“O Fim do Caminhu Longi”, de Augusto Nascimento: II
O fim do caminho longe?
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Considerado por Jill Dias como o mais abalizado investigador português sobre a problemática do trabalho serviçal nas plantações de S. Tomé e Príncipe (vide o Prefácio dessa reputada investigadora aPoderes e Quotidiano nas Roças de S. Tomé e Príncipe – De Finais de Oitocentos a Meados de Novecentos, a edição em livro da dissertação de doutoramento de Augusto Nascimento), este estudioso da Junta de Investigação Científica e Tropical teve já o ensejo de, nos tempos mais recentes, nos ter brindado com dois livros memoráveis: O Sul da Diáspora – Trabalhadores Cabo-Verdianos nas Plantações de S. Tomé e Príncipe e Moçambique e O Fim do Caminhu Longi, ora em apresentação.
A essas obras acrescem dois ensaios, igualmente recentes:
a) “Cabo-verdianos em S. Tomé e Príncipe: os contornos da consciência de segundos europeus“, o qual pode ser consultado em htp//www.antrologianet/publicacoes/actas/actascongresso2006/cap2/AugustoNascimentoVF.pdf);
b) “As relações de género entre cabo-verdianos nas roças de S. Tomé e Príncipe”, constante do livro Género e migrações cabo-verdianas, coordenado por Marzia Grassi e Iolanda Évora e editado pelo Instituto das Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Anote-se ainda que, do mesmo investigador, foi mais recentemente publicado pela Ilhéu-Editora o livro Vidas de São Tomé segundo Vozes de Soncente.
É sobre o mais recente livro de Augusto Nascimento que agora pretendemos debruçar-nos, não sem antes sublinhar o relevante papel que o autor de O Sul da Diáspora tem desempenhado na agitação das águas – aliás, muito pantanosas-, nas quais, infelizmente, muitos dos nossos conterrâneos, ex-serviçais das roças das ilhas do Golfo da Guiné, se encontram atolados.
Essa agitação intelectual e científica das águas tem feito eco às preocupações de muitos dos nossos concidadãos, ao mesmo tempo que tem tido amplas e visíveis repercussões na interpelação de mais vastas consciências, incluindo daqueles que, em querendo, podem contribuir, e de modo decisivo, para a purificação das mesmas águas, isto é, para a substancial melhoria das condições de vida dos palmilhadores caboverdianos do caminho longe, ainda infindo, para S. Tomé e Príncipe.
O livro O Fim do Caminhu Longi retoma e aprofunda várias questões, anteriormente abordadas no livro O Sul da Diáspora.
É o que ocorre, designadamente, com a caracterização da emigração caboverdiana para S. Tomé e Príncipe e do seu faseamento temporal, bem como das actuais vivências dos ex-serviçais que se quedaram pelas roças das ilhas independentes e soberanas do Golfo da Guiné.
A densidade, a veracidade bem como a autenticidade dessas vivências são atestadas pelos testemunhos/depoimentos dos próprios ex-serviçais, os quais são recolhidos, confrontados e devidamente analisados no livro ora em análise.
No que se refere à caracterização geral da emigração para S. Tomé e Príncipe cremos não laborar em erro se dissermos que o investigador e historiador Augusto Nascimento logra inovar por duas formas:
A primeira inovação ocorre quando introduz o conceito de emigração induzida, em lugar ou em complementação do conceito de emigração forçada constante do livro Migrações nas Ilhas Cabo Verde e recorrentemente utilizado pelo seu autor, o sempre celebrado historiador António Carreira.
Com essa inovação conceptual pretende Augusto Nascimento reflectir tanto a complexidade como a mais lata abrangência das causas e das motivações que levavam as pessoas para a verde, conquanto trágica,opulência das roças do Sul-Abaixo.
