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	<title>Tertúlia Crioula &#187; Adalgiza Santos</title>
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	<description>Um espaço de discussão e opinião</description>
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		<title>Quem somos ou o que somos (pessoas ou mercadorias)?</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 00:44:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adalgiza Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Num mundo reinado pelo capitalismo, onde damos prevalência aos bens materiais, ao luxo, ao conforto, num mundo em plena evolução e desenvolvimento onde dispomos das mais avançadas tecnologias desde que existe o Homo Sapiens, em pleno século XXI, atribuímos valor a tudo.
Catalogamos e colocamos um preço em tudo, comercializamos os mais diversos produtos sejam eles [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num mundo reinado pelo capitalismo, onde damos prevalência aos bens materiais, ao luxo, ao conforto, num mundo em plena evolução e desenvolvimento onde dispomos das mais avançadas tecnologias desde que existe o Homo Sapiens, em pleno século XXI, atribuímos valor a tudo.<br />
Catalogamos e colocamos um preço em tudo, comercializamos os mais diversos produtos sejam eles matérias-primas ou produtos secundários que já passaram por algum processo de transformação e industrialização.<br />
Fazemos todos os esforços para nos darmos bem com os nossos parceiros comerciais e até para conseguir mais, de modo a expandir o nosso negócio, a ir além fronteiras pois só com bons parceiros no estrangeiro, com uma boa política comercial e alfandegária, com a livre circulação de bens nos mais diversos mercados e através dos vários meios de transportes, conseguimos crescer e desenvolver.<br />
É a mão invisível da economia, são todos os mecanismos utilizados neste sector que ajudam o desenvolvimento e crescimento dos mais diversos países, um tem matéria-prima, outro tem os meios de transportes, outro o conhecimento, outro a maquinaria, outro o banco, enfim uma roda onde todos giram e fazem parte, mas só uns aparecem, não obstante todos serem afectados.<br />
Actualmente, atendendo à conjuntura económica internacional não é fácil manter o negócio rentável, mas mesmo assim ano após ano há negócios que crescem cada vez mais e que lucram cada vez mais. Não porque o objecto comercializado seja caro ou raro, muito pelo contrário.<br />
Um bom negócio deve concentrar-se não só em ter bons parceiros como também em ser transnacional e apostar na diversidade, variabilidade e versatilidade dos produtos. E, o mais importante, todo o comerciante sabe que deve retirar o máximo de lucro com o mínimo de custo, o que por outras palavras significa que devemos obter o produto a um baixo preço e vendê-lo por um valor superior ao que o comprou, é daí que advém o lucro, também rentabilizá-lo se já não serve para o efeito inicial utilizá-lo/adaptá-lo para outra função, é daí que advém o sucesso de qualquer negócio.<br />
Obviamente que ao falar de comércio e de mão invisível que move a economia mundial não podemos ignorar os comércios ilegais, porque estes sim realmente movem, através de uma máquina não invisível mas muito bem camuflada, algumas das quais conhecemos, como a burocracia e o filho desta, a corrupção, grandes quantias na nossa economia encadeando vários negócios alimentando vários vícios e males de modo a esconder o que realmente está por trás de tantos milhões.<br />
De todos os negócios ilegais o tráfico de seres humanos é o terceiro mais rentável, drogas e armas ocupam os lugares de topo.<br />
O tráfico de seres humanos é muito bem organizado, bem estruturado, transnacional e diversificado afecta todos os países, estes actuam como exportadores, intermediários, transportadores ou importadores.<br />
Em média gera cerca de 27 biliões de euros por ano, estima-se que cerca de 800 mil pessoas a 2,4 milhões possam ser traficadas por ano em todo o mundo. O preço de cada ser humano varia com quem trafica, da proveniência, do que o mercado procura, enfim, de vários factores. Acredita-se que o lucro por cada pessoa seja de 300 mil euros, convém salientar que por vezes são vendidas, inicialmente por 100 euros.<br />
