Batuque – Património imaterial e memória da cultura cabo-verdiana

Rita Ramos

 Mais uma vez venho com algumas interrogatórias acerca deste elemento do património imaterial da matriz africana. Antes das interrogatórias, a exposição de ideia acerca do Batuque nos faz lembrar o que de fato acontecia com as demonstrações no campo da cultura popular. Até o momento há muito pouco estudo acerca deste património imaterial cabo-verdiano. No âmbito de leituras e releituras procurar conceituar o batuque e colocar este elemento na gama de definições de áreas não é uma tarefa ainda possível visto que encontramos significações para o batuque como “dança” outros como “canto”.  Entendemos que o batuque agrupa em ambas áreas na sua forma de expressar.[2]  Por conta de algumas indefinições, faz se necessário de fato estudo semiótico e a relação musical com as tradições orais, com a contribuição da antropologia para auxiliar não somente na definição dos conceitos, mas também apresentar de forma mais firme o significado do batuque e passar para novas gerações o rico contributo que tem este património de matriz africana.

Acerca da proibição das manifestações culturais, no que diz respeito ao batuque a repressão é publicada em forma de edital no Boletim Oficial de Cabo Verde, nº 13 de 31 de Março de 1866.[3] O texto proibitivo indica que o batuque era “divertimento” que “se oponha a civilização, ofensivo a boa moral, inconveniente e incómodo”, na interpretação o documento apontava atitudes de intolerância sobre esta manifestação cultural. Segundo o texto documental o batuque deveria ser reprimido por ser praticado por escravos e libertos, e que não era correto apoiar “uma prática que exortaria a embriaguez e a imoralidade”. Com os mesmos motivos e fundamentado no art. 249º, nº 1, do código administrativo sob a égide do administrador do concelho da Praia, José Gabriel Cordeiro determina a proibição do batuque em toda área da cidade, e que as pessoas flagradas com a prática da mesma, que estas sejam presas e entregues ao poder judiciário.  

Sobre a natureza e do uso dos costumes deste património, Baltazar Lopes na Claridade de nº 7, afirmou que este costume era parte integrante e utilizado nas formalidades de casamento, e que ao contrário do que era exposto, o batuque era “cerimónia generalizada no arquipélago”.[4]

Entre os conceitos e definições encontrados chamou-me atenção: o batuque “é uma espécie de dança formado por mulheres que cantam sem uso de instrumentos”. Jorge Morbey Pereira e Maria Luísa Ferro,[5] sobre a origem na sua forma essencialmente de representar, existe a discussão de que a origem do Batuque pode ser tanto banto, quanto sudanesa e tratar-se de um termo talvez banto, “ku-beta”, cuja designação que dizer: batuque.[6]

Maria Luísa Ferro Ribeiro, afirma que o conjunto das batuqueiras é formado por uma cantadeira ou cantador, este na condição de solista, um grupo que faz um coro, e este com a “tchabeta”, no meio do terreiro a dançarina é acompanhada pelo cimbó.[7]

Fig.1

 

Elemento do património imaterial caboverdiano, o Batuque faz parte da cultura santiaguense por ter suas características raízes da cultura africana. Colecção João Loureiro – Data: 1910

 Na sua expressão corporal as mulheres balançam os quadris no ritmo das palmas sobre almofada apertada fortemente entre as coxas acompanhado de uma música de improviso ao som das vozes das companheiras de roda. Ao convite de uma delas saltam para o centro da roda em um bailado colectivo.

Santiago é a única ilha que conserva o batuque, traço cultural de origem africana.[8]  O contexto antropológico referido por Maria Manuela Oliveira Fabião[9] em sua tese de Mestrado apresentada em citação subescrevendo o autor Baltazar Lopes indica como sendo o batuque evento de grande importância que antecede as cerimônias, onde existe um cerimonial cujo traço característico corresponde a reserva, ao silêncio da noiva diante da nova vida. Maria Fabião afirma ainda que o batuque representa não somente as tradições, mas também no século XIX, esta tradição foi alvo de críticas e repreensão por parte da colónia que tinha entendimento de que a manifestação do batuque estava envolta de aspecto erotizando  na sua expressividade. O que percebemos é a ausência de  entender, respeitar o “outro” na sua raiz cultural.

O filme realizado por Catarina Rodrigues rodado na Cova da Moura, Amadora, Portugal, no ano de 1997, titulado “Mulheres do Batuque”, enfoca a representação e história desta “dança” tradicional de origem africana. Para estas mulheres, o Batuque é mais que uma representação, mais que tradição: é essência de vida, alma e que dá dignidade a sua maneira de ser.

Acerca de algumas interrogatórias enunciadas a princípio, cumpre estas a serem respondidas pelos próprios cabo-verdianos:

  • Será que o regime colonial português hostilizou o batuque por este ser um traço cultural de origem africana?
  • O batuque ecoou como forma de resistência a política que desejava impor valores europeus para um povo híbrido e miscigenado e que apresentava um entendimento que a expressão cultural era primitiva e depreciativa, com teor “lascivo”  para os padrões europeus?
  • A representação exibia a forma de resistir a maneira de agir e pensar que não coadunava com o modelo de “aceitação” da cultura portuguesa?

Por: Rita de Cássia Silva dos Santos Ramos [1] 


[1] Professora – Governo do Estado da Bahia, Brasil, Especialista em Educação Infantil, Mestre em Arte, Património e Teoria do Restauro – Universidade de Lisboa.

[2] Fabião, Maria Manuela Oliveira, p.110, Apud, Gonçalves, 1922

[3] Ver: SEMEDO, Maria R. Turano e José Maria, Praia, 1997, pp.127-128

[4] Ver: artigo escrito por Baltazar Lopes, Claridade, nº 7, no ano de 1949, p.46.

[5] Boletim de Propaganda e Informação de Cabo Verde, pp.13-14, ano XIII, nº 148, 01 de Janeiro de 1962

[6] Pereira, Jorge Morbey Ferro Ramos, 1967, p.17

[7] Boletim de Propaganda e Informação de Cabo Verde,  Maria Luísa Ferro Ribeiro, p. 14, ano XIII, nº 148, 01 de Janeiro de 1962 “ O cimbó de origem sudanesa, é um acessório indispensável de batuque formado por um bojo de cabeça forrado de pele, como tambor; um braço de madeira terminado por uma caravelha, um cavalete, e um arco semelhante ao flecha tendido por crinas untadas de breu como crina é também a sua única corda vibrátil”.

 

[8] Amaral, Ilídio, Santiago de Cabo Verde, Lisboa, 1964, p.19

[9] Fabião, Maria Manuela Oliveira, Lisboa, 2000.

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