Sem pretender refutar a pertinência teórica do conceito de emigração forçada – aliás, tornada absolutamente premente e iminente nos anos de estiagens por uma extensa regulamentação emanada do conluio entre o poder económico e o poder político, exaustivamente dissecada por António Carreira e bastas vezes ilustrada na falta de alternativas de quem tinha mesmo que dar o nome no contrato e alistar-se temporariamente para o trabalho semicerrado nas famigeradas roças para, tão simplesmente, não morrer de inanição, endémica no arquipélago da fome que era então Cabo Verde -, o investigador Augusto Nascimento consegue, a seu modo fundamentado, desvendar-nos a ingente complexidade da problemática em pauta, ao trazer à colação outras questões, como, por exemplo:
a)A opção voluntária de muitos caboverdianos pelo contrato para S. Tomé e Príncipe, com o fito de fugir a outras alternativas, tidas por menos remuneradoras, como, por exemplo, o trabalho de aprendiz em oficinas ou a dependência económica em relação a ascendentes.
b)O retorno a S. Tomé para o cumprimento de novos contratos ou a permanência nesse território, mesmo depois de findos os tempos da contratação, os quais, como sabido, perfaziam, em regra, um período assaz limitado, muitas vezes determinado pela duração das secas cíclicas em Cabo Verde.
c)A fuga a problemas familiares, bem como a busca de solução para outros problemas de cariz privado, incluindo os de natureza passional e sentimental.
d)O espírito de aventura, enquanto expressão subjectiva da busca de vida e epifenómeno idiossincrático imanente à cultura da emigração, largamente disseminada entre os caboverdianos.
De grande relevância na temática do livro é o faseamento da emigração para S. Tomé e Príncipe.
É assim que no livro O Fim do Caminhu Longe esta emigração é temporalmente localizada no período posterior à Segunda Grande Guerra e considerada como correlacionada com as grandes mortandades provocadas pelas fomes de quarenta, em especial as de 1947 e de 1949.
Neste contexto, são descritas as atrozes condições da vida dos serviçais caboverdianos nas roças, avultando sobremaneira:
i) O trabalho extenuante e por tal forma prolongado que preenchia quase todo o quotidiano dos serviçais, não lhes restando sequer tempo para uma refeição apaziguada;
ii) O ingente esforço de adaptação a condições climatéricas desconhecidas e muito hostis, sobretudo se levarmos em condição a origem saheliana dos serviçais caboverdianos, aliás, muito propensos ao encantamento, ao deslumbramento com a paradisíaca exuberância do verde e das águas, no inicial contacto com a faustosa paisagem das ilhas equatoriais.
iii) A coacção extra-económica, típica do trabalho servil e semi-escravo característico das economias coloniais e semi-coloniais de plantação.
É neste contexto que Augusto Nascimento procede à sua segunda inovação ao introduzir-nos a alguns momentos conceptuais, fulcrais para a caracterização psicossocial dos serviçais caboverdianos, designadamente:
a) O recurso ao desagravo físico quando os mesmos se sentissem violentados e vítimas de inexplicáveis arbitrariedades e inextrincáveis abusos, considerados desmesurados e desconformes com a ética de trabalho, muito interiorizada e assaz prezada na cultura caboverdiana. Dessa atitude ter-se-á originado a fama de faquista, habitualmente colada aos caboverdianos como um estigma.
Anote-se que essa atitude de desagravo em face da abusiva perpetração de violência física ou psicológica por roceiros, feitores e capatazes era tanto mais relevante quanto na ética laboral caboverdiana o trabalho bem cumprido era considerado como inerente à condição humana.
Ademais, esclarece-nos o autor que entre os caboverdianos prevalecia uma concepção patriarcal das relações laborais. Em conformidade com essa concepção patriarcal do trabalho, seria admissível, em determinadas circunstâncias, o exercício por parte dos patrões de um musculado poder correctivo em relação aos prevaricadores, considerados malandros ou mandriões, mesmo se esse poder correctivo tivesse que objectivar-se pelo uso de violência física e/ou psicológica. Quanto a isso, as roças tornaram-se, aliás, icónicas, porque muito pródigas na celebrização do chicote, da palmatória, do tronco, da arbitrariedade e da selvajaria verbal dos detentores do poder sobre o corpo, a alma e o tempo dos serviçais sob o seu domínio.
b) O recurso à denominação identitária de segundos europeus.
O recurso a essa denominação visava a afirmação estatutária não só da cidadania portuguesa, de que, aliás, a generalidade dos caboverdianos era ciosa titular, como também uma postulação identitária que, explícita ou implicitamente, almejava aproximar os crioulos caboverdianos dos europeus e visava apartá-los tanto dos outros serviçais, na época denominados cabindas, angolas e moçambiques, como também, e de alguma forma, dos nativos santomenses.
