“O Fim do Caminhu Longi”, de Augusto Nascimento:I

José Luís Hopffer Almada

Breve nota introdutória: emigração e elites letradas caboverdianas

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Os estudiosos do caso caboverdiano parecem concordar no juízo segundo o qual a emigração constitui um traço idiossincrático fundamental do povo das ilhas.

Iniciada no século XVII e tendo – segundo a palavra muito credível e respeitada de António Carreira – como destino primeiro a América do Norte, a emigração vem-se perfilando como um dos principais meios de busca de vida por parte dos caboverdianos, isto é, como uma das principais formas de escape às calamidades climatéricas, económicas e históricas que, secularmente, têm assolado o nosso Sahel insular.

Nessa óptica, a abertura ou o fechamento dessa porta de salvação têm condicionado de forma persistente o destino do povo das ilhas, do mesmo modo que se têm repercutido nas mentalidades dos ilhéus, tanto na cultura popular como na palavra pensada e impressa das elites letradas.

Relembre-se, a este propósito, que quatro das criações mais emblemáticas da música caboverdiana contemporânea são o funaná Fomi 47, de Codé di Dona, magistralmente interpretada pelos Bulimundo e pelo rei do funaná, Zeca di Nha Reinalda, bem como as mornas Camin di San Tomé, de Abílio Duarte, Sina de um Crioulo, de Manel de Novas, e Sodade, de António Zeferino Soares, interpretada pela voz grave e antiga de Bonga e, nos tempos mais recentes e por forma decisiva, tornada mundialmente conhecida pela voz suave e dolente da diva de pés descalços, Cesária Évora.

A emigração mereceu atenção redobrada tanto dos nativistas e claridosos, como também da geração nacionalista da nova largada da literatura caboverdiana nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Essa atenção desdobrou-se quer pela reflexão ensaística e pela frequente virulência da palavra jornalística quer, ainda, pela sentida meditação da poesia e da ficção literária.

Nas circunstâncias históricas, ecológicas e económicas muito específicas de Cabo Verde, a importância da emigração é de tal monta que, conjuntamente com a instrução, tem sido uma das principais alavancas da promoção social das criaturas das ilhas, ou, para utilizar uma expressão que seria certamente da preferência dos claridosos, da ascensão social, económica e cultural do negro e do mulato caboverdianos e, assim, do estabelecimento de uma almejada democracia económica, social e cultural no solo madrasto, porém amado, das nossas ilhas.

Por tal forma foi crucial o papel dos embarcados que Teixeira de Sousa ficcionou emigrantes retornados da América (como, por exemplo, Frank Peito de Ouro e Antoninho Barato) reservando-lhes, enquanto personagens da sua obra romanesca, o papel de coveiros privilegiados do poder da aristocracia branca foguense e do seu correlativo racismo.

Relembre-se, nesta circunstância que é ao americano Benjamim que cabe, enquanto personagem central do romance Xaguate, desempenhar o papel de um dos símbolos da definitiva vitória do preto e do mulato caboverdianos e, assim, de cabouqueiro dos alicerces de um Cabo Verde pós-colonial, novo e prenhe de esperanças, mas também grávido de dilemas identitários, políticos e desenvolvimentistas.

A relevância da emigração na modelação e na arquitectação do edifício social caboverdiano ficou também atestada no facto de o destino das diversas correntes migratórias ter servido como traço emblemático da distinção social e da hierarquização sócio-racial então vigente em algumas das nossas ilhas, com destaque para a ilha da Fogo. É assim que, segundo Teixeira de Sousa e António Carreira, os brancos da ilha do funco, da loja e do sobrado escolhiam a metrópole colonial e as demais províncias ultramarinas portuguesas para se evadirem de uma ilha, onde os sobrados e o poder neles radicado soçobravam irreversivelmente, e, assim, puderem enveredar por uma carreira militar, judicial ou administrativa, enquanto que, na sua busca de uma vida mais digna, os negros e os mulatos escolhiam os caminhos marítimos para os Estados Unidos da América.

Caminhos da América, aliás, muito louvados, tanto na pena poética e/ou jornalística – tão esplendorosa quanto mordaz -, de Eugénio Tavares, Luís Loff de Vasconcelos e Pedro Cardoso, como também na mais comedida e compromissória avaliação de Teixeira de Sousa e Baltasar Lopes das Silva.

