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	<title>Tertúlia Crioula &#187; Josiano Nereu</title>
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	<description>Um espaço de discussão e opinião</description>
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		<title>Cabo Verde Lda.</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Jun 2010 17:43:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Josiano Nereu</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Caros leitores, permitam-me enveredar por um domínio alheio à minha formação académica, mas de forma amadora: o domínio da Economia de Cabo Verde. Permita-me expor um raciocínio que recorrentemente me passa pela mente, mas que nos últimos dias me tem preenchido o pensamento de forma mais pregnante. Passo a explicar. Há poucos dias, ao ver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">Caros leitores, permitam-me enveredar por um domínio alheio à minha formação académica, mas de forma amadora: o domínio da Economia de Cabo Verde. Permita-me expor um raciocínio que recorrentemente me passa pela mente, mas que nos últimos dias me tem preenchido o pensamento de forma mais pregnante. Passo a explicar. Há poucos dias, ao ver um determinado programa (não me lembro ao certo qual era e nem é relevante) no canal televisivo angolano TPA senti uma estranha sensação de regozijo por ver um canal televisivo de um país nosso irmão tão bem ‘arranjado’. Um canal com uma programação bem delineada, com uma imagem com muita qualidade mas principalmente por ser um dos poucos canais (ou o único, não sei) africanos a ter uma transmissão regular em Portugal. Mas o motivo do referido regozijo não foi propriamente o canal televisivo em si mas sim o que ele representa. E para mim o que ele representa é o facto de Angola estar a exportar um produto nacional (entre tantos outros); é o facto de Angola estar a apostar num produto específico e a fazer os possíveis para que esse mesmo produto seja reconhecido como algo típico do povo angolano e que vale a pena partilhá-lo com o mundo.</p>
<p style="text-align: justify">A questão que eu coloco agora para escrutínio nesta revista online é a seguinte: será que Cabo Verde não tem nenhum produto tipicamente cabo-verdiano que mereça ser partilhado com o mundo? Uma resposta rápida vem-nos à mente: o grogue (aguardente típica de Cabo Verde). Sim, o grogue é um desses produtos tipicamente cabo-verdianos que merece ser partilhado com o mundo. Mas além do grogue temos também a nossa culinária vasta, a nossa música, a nossa dança, o turismo, etc. etc. É óbvio que a pergunta feita no início deste parágrafo é uma pergunta retórica. Produtos tipicamente cabo-verdianos que valham a pena partilhar com o mundo há aos pontapés, por assim dizer. É um facto que desde sempre o turismo foi e continuará a ser um produto em que Cabo Verde aposta de forma mais evidente para o crescimento da sua economia. Por motivos óbvios o turismo, ou melhor a <em>morabeza</em> cabo-verdiana, é um produto tipicamente cabo-verdiano no qual vale a pena apostar. Mas será este o único produto cabo-verdiano que é viável explorar? De forma alguma, é o nosso juízo!</p>
<p style="text-align: justify">Para melhor explicitar a questão aqui em debate permitam-me ilustrar com alguns exemplos bem (re)conhecidos. Um primeiro exemplo salta à vista: Cuba. É do conhecimento geral que Cuba vem vivendo há mais de meio século sob um embargo económico imposto pelo seu então maior pólo de exportação, os Estados Unidos da América. No entanto, o referido embargo não obstou que Cuba fosse mundialmente conhecida por produzir o mundialmente reconhecido <em>charuto cubano</em>. Alguns países africanos de língua oficial portuguesa têm produtos típicos de reconhecida qualidade dentro do género. Foi o caso do café e do cacau, produzidos em São Tomé e Príncipe maioritariamente nos séculos XVIII e XIX (época denominada por <em>Ciclo do Cacau</em>). Um outro exemplo, porventura menos expressivo que o de Cuba mas igualmente relevante em comparação com Cabo Verde é o caso de Portugal, onde há uma aposta séria por partes das entidades governamentais em promover internacionalmente produtos típicos como o vinho (o vinho alentejano, o vinho do douro, o licor mais conhecido como vinho do porto), o azeite, o queijo, as castanhas, a cortiça, etc., além da riquíssima culinária portuguesa. O Japão e a China são também exemplos de exportação em massa daquilo que as suas culturas têm de melhor para oferecer ao mundo. Em