Considerado como um esteio psicossocial de salvação, quase ontológica, o recurso ao putativo estatuto de segundo europeu vincava, outrossim, o permanente combate dos caboverdianos contra a indigenização, entendida -como, aliás, também refere Jorge Barbosa no poema Memorial de S. Tomé - no duplo sentido de degradação da sua condição humana e social e de perda dos seus valores civilizacionais ocidentalizados a favor de uma confusão com os repudiados hábitos (alimentares, etc.) e a tida por rebaixante indumentária de outros serviçais, oriundos da África negra continental ou, mais exactamente, de Cabinda, de Angola e de Moçambique.
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Um segundo momento chave do livro O Fim do Caminhu Longi é aquele que caracteriza as condições de vida e de trabalho dos contratados quer durante a última fase da emigração para S. Tomé e Príncipe, denominada período de colonialismo tardio, quer na época pós-independência.
Segundo o investigador Augusto Nascimento, a fase final do colonialismo caracterizou-se por uma visível melhoria das condições de vida e de trabalho dos contratados.
Essa melhoria ficou reflectida na rarefacção dos castigos corporais e da coacção extra-económica, bem como na maior autonomia dos serviçais na condução das respectivas vidas durante o período extra-laboral.
A autonomia extra-laboral, acabada de ser referida, viu-se sobremaneira acrescida com a possibilidade, então outorgada de modo informal aos serviçais caboverdianos, de cultivar parcelas de terra adstritas às roças e chamadas campos ou lavras.
Por outro lado, é a global melhoria da condição dos serviçais caboverdianos, consubstanciada particularmente no acesso – ainda que precário – à posse da terra, que explica o crescente apego dos mesmos serviçais às roças, nas quais labutavam extenuantemente e sob todas as intempéries.
É esta conjuntura laboral tardo-colonial que, igualmente, desnuda as razões das dissensões políticas subsequentes ao 25 de Abril de 1974 e conducentes, imediatamente depois, à independência das ex-colónias portuguesas, incluindo de S. Tomé e Príncipe e de Cabo Verde.
Eventos fatais – a independência de S. Tomé e Príncipe e o seu destino pessoal, pensarão retrospectivamente os serviçais que se quedaram pelas ilhas equatoriais e cujos testemunhos foram recolhidos por Augusto Nascimento no livro O Fim do Caminhu Longi.
Filhos das roças e sustentáculos principais da economia burocrático-capitalista de plantação, na qual se baseou, no imediato pós-independência, a renda do Estado santomense, os serviçais caboverdianos teriam sido induzidos a permanecer nas ilhas equatoriais por várias razões, de entre as quais o autor salienta:
i) Dilemas e indecisões emergentes da dificuldade em lidar com as incertezas correlacionadas com um eventual e imediato recomeço de vida em Cabo Verde;
ii) Apego às roças e, daí, à esperança de acederem à posse ou ao usufruto da terra e, assim, de se transformarem em pequenos empresários ou cultivadores agrícolas autónomos, ainda que semi-dependentes dos parcos salários que auferiam enquanto assalariados adstritos às roças, depois denominadas empresas públicas agrícolas.
iii) Solidariedade anti-colonialista e aliança fraternitária entre o MLSTP (Movimento de Libertação de S. Tomé e Príncipe) e o PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e de Cabo Verde), que os teriam sucessivamente convencido a ficar, a permanecer nas ilhas, doravante tidas por irmãs. É assim que o prometido barco – que os deveria levar de volta às suas áridas, mas renascidas, ilhas natais – nunca chegaria.
Esquecidos pela ex-mãe-pátria portuguesa, ignorados pela mãe-terra caboverdiana, localmente marginalizados por mor da sua apatridia equatorial e tendo a seu cargo a responsabilidade da criação de filhos e de outros descendentes, nascidos nas ilhas do Golfo da Guiné (por vezes em resultado de uniões com serviçais provenientes de outros países), os ex-contratados caboverdianos assistiram, impotentes e expectantes, ao decurso da História.