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A inegável importância da emigração reflecte-se, igualmente, na circunstância de o modo literário e ensaístico do seu tratamento ter sido um importante lugar de disputa e de controvérsias políticas e ideológicas entre as diferentes correntes e gerações político-culturais caboverdianas com diferentes e, por vezes, antagónicas motivações.

Evasionismoanti-evasionismopasargadismoanti-pasargadismoterralongismoanti-terralongismo tornaram-se expressões corriqueiras nos estudos sobre a literatura caboverdiana e, por isso, familiares a qualquer estudante do ensino secundário radicado nas ilhas.

É exactamente no modo literário de tratamento dessa problemática que avulta a importância da emigração para S. Tomé e Príncipe.

É assim que, em todos os escritores e pensadores acima mencionados (Eugénio Tavares, Luís Loff de Vasconcelos, Pedro Cardoso, Baltasar Lopes da Silva, Teixeira de Sousa, António Carreira), o inferno equatorial do Sul se divisa como alternativa de todo em todo indesejável e, por isso, muito causticada.

Deste modo, a opção santomense surge, sempre, renegada e muito desqualificada, em exaltado contraste, aliás, com a alternativa representada pelos lugares prósperos do El Dorado, situados no espaço territorial da grande nação americana, isto é, a nor-noroeste do sonho e da ânsia terralongistas de um Chiquinho já detentor dos saberes liceais, mas psicologicamente exaurido pelas mortíferas devastações das secas, ilustradas, de forma paradigmática, no encerramento da escola onde leccionava em virtude da morte por inanição da grande maioria dos seus jovens alunos.

Pode-se, assim, concluir que, em clamorosa alternativa à emigração forçada para S. Tomé e Príncipe, os caminhos para a América eram enaltecidos e louvados como altamente recomendáveis, exactamente porque eram considerados para quem lograva percorrê-los como muito propícios à aquisição de valores civilizacionais positivos e modernos, à vivência da liberdade e de bem-estar, material e espiritual.

Desde sempre desqualificada como perniciosa à saúde física e ao equilíbrio espiritual dos caboverdianos, a emigração para S. Tomé e Príncipe constituiu-se, por isso, como um importante lugar da consciencialização política dos caboverdianos e das suas elites, quer num sentido contestatário e sumamente nacionalista e anti-colonial, quer tão-somente no sentido de um posicionamento cívico, assaz crítico em relação ao descaso, à incúria, ao abandono e a outras mazelas coloniais.

Determinante nessa tomada de consciência cívica e política foram os seguintes factores:

i) A vivenciação das ilhas equatoriais por parte dos secos habitantes do Sahel insular para aí conduzidos como um inextrincável e obscuro espaço de doenças, bichos mortíferos e chuvas excessivamente diluvianas.

ii) A sua representação como um autêntico Sul-Abaixo, isto é, a sua percepção como um espaço de aviltamento humano, de degradação civilizacional e de engendramento das gentes gentios que comem gente,referidas no poema “Terra Longe” de Pedro Corsino de Azevedo e muito presentes no geral imaginário popular caboverdiano.

Relembre-se, neste contexto, que é referindo-se à emigração para S. Tomé e Príncipe que o autor (ou os autores) da anti-claridosa Consciencialização na Literatura Cabo-Verdiana (Casa dos Estudantes do Império, Lisboa, 1963) vituperara(m) o que era tido por postura evasionista e escapista dos claridosos e que estaria profusamente ilustrada no denominado ultra-evasionismo do sacrossanto Jorge Barbosa.

Considerava(m) o(s) mesmo(s) autor(es) que os claridosos se teriam furtado ao seu dever cívico de caboverdianos e à sua função social de literatos, por, alegadamente, não terem denunciado, com a suficiente veemência e a necessária pregnância, o ultrajante contrato para S. Tomé e Príncipe.

Ademais, alegou-se – sempre em desfavor dos claridosos – que os mesmos teriam adoptado uma postura excessivamente resignativa quando, apesar de tudo, se viram obrigados a abordar a temática da emigração forçada para o Sul.

Nesta óptica, pretendeu-se que o ciclo poemático “Cancioneiro de S. Tomé”, de Osvaldo Alcântara, seria paradigmático da acima referida postura resignativa e assaz conformista dos claridosos.

