Emigrante (Poema)

Edmilson Varela

 Quando eu puser os pés no vapor que me levará

quando deitar os olhos para trás

em derradeiro gesto de desprendimento,

não chorem por mim

 

Levarei numa pequena mala

entre a minha roupa amarrotada de emigrante

todos os meus poemas

- todos os meus sonhos!

 

  Levarei as minhas lágrimas comigo

mas ninguém as verá

porque as deixarei cair pelo caminho

dentro do mar.

 

 Levarei já nos olhos a miragem de outras paisagens

que me esperam,

já no coração o bater forte

de emoções que eu pressinto.

 

 E se eu voltar

se voltar para a pobreza da nossa terra,

tal como fui,

humilde e sem riquezas,

também não chorem por mim

não tenham pena de mim.

 

 Mas se eu trouxer esse ar de felicidade

que fica a arder na chama de charutos caros

que cintila em pedrarias de anéis vistosos

se anuncia em risadas ruidosas

e se garante na abundância das cifras bancárias,

 

                 então chorem por mim

                 tenham pena de mim,

 

 porque a pequena mala do emigrante que fui,

com os meus poemas – os meus sonhos! –

ficou esquecida como coisa inútil

como peso inútil,

não sei em que parte do muno!

 

 Jorge Barbosa, Emigrante, in Claridade, revista de arte e letras, S. Vicente, 1948, n.º6, p. 9-10.

1 comentário

  • NomeJose Manuel Pestana diz:

    Olá,Edmilson,
    Apreciei muito o poema acima que diz bem do que é a saga do emigrante-em
    geral- e do cabo-verdeano em particular.
    Depois informar-me-às da existência da obra citada na Biblioteca da Faculdade.
    Aproveito p/ inquirir do andamento da t/tese.
    Cordiais saudações.

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