História que, como um destino inelutável, sobre eles caiu e se corporizou nos seguintes eventos e circunstâncias:
i) A nacionalização das roças e a correlativa saída inopinada dos roceiros, dos feitores, dos capatazes e de outros funcionários brancos, a sequente chegada dos donos nativos da terra, a paulatina degradação e a irreversível falência das roças e, assim, o esvaimento das bases económico-sociais sobre as quais sustentavam as suas vidas, as suas rotinas e a perscrutação dos seus destinos.
ii) O temporário apaziguamento e o transitório renascimento das suas esperanças na sequência da possibilidade de acesso à posse de parcelas de terra.
Elucida-nos o autor que essa possibilidade lhes foi outorgada nos tempos unipartidários, mas de relativa abertura económica, do Presidente Manuel Pinto da Costa, com vista a abastecer com produtos hortícolas o depauperado mercado santomense.
Como constatou Augusto Nascimento, será essa razão, acrescida de outras – sempre correlacionadas com os apoios recebidos de Pinto da Costa, inclusive para a celebração da sua caboverdianidade – que explicam o grande apreço que os ex-serviçais caboverdianos ainda nutrem pelo antigo Presidente de S. Tomé e Príncipe.
iii) A irrupção democrática e neo-liberalizante de 1991 e a sequente privatização da gestão das roças, que, se, indubitavelmente, lhes garantiram o direito formal à liberdade de expressão e lhes possibilitaram, a eles e a alguns dos seus descendentes, o precário acesso às terras – cuja distribuição ficou, aliás, devidamente marcada pelo clientelismo neo-patrimonialista então reinante -, lhes limitaram, em contraponto, o acesso às lavras, tradicionalmente cultivadas por eles e das quais foram, por vezes, expulsos com a chegada dos novos titulares privados.
De todo o modo, argumentavam os directamente interessados que era difícil voltarem a trabalhar as terras, alegadamente por serem demasiado velhos e, por isso, notoriamente incapazes de as cultivar e explorar na forma devida e desejada.
Sentindo-se abandonados e, ademais, suplantados por quem, embora filho e dono da terra, mantinha muito escassas e precárias ligações com a realidade das roças e, por isso, detinha poucos e esparsos conhecimentos técnicos e sociológicos sobre as problemáticas de gestão a elas atinentes, os ex-serviçais caboverdianos, para mais acossados na sua grande maioria pela sua condição de idosos, foram-se quedando nas ilhas, onde, segundo reiterados e muito sentidos testemunhos, amiúde se massacraram pelo trabalho.
É nestas terras, exaustas de verde e saturadas de memórias, marcantes das suas vidas e marcadas pelas suas vidas, que os ex-serviçais caboverdianos permanecem à espera.
À espera da morte, perdida que foi – e quase que definitivamente – a esperança de regresso à pátria caboverdiana, muito mitificada, mas nem sempre passível de ser condignamente celebrada por ocasião do Cinco de Julho e de outras festas comemorativas e de ser compartilhada, no seu património de vivências passadas, de dor infinda e trabalho massacrado, pelos seus descendentes, comum e tradicionalmente chamados tongas pelos forros e por outros santomenses, igualmente nativos mais antigos das ilhas de S. Tomé e Príncipe.
Salienta o autor que, compreensivelmente, a grande maioria dos descendentes dos ex-serviçais caboverdianos se encontra muito enredada no entretecimento de laços e na quotidiana interacção com os forros e com outros filhos da terra santomense, também seus patrícios e concidadãos.
A este propósito opina o autor que o temporário arredamento de uma caboverdianidade mais ostensivamente explícita por parte dos descendentes santomenses (ou naturais de S. Tomé e Príncipe) dos ex-serviçais caboverdianos teria como motivações imediatas as condições sumamente degradantes em que vivem os seus ascendentes sahelo-crioulos (a expressão é da nossa responsabilidade), aliada a uma inadiável estratégia de integração na sociedade equatorial – aliás, ela também crioula, ainda que por outros modos – e em todas as oportunidades que ela possa propiciar.
Porém e segundo reitera Augusto Nascimento, tal arredamento não seria de todo em todo irreversível, dependendo o seu desfecho do ulterior desenvolvimento da nação e do país caboverdianos.
Nesta óptica, o autor deixa entender que, em se divisando como útil para as suas estratégias de promoção social, económica e cultural, esses santomenses caboverdiano-descendentes não deixarão de tomar o pulso à sua dupla pertença identitária e de proceder à pertinente funcionalização cívico-política e económico-social tanto do seu legado identitário caboverdiano como também da sua radicação santomense.
