“O Fim do Caminhu Longi”, de Augusto Nascimento: III
Notas finais e conclusivas sobre o fim do caminho longe
Sabemo-lo porém, e o livro é muito elucidativo a este propósito: esses Cristos – que teimam em, quotidianamente, soerguer-se da letargia, da solidão, do abandono e da desconsideração de quem tanto lhes deve – encontram-se no fim, retesados agonizantes na cruz do caminho longe ou, pelo menos, dos seus resquícios e dos seus estigmas mais aviltantes.
Resquícios e estigmas desse caminho longe que não devia ter sangue/ não devia/ mas tem, desse caminho da perdição, inundado do suor lavrado e, gulosamente devorado por alguns selectos moradores dos palacetes do Estoril e frequentadores assíduos dos casinos de Monte Carlo, pelos Cains da nossa secular tragédia como, pertinente e desassombradamente, vituperaram em tempos do colonial antanho poetas como: Gabriel Mariano, o icónico vate da negra bandeira da fome; Ovídio Martins, temível anti-terralongista, celebrado anti-evasionista e, igualmente, construtor paciente da utopia de um país redimido, “ilha a ilha/ dor a dor/amor a amor“; Jorge Barbosa, cultor de uma poesia levedadora dos pequenos dramas da nossa terra, mas, depois, por demais saturado da resignação e da fininha e silenciosa revolta melancólica que enchiam a cautelosa paz burocrática de alguns integrantes das elites letradas da província ultramarina; Osvaldo Alcântara, o caçador de heranças que, na expectativa de uma outra, nova e regeneradora jornada, no ciclo poético “Romanceiro de S. Tomé” oferece o catre solidário da mãe-terra caboverdiana ao corpo alquebrado, doente e exausto de Nicolau. Nicolau que, apesar de exaurido, lograra regressar das roças, ao contrário da pior fortuna e do infausto destino de Teteia e de outros que se foram para nunca mais para a terra longe de S. Tomé. É o que clamam Onésimo Silveira e Arménio Vieira aos que, tais Príncipes de Ximento e Joões Cabafumes, são interpelados a sobreviver, a resistir e a abrir os corações, as mentes e as mãos a um canto com alma mas sem ser magoado, como no poema de Arménio Vieira (kanta ku alma sen ser maguadu) e na canção homónima, musicada por Pedro Rodrigues, orquestrada por Paulino Vieira e os novos Voz de Cabo Verde e cantada por Bana.
Como nos elucidam O Fim do Caminhu Longi e outros livros, designadamente Migrações nas Ilhas de Cabo Verde, de António Carreira, e Imigrantes em Terra de Emigrantes (IBNL, Praia, 2007), de João Lopes Filho, os contratos para S. Tomé e Príncipe deixaram de ser “celebrados” nos primeiros anos dos anos setenta do século passado, mais precisamente em 1972, isto é, ainda antes do 25 de Abril de 1974.
A interrupção da corrente migratória para as ilhas do Sul-Abaixo ocorreu quando os flagelados do vento leste se puseram a caminho de outras, novas e desconhecidas terras-longe, designadamente as propiciadas pelas políticas assistencialistas de Marcelo Caetano de incentivo da emigração caboverdiana em direcção a Portugal. As políticas assistencialistas de Marcerlo Caetano foram adoptadas na sequência das repercussões várias da guerra colonial (ou de libertação nacional) no antigo Ultramar português e foram aceleradas nos anos sequentes à catástrofe ecológica despoletada pelas prolongadas secas sahelianas, ocorridas a partir de 1968. Como é por demais sabido, a adopção das mesmas políticas também visava responder à crescente precisão de mão-de-obra barata por parte da CUF, da LISNAVE, da J. Pimenta e de outras empresas portuguesas, em parte nomeadas por Renato Cardoso na balada Na altu kutelu, imortalizada pelo conjunto Os Tubarões e pela voz, sempre audível, de Ildo Lobo.
Como é sabido, a precisão de mão-de-obra de origem caboverdiana tornara-se cada vez mais premente, em consideração tanto do relativo crescimento económico verificado nos anos sessenta e inícios dos anos setenta em alguns sectores da economia metropolitana, como a construção civil, a extracção mineira e a construção e reparação navais, como também do crescente êxodo de jovem mão-de-obra portuguesa, em fuga da mobilização para a desastrosa guerra colonial e/ou em busca de melhores salários e condições de vida na Europa além-Pirenéus.