Não existe um grupo de pessoas que são traficadas, qualquer pessoa pode ser traficada, contudo há alguns grupos de risco que são crianças, mulheres e imigrantes, escusado será dizer que a pobreza é um dos factores que potencia este comércio.<br />
A ideia de uma vida melhor e a boa fé permite que muitos se iludam com falsas promessas e acabem por imigrar para outro país onde irão trabalhar. Só não são informados que assim que estiverem a trabalhar primeiro têm de saldar a dívida resultante das despesas da viagem, dívida que na verdade nunca será saldada.<br />
Também não têm conhecimento de que os seus documentos não irão ficar com eles e sim com o seu empregador, que nunca é aquele que o recrutou porque entretanto já foi vendida sem ter conhecimento disso, e não sabem que não podem sair da rede onde se encontram.<br />
Se isso acontece com adultos, que dizer de uma criança, a grande diferença é que as crianças na maior parte das vezes foram sequestradas, exceptuando os casos em que são vendidos pelos familiares ou entregues por estes a uma pessoa que supostamente irá cuidar dela melhor e dar-lhe melhores condições de vida. Embora existam casos de adultos que também são sequestrados e levados à força para outro país.<br />
O tráfico de seres humanos não consiste simplesmente no tráfico sexual, também consiste na exploração da mão-de-obra, melhor dizendo na escravatura laboral.<br />
Esta questão é importante uma vez que inconscientemente todos acabamos por contribuir para o sucesso do tráfico de seres humanos, uma vez que podemos estar a comprar um produto que foi feito por um escravo, uma pessoa que foi sequestrada, vendida, iludida e que actualmente é explorada e vive em condições sub-humanas.<br />
O tráfico/escravatura assemelha-se a um polvo, tem vários tentáculos que correspondem aos diversos tipos de trabalho a que se destinam: pode ser para prostituição em bar de alterne ou não, pode ser para paraísos sexuais, para redes de adopção ilegal, para redes de pedofilia, pornografia, mendicidade, indústria, extracção de órgãos, recrutamento de novos indivíduos através dos que já foram traficados, por exemplo uma criança serve de isco para outra.<br />
É extremamente difícil pensar em todos os casos para os quais as pessoas são vendidas e o porquê de tanta procura e mais difícil ainda é traçar um perfil dos recrutadores, infelizmente pode ser qualquer um.<br />
Ao contrário do que se poderá pensar, muitas dessas pessoas que são traficadas vão para países desenvolvidos, são retiradas das zonas mais pobres dos países subdesenvolvidos ou de desenvolvimento médio, o que demonstra a transversalidade e transnacionalidade do crime.<br />
Não pretendo e nem vou introduzir números, estatísticas e estudos por dois motivos: primeiro este é um dado que facilmente se encontra na internet pelo que parece-me desnecessário estar a reproduzir o que se pode encontrar rapidamente com uma pesquisa no Google; segundo esses números não são exactos são com base nas queixas, investigações, processos etc., o que claramente indica que o número que dispomos com certeza é inferior ao que realmente existe, creio que basta ter em mente que esses números não estão inflaccionados, muito pelo contrário, e que tendem a aumentar todos os anos.<br />
Basta pensarmos que, o dobro da população de Cabo Verde é traficado todos os anos e que o lucro que se obtém em poucos anos é superior a riqueza de alguns países.<br />
Para escrever um texto sobre o tráfico de seres humanos abordando-o na totalidade, seria necessário abordar: as várias formas como operam os recrutadores que são a ponta da meada do tráfico; os vários argumentos que utilizam para ludibriar as pessoas, que sem saberem constituem a matéria-prima; os esquemas burocráticos e os subornos necessários para que cheguem ao país de destino, pois mudam frequentemente de lugar de modo a evitar que a polícia lhes apanhe o rasto; os diversos mercados para os quais são mais tarde distribuídos, alguns de luxo, outros não, e os diversos produtos que serão por elas mais tarde produzidas: filmes, fotografias (ambos pornográficos), bolas, camisas, etc.<br />