particular a culinária chinesa e japonesa são já temas universais; os restaurantes chineses e japoneses abundam por todo o mundo. Ainda em termos de culinária, evidencia-se também a culinária tipicamente brasileira: os restaurantes brasileiros também existem um pouco espalhados por todo o mundo. A igualmente famosa <em>caipirinha</em> é uma bebida típica do Brasil que não pode faltar em nenhuma discoteca (e não só), sob pena de o gerente da dita discoteca ter que repensar seriamente se tem competência para desempenhar tal função. Com a <em>vodka</em>, uma bebida destilada típica da Rússia, o cenário é igual. Ainda na Rússia, temos a famosa <em>salada russa</em>, também conhecida por <em>salada de Olivier</em>, um prato tão universal que já é inserida nas gastronomias de muitos países europeus como um prato típico, como é o caso em Espanha onde é conhecida como <em>ensaladilla</em>.</p>
<p style="text-align: justify">Em relação a Cabo Verde a grande questão que eu quero colocar é a seguinte: não existe em Cabo Verde uma miríade de produtos típicos que são passíveis de serem produzidos com vista a uma estratégia de exportação agressiva (sem ser sinónimo de má qualidade)? Melhor, não existe em Cabo Verde uma miríade de produtos típicos que são passíveis de serem aproveitados de forma sustentável, <em>para além do turismo</em>? Será que em Cabo Verde o turismo é a nossa ‘única saída’, por assim dizer? Note-se que todos os países que tomámos como exemplo acima são também destinos turísticos, e certamente têm um número maior de visitantes por ano do que Cabo Verde. Basicamente, a minha questão é: não seria proveitoso se as entidades competentes delineassem uma estratégia económica com o intuito de tornar (os produtos de) Cabo Verde numa ‘marca’ de qualidade no mundo globalizado? Sem dúvida, dizemos nós! No entanto, não se vêm tentativas de fundo levadas a cabo nesse sentido.</p>
<p style="text-align: justify">Mas não nos fiquemos apenas pelos produtos típicos de Cabo Verde. O mesmo acontece quanto ao mercado das novas tecnologias. Em Cabo Verde pouco se faz para atrair investimento em tecnologia de ponta, exceptuando o caso do NOSI (Núcleo Operacional da Sociedade de Informação). O modelo único de Cabo Verde no domínio da governação electrónica está a servir de inspiração para diversos países e organizações mundiais e, a este propósito, o coordenador informático do NOSI, Hélio Varela, informou que os 23 países que participaram na Conferência Regional Caribenha irão a Cabo Verde para copiar (e comprar) o modelo do arquipélago no domínio da gestão financeira (informação retirada da página web www.nosi.cv). Mas o caso do NOSI não deve ser considerado como um caso de sucesso com o qual apenas nos regozijamos. O sucesso do NOSI deve antes funcionar como um exemplo a ser seguido e como um ponto de partida, ao qual muitas outras conquistas se juntarão, e não como ponto de chegada.</p>
<p style="text-align: justify">Vejamos mais uma vez o exemplo de Cuba. Ao nível da saúde, Cuba também é conhecida por ser um país onde as mais avançadas técnicas médicas são testadas, em particular no que se refere à indústria farmacêutica e à biotecnologia. A indústria farmacêutica em cuba trabalha com produtos como vacinas várias, kits de diagnóstico de Dengue e de Estreptococos do Grupo B. A biotecnologia cubana dispõe actualmente de mais de 30 produtos registados e comercializados em mais de 45 países. Mas isso não impede que o país aposte fortemente noutros projectos de vacinas terapêuticas, algumas em fase avançada de testes como as da Hepatite-C e do Cancro da Próstata. A indústria cubana é ainda exportadora de produtos como cimento, fertilizantes, rum, tecidos, tijolos e telhas; produtos que não são considerados como típicos da cultura cubana. Um outro exemplo de aposta em produtos que não são considerados ‘típicos’ é ocaso de Angola. Ultimamente Angola tem vindo a apostar na produção e exportação de cerveja. A marca de cerveja <em>Cuca</em> é um caso de sucesso, fabricada pela Companhia União de Cervejas de Angola , assim como a marca <em>Eka</em>. O já referido canal televisivo TPA (entre outros) é também uma aposta nas tecnologias de informação e entretenimento que Angola tem levado a cabo. No âmbito das novas tecnologias, Portugal tem levado a cabo investimentos consideráveis no campo das energias renováveis (energia eólica e solar) e com base nisso tem recebido elogios rasgados por parte da comunidade internacional, sendo reconhecido como um dos líderes europeus no desenvolvimento desse campo. O Brasil é também mundialmente reconhecido como um dos países onde a indústria cosmética e a medicina estética são áreas muito desenvolvidas (e lucrativas). Muitos outros exemplos nesta matéria que podem servir de inspiração para Cabo Verde poderiam ser apresentados mas fiquemo-nos por estes que já são bastante elucidativos.</p>