Como é do conhecimento geral, essas novas rotas, lisboetas, vieram complementar outros destinos europeus da emigração caboverdiana, como o holandês, o francês e o luxemburguês, procurados e encetados depois da Segunda Guerra Mundial, aliás, tal como o período coberto pelo destino santomense tratado no livro agora em análise.
Neste sentido, a abertura, nas vésperas do 25 de Abril de 1974, desses novos e amplos caminhos lisboetas também representou o requiem, o canto do cisne, o fim fatal do outrora inelutável caminho longe para S.Tomé e Príncipe.
Mas, foi mesmo o fim do caminho longe de S. Tomé e Príncipe?
É o próprio livro O Fim do Caminhu Longi e o seu rol de mágoas, ressentimentos e desesperanças, recolhidos das bocas e das memórias revisitadas, agora petrificados em forma de depoimentos dos ex-serviçais caboverdianos, a alimentar as dúvidas e as interrogações, diríamos, até, a sustentar a necessária interrogação a aditar, eventualmente, ao título do livro.
Esperemos que a visita recentemente efectuada pelo Primeiro-Ministro da República de Cabo Verde à República de S. Tomé e Príncipe e os importantes acordos que, nessa ocasião, foram firmados com o Governo desse país afro-lusófono, terra anfitriã dos ex-serviçais caboverdianos e pátria natal de acolhimento de muitos dos seus descendentes, também nossos compatriotas, sejam um sinal claro do termo, se não do caminho longe, pelo menos da cruz que se erige como um pelourinho, de todo em todo insuportável porque absolutamente extemporâneo e triturador de criaturas ainda conformadas com o destino de alegados párias da sorte, resignadamente especadas à espera da morte.
Estamos em crer que são indício seguro do muito aguardado termo do caminho longe a inscrição nos entendimentos subjacentes a esses acordos intergovernamentais tanto da dupla responsabilidade – histórica e política – da ex-potência colonial e do Estado santomense pela desventura de quem ora se fala, como também das obrigações específicas que incumbem ao Estado caboverdiano na protecção e na defesa dos interesses dos seus cidadãos, por quem, aliás, ainda muito se chora.
Tornou-se, por isso, inadiável a prática concretização dessa urgente exigência do tempo, do direito, da justiça, da moral e da consciência ética humanista de todas as pessoas de boa-vontade: a aliança e a lusófona irmandade entre os nossos países, secularmente sedimentadas na história comum – aliás largamente nutrida, também ela, pelo suor anónimo dos ex-serviçais caboverdianos – deve, de ora em diante, poder jorrar, de modo mais efectivo e cristalino, a solidária fraternidade para com esses nossos humildes e anónimos irmãos, tornados desgraçados e involuntários protagonistas das abjectas e revolutas divisão e especialização coloniais do trabalho.
Tanto mais quanto esses nossos concidadãos são credores privilegiados de uma dívida de inadiável e pleno reconhecimento da sua inalienável dignidade de seres humanos.
Com efeito, em razão da espoliação de que foram vítimas a sua energia e a sua força de trabalho, eles tornaram-se legítimos titulares do imprescritível direito ao devido e justo ressarcimento, como, aliás, ficou convincentemente comprovado no livro O Fim do Caminhu Longi.
As feridas que, ainda incicatrizadas, persistem em cobrir a sofrida austeridade das vidas abandonadas dos ex-serviçais caboverdianos, bem como o sepulcral e húmido silêncio que persiste em rodeá-las foram e continuam a ser eloquentes testemunhas, (in)silenciados testemunhos da espoliação do seu corpo e da sua alma, a que acima se fez referência.
Testemunhas, testemunhos, que, tendo também ecoado em poemas vários do livro O Útero da Casa, da poetisa santomense Conceição Lima, podemos agora escutar no livro O Fim do Caminhu Longi, de Augusto Nascimento.
José Luís Hopffer C. Almada
Nota do autor: Constitui o presente texto uma versão desenvolvida da alocução de apresentação pública do livro “O Fim do Caminhu Longi”, de Augusto Nascimento, ocorrida a 19 de Setembro de 2007, na Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique, Lisboa, e transmitida em directo pela RDP-África.
Por ocasião do lançamento do livro, o qual contou com a presença da directora da Ilhéu Editora de Cabo Verde, Ana Cordeiro, realizou-se um recital de poesia com base em poemas de Jorge Barbosa, Ovídio Martins, Gabriel Mariano e Arménio Vieira, ditos por Celina Pereira, Mito Elias bem como pelo autor do presente texto.