Enfim, por todos esses motivos e mais alguns é difícil obter dados estatísticos precisos sobre esse tema, e aí reside também a dificuldade das autoridades desmontarem esse tipo de negócio, um negócio extremamente rentável que envolve boa parte dos crimes constantes no Código Penal no que respeita a crimes contra as pessoas, que afecta todas as formas dos direitos humanos que viola todas as convenções.<br />
Temos de ter noção que o objecto do negócio são pessoas, seres humanos como nós ou os nossos familiares, que não é um flagelo distante que só acontece no estrangeiro ou em países pobres, mais uma vez ressalvo que os países ricos muitas vezes são os destinatários.<br />
Gostaria simplesmente que reflectissem sobre isso, não temos de fazer algo somente quando a desgraça nos bate à porta, convém dormirmos descansados sem pensar que uma pessoa que conhecemos e gostamos pode desaparecer para sempre não porque morreu mas porque é mercadoria.<br />
É um produto que alguém queria, gostou e comprou e que quando se cansar descarta, através do homicídio ou vendendo para outra rede de tráfico para ser usada noutros serviços ou ser leiloada por aquele que der mais.<br />
Seria bom pensarmos que os produtos que consumimos e compramos não foram feitos pelo pai/mãe, filho/filha, irmão/irmã de outra pessoa, algures numa cave qualquer sem comida, sem as mínimas condições de vida, condições básicas como um banho, um copo de água ou uma cama e cujos familiares (pais, cônjuges, filhos) e amigos aguardam dias, meses, anos à espera de uma notícia nem que seja para dizer que faleceu.<br />
É nosso dever assegurar que isso não acontece, é nosso dever procurar e ajudar nas buscas sempre que alguém desaparece nunca podemos ter a certeza se não foi levado por um braço invisível.<br />
Se tal como uma blusa ou uma bicicleta não foi exportada de barco ou avião para ser vendida; se tal como um papel usado não irá para reciclagem ser colocada num site para ser leiloada ou vendida a 100 euros para outra rede para prestar outros serviços ou então amputada para que possa render mais dinheiro na mendicidade ou ainda ser-lhe retirado os órgãos para serem vendidos no mercado negro enquanto ela morre algures porque não recebeu os cuidados necessários aquando da extracção do órgão.<br />
Para evitar que a M…, o J&#8230;, o A&#8230;, a R…, a B…, o N…, sejam mais um produto mais uma matéria-prima com inúmeras possibilidades de produzir e criar produtos secundários, para evitar que a roupa que eu uso, a mala que eu levo para a praia seja a causa de inanição e morte de tantos outros; temos de ter consciência da situação do modo a Prevenir, Reprimir e Punir, acima de tudo Prevenir porque é na Prevenção que está a cura de todos os males.<br />
Mais tarde ou mais cedo vamos ter de fazer alguma coisa, quanto mais cedo melhor, podemos não nos aperceber disso, aliás o secretismo, o silêncio são ingredientes fundamentais na fórmula mágica do sucesso desse crime, mas o tráfico de seres humanos existe, é real e está mais próximo de nós do que julgamos.<br />
Silenciar e não agir é compactuar, não temos de ficar à espera até que nos bata à porta, podemos não ser os exportadores ou importadores, mas podemos ser os transportadores ou intermediários, por isso o mínimo que podemos fazer é exigir mais rigor e controlo nas nossas fronteiras, sejam elas marítimas ou áreas.</p>
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		<title>Casamento Homossexual? Porque não?</title>
		<link>http://tertuliacrioula.com/2009/12/casamento-homossexual-porque-nao/</link>
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		<pubDate>Mon, 14 Dec 2009 08:41:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adalgiza Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tem sido muito discutida na sociedade actual a possibilidade de haver ou não casamento homossexual. Em alguns países como Holanda, Canadá, Bélgica, em alguns estados dos Estados Unidos da América e Espanha o casamento homossexual já foi legalizado.