Da demissão cívica de que foram acusados os claridosos somente se excepcionaria o ensaísta, contista e médico Henrique Teixeira de Sousa, por ter efectivamente analisado as devastadoras consequências nosológicas e psicossociais da emigração para S. Tomé e Príncipe, tanto no desenvolvimento das suas actividades como médico e investigador, como também na prossecução do seu labor ficcional, por exemplo, no conto “A Raiva” (incluído na colectânea de contos da sua autoria datada de 1972 e intitulada Contra Mar e Vento.

Mesmo se, nesses tempos de “colaboracionismo rebelde” com a administração colonial vigente nas ilhas, o reputado clínico e nutricionista foguense tenha contestado a qualificação da mesma emigração como sendo forçada, como, aliás, expressamente deixa entender António Carreira em citação constante do livro Migrações nas Ilhas de Cabo Verde (ICL, Praia, 1983).

Anote-se, entre parêntesis, que, no período pós-colonial, o escritor neo-realista e neo-claridoso – que, como é sabido, foi militante da Juventude Comunista e compagnon de route do Partido Comunista Português durante a sua mocidade estudantil lisboeta – denuncia as condições, muito contaminadas pelo logro e pela fraude, nas quais se processava o recrutamento dos acossados pelas secas para as roças do Sul.

Avulta nessa ficção pós-colonial, vazada primacialmente no celebrado primeiro romance Ilhéu de Contenda, o desvelamento da torpe ganância tanto do negro e novo rico Soares como do branco desqualificado Felisberto, ambos ao serviço da famigerada SOEMI, o primeiro como comerciante e contratador com escritório montado, o segundo como homem de expedientes vários e escusos, ora empregado como agente do primeiro e encarregado do recrutamento e da indução ao contrato das gentes esfaimadas, e, por isso, ludibriadas, cativadas e seduzidas – isto é, enganadas - com o verde paraíso das plantações e das fazendas do Sul, prometido, de forma sistemática, pelos agentes e contratadores da SOEMI, e para lá conduzidas, em grandes levas amontoadas na promiscuidade dos porões, bastas vezes insalubres e infectos de desumanidade.

Ressaltam ainda na trama romanesca neo-realista de Teixeira de Sousa quer o posicionamento crítico do Dr. Vicente Spencer, médico mulato e alter-ego do próprio Teixeira de Sousa, quer ainda a rebeldia, politicamente contestatária, de Ovídio Soares, filho do acima referido, comerciante negro e novo-rico.

É este jovem Ovídio que recusa o financiamento dos seus estudos universitários pelo dinheiro angariado pelo progenitor, renegado como sujo, porque alegadamente resultante da exploração da situação de miséria e de abandono dos contratados.

De muita relevância para a história social e para a socio-musicologia das ilhas é a incursão à vida do trovador popular Príncipe de Ximento e à sua postura satírica em relação às autoridades administrativas coloniais, aliás, visceralmente testemunhada pela canção homónima. Celebrizada pela voz do malogrado Frank Mimita, a mesma canção afirma o rebelde anti-evasionismo de Príncipe de Ximento, narra a saga da estadia dos contratados caboverdianos nas plantações do Sul-Abaixo e discorre, de forma viva e contundente, sobre as injustiças experimentadas e os abusos presenciados nas ilhas do Golfo da Guiné.

Feito o parêntese, convém esclarecer:

É verdade que a geração que não vai para pasárgada produziu, em tempo politicamente útil e historicamente pertinente, textos de teor vário sobre a degradação humana e social dos contratados para S. Tomé e Príncipe, todos arrojados e comoventes o suficiente para suscitar a revolta bem como uma indignação de contornos nitidamente anti-coloniais. É o que comprovam o ciclo poemático Caminho de Perdição(constante do livro Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para Pasárgada – 100 Poemas), de Ovídio Martins, os poemas “Caminho Longe” e “Comissário Ad-Hoc”, de Gabriel Mariano, alguns poemas do livro Noti, de Kaoberdiano Dambará, bem assim o conto “Toda a Gente fala: Sim, senhor”, de Onésimo Silveira, igualmente autor do mais recente romance de parcial temática santomense As Sagas das As-Secas e das Graças de Nossenhor e um dos poucos intelectuais caboverdianos que esteve efectivamente em S. Tomé e Príncipe (aliás, tal como Gabriel Mariano e o comissário ad-hoc Jorge Barbosa) e pôde, por isso, testemunhar as difíceis condições de vida e a precárias situação laboral dos serviçais caboverdianos, exportados para essas ilhas equatoriais.

