somos egoistas, giramos à volta do nosso umbigo, e, pior ainda, somos passivos e perdemos a capacidade humana de indignação.
Achei muito pertinente o seu artigo para refrescar a memória das pessoas para esses factos que ocorrem diariamente, na nossa barba cara, e que indeferentente vamos passando ao largo e de lado.
Helena Fontes
Cara Adalgiza
É de suma importância e resveste-se dum molde primordial, a necessidade de entendermos e dominarmos a matéria o qual debruçamos sobre ela.
Se a Dr. Adalgiza, analisar bem a parte introdutiva do texto redigido por sí, há de notar que falta-lhe a “bagagem” comprensiva dos conceitos macroeconómicos e microecómicos e denota-se um laivo de incoerência sentimental ao fazer uma comparação entre as questões microeconómicas e mos direitos fundamentais do homem.Esses, sã0 fruto do consenso colectivo da humanidade e por isso são, insusceptíveis de analogias interpetativas e quando discutidas devem ser em sede da sua inviolabilidade e inegociabilidade dos mesmos.
Afinal, quiça o seu argumentário filósofico de ver o mundo, duma maneira “daltónica”, não deveria ser revestida duma dose de bom senso e imbuída de príncípios éticos e morais?
Aguardo, a sua resposta.