Esta é uma questão legal e social que irá perseguir-nos por algum tempo e quanto mais rapidamente ela [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tem sido muito discutida na sociedade actual a possibilidade de haver ou não casamento homossexual. Em alguns países como Holanda, Canadá, Bélgica, em alguns estados dos Estados Unidos da América e Espanha o casamento homossexual já foi legalizado.</p>
<p>Esta é uma questão legal e social que irá perseguir-nos por algum tempo e quanto mais rapidamente ela tiver resposta melhor. Afinal, Cabo Verde como estado de direito democrático que é, não deverá limitar direitos aos seus cidadãos nem aos seus nacionais.</p>
<p>Legalmente é possível/ é permitido o casamento homossexual?</p>
<p>De acordo com o Código Civil (CC) caboverdiano, não. O casamento encontra-se definido no art.&nbsp;1554º como uma união voluntária entre duas pessoas de sexo oposto que pretendem constituir família mediante uma comunhão plena de vida. E o art.&nbsp;1590º alínea d) reitera essa posição ao estabelecer como juridicamente inexistente o casamento contraído entre duas pessoas do mesmo sexo.</p>
<p>A Constituição da República de Cabo Verde, por sua vez, nada obsta à celebração do casamento homossexual.</p>
<p>Vejamos: art.&nbsp;7º b) estabelece como tarefa do Estado garantir o respeito pelos Direitos do Homem e assegurar o pleno exercício dos direitos e liberdades fundamentais a todos os cidadãos; art.&nbsp;15º/1 determina que o “Estado reconhece como invioláveis os direitos e liberdades consignados na Constituição e garante a sua protecção”; artigo&nbsp;23º consagra o princípio da igualdade no qual encontra-se estabelecido que ninguém pode ser “…prejudicado, privado de qualquer direito …em razão de raça, sexo…condições sociais…ou ideológicas.”; art.&nbsp;40º assegura os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade e o direito à reserva da intimidade da sua vida pessoal e familiar; 46º consagra no seu nº 1 “Todos têm direito de contrair casamento…”; o art.&nbsp;81º/3 determina o direito que todos têm de constituir família e, por fim, art.&nbsp;86º estabelece que a família é o elemento fundamental e a base de toda a sociedade, como tal deve ser protegida pela sociedade e pelo Estado e que todos têm o direito a constituir família.</p>
<p>Além disso, temos os diplomas que pertencem ao ordenamento jurídico internacional e dos quais Cabo Verde faz parte, como é o caso da Declaração Universal dos Direitos do Homem que determina que todas as pessoas são livres e iguais em dignidade e direitos e que toda a pessoa tem capacidade para gozar os direitos e liberdades sem distinção de qualquer espécie (arts. 1º e 2º da DUDH).</p>
<p>Tudo isto para chegar a uma conclusão que há muito várias pessoas já chegaram, a norma constante do 1554º do CC é claramente inconstitucional e as normas inconstitucionais devem ser expurgadas.</p>
<p>Por outras palavras, a Constituição da República de Cabo Verde permite o casamento homossexual, todavia o Código Civil determina o contrário e, por isso, não temos nenhum homossexual em Cabo Verde a casar-se.</p>
<p>A verdade é que nem juridicamente, nem socialmente justifica-se a proibição do casamento homossexual, é simplesmente adiar o inadiável e persistirmos no erro de violar os direitos de alguns dos nossos cidadãos.</p>
<p>Socialmente não se justifica essa proibição, porque o direito é feito pela sociedade, mas ele também faz a sociedade, por isso, não pode ceder aos caprichos e pensamentos retrógrados desta. Qual é o motivo para não se permitir o casamento homossexual?</p>
<p>É anti-natura, anti-social? É porque o CC não o permite? É porque o fundamento do casamento é a procriação?</p>
<p>Já vimos que, com base nos artigos da Constituição acima enumerados, a norma do CC é inconstitucional e a norma já deveria ter sido alterada, tendo em conta que é dever do Estado assegurar os direitos dos cidadãos e há direitos que estão a ser claramente violados, o direito ao casamento e o direito a constituir família.</p>
<p>Para constituir família não é necessário a procriação, o casal em si já constitui uma família, não permitir que os homossexuais se casem não só é discriminação, como é violação do direito que todo o cidadão tem em se casar e de constituir família.</p>
<p>Ao estabelecer no princípio da igualdade que ninguém deverá ser prejudicado ou privado dos seus direitos em razão do sexo, implicitamente também está incluído a orientação sexual. O direito ao casamento e a constituir família está consagrado na Constituição e, segundo o art.&nbsp;15º/1 é inviolável, logo o 1554º do CC perde toda a razão de ser.</p>