Todavia, ninguém denunciou de forma tão tocante e contundente o contrato para as ilhas do Golfo da Guiné como o fez Jorge Barbosa no longo poema em duas versões intitulado “Memorial de S. Tomé”, escrito em 1966, clandestinamente recitado em restrito círculo de amigos e confidentes e, finalmente, dado à estampa na sua póstuma Poesia Dispersa e Inédita (ALAC, Lisboa, 1993), organizada e introduzida por Elsa Rodrigues dos Santos bem como na sua também póstuma Poesia Completa (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Lisboa, 2005), organizada por Arnaldo França a partir da s obras editadas do poeta praiense e de uma compilação em três livros de inéditos e dispersos realizada em parte pelo próprio Jorge Barbosa e também prefaciada por Elsa Rodrigues dos Santos.

Essa constatação, apesar de tardia, é tanto mais importante e por demais ajustada às circunstâncias quanto o poema de Jorge Barbosa se nos afigura como uma muito conseguida versão em verso da temática tratada por Henrique Teixeira de Sousa e António Carreira, bem como nos vários livros sobre a mesma problemática que Augusto Nascimento tem dado à estampa.

4 comentários

  • Helena Fontes Helena Fontes diz:

    Antes de comentar o artigo do Hopffer, queria fazer uma nota de reclamação perguntando à Direcção da revista, porquê alguns autores têm mais direito de “antena” que os demais, a quem é exigido rigor nas páginas e caracteres dos artigos?
    Será uma questão de equidade de género pendente para o masculino?

    Quando obtiver a resposta comentarei.

    Helena Fontes

    • Démis Lobo Almeida diz:

      Senhora Helena Fontes,
      Nesta revista ninguém, independentemente de quem seja, tem mais direitos ou privilégios do que os outros. Primamos pelo rigor na selecção do que publicamos, com recurso a critérios objectivos.
      Tal princípio não obsta a que, em nome do princípio da razoabilidade, mantenhamos alguma flexibilidade quanto aos critérios tendo em conta, sempre, o objecto do artigo e não a pessoa do seu autor.
      O artigo do sr. José Luís Hopffer Almada deveria ser publicado por partes (parte I, parte II, etc.), como aconteceu com outras colaborações deste autor, mas, por lapso, a publicação foi feita sem esta subdivisão.
      Assim que possível, tomaremos as providências necessárias para que esta situação seja ultrapassada.
      Os melhores cumprimentos.
      Démis Lobo Almeida

  • Discordo e concordo em parte com a Helena e com o Démis.
    Confesso que também fiquei um bocado admirado com o tamanho do texto.
    Claro que o que o ilustre José Luís escreve aqui é maravilhoso, aliais, como quase tudo o que este senhor escreve denota-se muito conhecimento e experiências por meio das suas palavras, quer dizer letras.
    Mas, concordo com a nossa colega, no facto de, há medida que fui lendo o artigo fui perdendo o fio da mealhada e algum desinteresse pelo texto, mas que, por respeito ao autor e a todos aqueles que aqui tem deixado algumas palavras e muito bem ditas, esforcei-me até ao fim.
    Parabéns ao autor e faço-o de bom agrado, porque por vezes é preciso intervir sim, apenas para parabenisar o autor, digo isto meus amigos, porque vejo por vezes intervenções sem conteúdos. A meu ver devemos opinar quando conhecemos, criticar por criticar é um exercício vazio.

    PS : Não estou contra esta publicação, pelo facto deste se muito longo, mas também não concordo muito com as tais cinco paginas penso que quando a linha pensamento do autor se estender a seis ou sete paginas, deve ser assim publicada.
    Obrigado a todos.

    • Démis Lobo Almeida diz:

      Concordamos com a sua observação, senhor Júlio Dias. É exactamente por isso que disse, em resposta à questão da sra. Helena Fontes, que o facto de termos critérios rigorosos e objectivos não obsta à tutela do princípio da razoabilidade. Não é por haver uma ou outra folha a mais que vamos, implacavelmente, negar a publicação dum determinado artigo ou ensaio. É preciso atinarmos ao essencial e o “essencial” é o conteúdo do texto.
      Cordiais Saudações,
      DLA.

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