Como é sabido, os recursos propiciados pela funcionalização identitária de uma putativa ou efectiva dupla pertença foram assaz produtivos durante a secular história da emancipação social do povo das ilhas sahelianas e afro-atlânticas e das suas elites nativistas, regionalistas e nacionalistas, sendo os casos de Eugénio Tavares, Baltasar Lopes da Silva, Amílcar Cabral e correligionários aqueles que tiveram mais duradouras repercussões.
A mesma funcionalização identitária vem-se tornando recorrente no conjunto globalizado das diásporas caboverdianas, amiúde consubstanciando-se em recorrentes reivindicações das novas gerações de caboverdiano-descendentes relativas à obtenção da plena cidadania económica, social, cultural e política nas suas duplas e diversas pátrias, quer das regressadas, de forma definitiva ou temporária, à mãe-pátria caboverdiana, quer das sedentarizadas nas suas pátrias natais de acolhimento.
Consideramos que, para além de possíveis, são sempre desejáveis formas variadas e suficientemente maleáveis de hibridismo identitário, ancoradas, a um tempo, tanto na conjugação entre cidadania política e herança identitária, como, de forma mais lata, na dupla pertença política e cultural.
Neste contexto, um tanto indefinido para o caso em observação, o autor Augusto Nascimento alvitra o reforço do associativismo entre as comunidades caboverdianas radicadas em S. Tomé e Príncipe, sem descurar a premente necessidade da emergência de elites caboverdiano-descendentes devidamente apetrechadas de recursos políticos, culturais, económicos, sociais e identitários e plenamente integradas nas ilhas que são também as suas.
Caboverdianos irredutíveis; ainda rememorados segundos europeus em reafirmação e luta permanentes contra a estigmatização veiculada tanto pela abjecta denominação gabão como também pela marginalização social; criaturas fragilizadas pelo isolamento em relação às instituições públicas, pela ausência de associativismo e por dificuldades de vária ordem no processamento da funcionalização política da sua pugna identitária; seres arredados e relativamente apartados da nação diaspórica caboverdiana: eis o auto-retrato que os ex-serviçais caboverdianos fazem de si próprios e deixam emoldurar no notável livro que ora intentamos dissecar.
Por tudo isso e segundo a (in)feliz expressão de Augusto Nascimento, esses filhos das roças jazem à espera…
À espera da nação global caboverdiana, mas também daqueles que, na época colonial e no período pós-independência, lhes teceram o inescrutável do destino que lhes coube, em escolhido infortúnio, em contraste com a sorte de outros compatriotas que se encaminharam para outros, mais afortunados e auspiciosos destinos emigratórios e diaspóricos…
É o que, com comovida e compassiva pungência, vem reiterar Augusto Nascimento no seu O Fim do Caminhu Longi.
Nessa partilha de memórias, de vivências e de experiências, o autor não deixa, todavia, de nos acautelar para a circunstância de a sua nacionalidade portuguesa e o facto de ser originário da pátria natal dos antigos roceiros, administradores e feitores coloniais poderem ter influído numa relativa moderação verbal bem como numa eventual inflação do saudosismo da maioria dos ex-serviçais contactados em relação aos revolutos e igualmente infelizes tempos das roças coloniais.
Todavia, tomado de compaixão e habitado por uma inexaurível e irrenunciável solidariedade com essas ruínas, imensa e ostensivamente humanas e moradoras das ruínas socio-económicas que são, actualmente, as roças, os seus equipamentos produtivos, as suas esqueléticas sanzalas -porque destituídas de todo o conforto e de todas as infra-estruturas susceptíveis de propiciar uma vida com um mínimo de dignidade -, Augusto Nascimento depõe essa compassiva solidariedade nas vozes, doravante plenamente audíveis, dos ex-serviçais das roças das ilhas do Golfo da Guiné.
Tal deposição tornou-se tanto mais premente se, ademais, considerarmos a impiedosa desvalorização das vivências passadas e da vida massacrada dos ex-serviçais caboverdianos, integralmente dedicada à prosperidade das roças e, assim, da economia santomense e dos seus sucessivos donos.
Ex-serviçais que, não obstante o acumular das agruras e das frustrações e sempre ensombrados pelo sombrio das rememorações, teimam em permanecer de pé.