<p>O art.&nbsp;1554º do CC fazia sentido há um século atrás onde se acreditava ignorantemente que a homossexualidade fosse uma doença, ou há 60 anos atrás onde se acreditava que a homossexualidade era sinónimo de HIV/SIDA. Num Estado de Direito Democrático e em pleno século XXI não faz qualquer sentido, mais do que isso é uma vergonha e uma mácula num país que pretende ser justo, defender e proteger os direitos humanos e dos seus cidadãos.</p>
<p>Estamos a violar o direito ao desenvolvimento da personalidade e a identidade porque estamos a dizer aos jovens homossexuais que apesar de a nossa Constituição consagrar que eles têm os mesmos direitos que qualquer outro cidadão, decidimos que afinal não pode ser assim, que não vamos cumprir o que a nossa Lei-Mãe determina.</p>
<p>Se eles perguntarem porquê, como não fica bem responder “por puro preconceito e atraso social” respondemos da forma politicamente e hipocritamente correcta “o Código Civil não o permite”.</p>
<p>Se eles perguntarem “mas afinal o artigo&nbsp;não é inconstitucional e se é um único artigo porque é que não se altera?”</p>
<p>Agradecia que respondessem por mim porque não vejo como responder de forma politicamente correcta a esta pergunta sem admitir que somos atrasados e preconceituosos.</p>
<p>Pois não consigo perceber como é que o “TODOS têm direito de contrair casamento” e o “TODOS têm o direito de constituir família” têm passado despercebido até agora. A própria Constituição consagra a família como o elemento fundamental e base de toda a sociedade e nós excluímos alguns dos nossos cidadãos, devido à sua orientação sexual, a fazerem parte da sociedade.</p>
<p>Porque, se não podem constituir o que é considerado a base e elemento fundamental da sociedade é porque estamos a excluí-los da sociedade.</p>
<p>Um argumento muito utilizado para responder o porquê de não se poder permitir o casamento homossexual, é um argumento profundamente religioso e sem querer ofender desprovido de qualquer sentido ou fundamento, que é a procriação.</p>
<p>Constituir família é um dos pilares do casamento, mas o mesmo não se pode dizer de procriar.</p>
<p>Se o casamento visa/ tem como base a procriação devo deduzir que as pessoas que sofrem de infertilidade e impotência também estão proibidas de se casar, afinal o fundamento, o fim do casamento não será alcançado, visto que eles não podem procriar. O mesmo para as pessoas que se casam e já se encontram numa idade avançada se a lei não impõe limite de idade para o casamento, isso não indicará que o casamento não se destina a procriação, tendo em conta que a partir de uma determinada idade a possibilidade de procriar deixa de existir?</p>
<p>Verdade seja dita na sociedade caboverdiana o casamento nunca foi sinónimo, nem condição necessária para a procriação.</p>
<p>A lei tem de acompanhar a evolução sócio-familiar e não pode intrometer-se na vida privada de cada um, ao proibir o casamento homossexual é precisamente isso que estamos a fazer.</p>
<p>Para além do Código Civil não há nada que exija, legalmente, que os cônjuges sejam do mesmo sexo e como já vimos o CC nesse aspecto está a violar a Constituição.</p>
<p>O casamento é mais um instrumento para o desenvolvimento da personalidade, liberdade, reserva da intimidade da vida privada, ao proibi-lo estamos a limitar esses direitos aos nossos cidadãos e a impedi-los de se desenvolverem em pleno.</p>
<p>Então fica a pergunta até quando o nosso legislador privará os nossos cidadãos dos seus direitos? O que é preciso para que o artigo&nbsp;1554º do CC seja alterado e as pessoas possam exercer e gozar em pleno dos seus direitos?</p>
<p align="right">Adalgiza Santos</p>
<p><strong>Nota:</strong> Para saber mais sobre a problemática jurídica do tema aconselho um texto on-line do Prof. Doutor Pamplona Corte Real “Da índole pretensamente heterossexual do instituto jurídico do casamento”, convém ressalvar que a opinião aqui expressa vai de encontro à posição do autor.</p>
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		<title>Crianças “Vítimas” de Violência Doméstica (convivência com o agressor)</title>
		<link>http://tertuliacrioula.com/2009/08/criancas-vitimas-de-violencia-domestica/</link>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 10:07:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Adalgiza Santos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[(...) se não foi suspenso/inibido o poder paternal ou o direito de visita, não só ele continua a ver o agressor e a conviver com ele como também é usado para manipular e ameaçar a vítima. Tudo isto coloca o menor numa posição débil, expondo-o a uma situação que em vez de se resolver se agrava, pois agora ele serve de “pombo-correio” e de “moeda de troca”. (...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><span style="font-size: small;">O que é que acontece  quando um menor vem de uma família na qual um dos pais agride o outro,  quer física quer psicologicamente?</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Como é que ele  se sente quando vê e ouve esse tipo de agressões?</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Quem é que protege  o menor que é vítima indirecta? Apesar de não estarmos a falar das  capacidades parentais de cada um, por muito bom pai ou mãe que o agressor  seja, a verdade é que se não agride o menor directamente fá-lo indirectamente,  expondo-o a essa situação.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Pior do que isso é  que, mesmo que a situação de violência doméstica cesse, devido ao  divórcio dos pais, o menor continua exposto. Isto é, se não foi suspenso/inibido  o poder paternal ou o direito de visita, não só ele continua a ver  o agressor e a conviver com ele como também é usado para manipular  e ameaçar a vítima. Tudo isto coloca o menor numa posição débil,  expondo-o a uma situação que em vez de se resolver se agrava, pois  agora ele serve de “pombo-correio” e de “moeda de troca”.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Até que ponto o  menor é protegido nas situações de violência doméstica quando  ele é vítima indirecta; até que ponto é bom para ele continuar com  o contacto com o agressor?</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Parece haver um desajuste  entre a legislação penal e a legislação civil. </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">O Código Penal (C.P.)  caboverdiano não incide propriamente sobre o crime de violência doméstica  o que temos é um artigo (134º) no qual se regula os maus tratos a  cônjuge. Este art., que abarca tanto os cônjuges como os unidos de  facto, estipula que quem infligir maus tratos físicos, psíquicos ou  tratamentos cruéis ao seu cônjuge será punido com uma pena entre  1 a 4 anos de prisão. Escusado será dizer que inúmeros casos ficam  ainda por regular, incluindo aqueles em que o cônjuge foi condenado  ou o processo ainda está a decorrer mas o agressor continua com o seu  direito de visita, direito esse que advém do facto de ele ser pai ou  mãe. Tendo em conta que a pena máxima aplicada é de 4 anos pode-se  aplicar a medida de coação de proibição de permanência na casa  de morada de família art. 289º número 1 alínea d) ou ainda a de  proibição de permanecer em certa localidade (art. 289º/1 a)). Todavia  a questão que coloco é a seguinte: havendo um caso de violência doméstica,  de acordo com o nosso C.P., crime de maus tratos a cônjuge, e não  tendo esse crime cessado ou porque o processo judicial ainda está a  decorrer ou porque o agressor teve uma pena suspensa, como é que se  protege o menor das constantes agressões que ele assiste e como é  que ele é protegido do jogo de “leva e trás” a que ele é permanentemente  submetido? Não seria o caso de, para evitar essas situações, se nomear  um mediador, seja ele familiar ou não, ou então de suspender provisoriamente  o poder paternal até o agressor se mostrar capaz de distanciar os dois  relacionamentos?</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Um dos deveres dos pais  é zelar pela saúde e normal desenvolvimento dos seus filhos e  velar pela sua correcta formação (art. 1815º alíneas a) e c)  do Código Civil) e de acordo com o 1847º/1 do C.C. este poder pode  ser inibido sempre que os progenitores ponham em “…grave perigo  a defesa ou a promoção do desenvolvimento harmonioso e integral dos  filhos, designadamente, a sua saúde, segurança formação e educação.”  Não estaremos nós perante um caso em que este dever esteja a ser posto  em causa, não será o caso de pensarmos na inibição do poder paternal  como pena acessória ou pelo menos uma medida a ser decretada provisoriamente? </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Sei que isto é  um caso que impõe muitos problemas mas se não começarmos a arranjar  soluções quer sejam elas plenamente eficazes ou não, pois há sempre  o risco de errarmos no início, corremos o risco de criar mais uma geração  com sérios problemas de personalidade e comportamento e com os valores  trocados. Afinal, todos sabemos que as pessoas que viveram, de alguma  forma, um historial de violência têm grande probabilidade de se virem  a tornar violentos.</span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Não se pode legislar,  salvo aqui o devido respeito porque não estou a pôr em causa o legislador  nem as suas capacidades, sobre vítimas focando as directas e esquecendo  as indirectas nem separando os ramos do direito ou então corremos o  risco de haver um desfasamento, como o que está a ocorrer entre as  legislações penal e civil, o que deixa desprotegida não só a vítima  (a pessoa que é agredida) como também o lesado ou vítima indirecta  (o menor que se vê no meio desta situação). </span></p>
<p align="justify"><span style="font-size: small;">Cabe a todos nós pensar  neste assunto e exigir as alterações necessárias.</span></p>
]]></content:encoded>
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