<p style="text-align: justify">Apesar do esforço feito por parte das entidades governamentais e particulares para fomentar o crescimento da economia cabo-verdiana, com resultados bastante positivos, ainda há muito a fazer. E talvez parte do que está por fazer nesse sentido passe por adoptar políticas económicas que visem estimular a ‘exportação’ de Cabo Verde para o estrangeiro, sem ser através do turismo apenas. É um facto digno de nota que no estrangeiro produtos cabo-verdianos de elogiada qualidade e com potencial económico real sejam (re)conhecidos apenas no meio das comunidades cabo-verdianas e por estrangeiros que tenham a sorte de terem amigos ou conhecidos dentro dessas mesmas comunidades. Porventura poder-se-á dizer: mas Cabo Verde não tem meios de produção em massa desses mesmos produtos! Sim, existem muitos factores (económicos, geográficos, naturais, etc.) que dificultam essa tarefa. Mas para que essas mesmas condições desfavoráveis sejam ultrapassadas é preciso, antes de tudo, que haja vontade e visão política, é preciso que se adopte um compromisso com Cabo Verde, um compromisso cuja principal finalidade seja a promoção de Cabo Verde como um destino (não apenas turístico mas) onde investir seja sinónimo de alto índice de lucro provável. Cabo Verde tem de ser visto como um país (não apenas de <em>morabeza </em>mas) onde os bons negócios acontecem. E esta nova forma de ver Cabo Verde tem também de ser ‘exportada’, isto é, são os cabo-verdianos que têm de começar a ver Cabo Verde desta forma para essa mesma imagem seja passada para o exterior e possa atraír investidores nas mais diversas áreas de produção económica.</p>
<p style="text-align: right">Josiano Nereu</p>
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		<title>Elogio à Língua Portuguesa, Mais Uma Perspectiva Sobre a Oficialização do Crioulo</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Apr 2010 14:23:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Josiano Nereu</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[A oficialização da língua cabo-verdiana ou crioulo tem sido motivo de acesos debates onde os defensores da oficialização e os não defensores da oficialização têm dirimido argumentos dignos de serem comparados às lutas de gladiadores na antiga Roma. Uns e outros, de forma feroz e incansável, defendem os seus pontos de vista com seriedade e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">A oficialização da língua cabo-verdiana ou crioulo tem sido motivo de acesos debates onde os defensores da oficialização e os não defensores da oficialização têm dirimido argumentos dignos de serem comparados às lutas de gladiadores na antiga Roma. Uns e outros, de forma feroz e incansável, defendem os seus pontos de vista com seriedade e tendo por base ora argumentos científico-pragmáticos de variegada ordem (e.g., linguísticos, económicos, sociológicos, etc.), ora argumentos baseados na história, cultura e costumes do povo cabo-verdiano. Todavia, e mais frequentemente do que seria desejável, este mesmo debate é levado a cabo por agentes que não primam pela seriedade e honestidade intelectuais, tentando com isso esconder a falta de conhecimento sobre a matéria.</p>
<p style="text-align: justify">Não obstante estas características duais, este debate aceso e muitíssimo interessante é necessário. Esta necessidade nasce do facto de, em geral, os cabo-verdianos terem a consciência de que o crioulo é parte integrante e fundante da sua identidade, como povo e como indivíduo que cada um de si é. A consciência deste facto faz com que o debate acerca da oficialização do crioulo assuma os contornos supra enunciados, pois neste momento os cabo-verdianos e, em particular, os jovens cabo-verdianos assumem a responsabilidade de ter uma opinião concreta sobre tão efervescente assunto.</p>
<p style="text-align: justify">Deste modo tomo a liberdade de, neste texto, expressar a minha perspectiva sobre este assunto; não porventura uma perspectiva completa ou com intenções de provar que a oficialização do crioulo seja algo ‘bom’ ou ‘mau’ mas sim uma perspectiva que apenas tem por objectivo chamar a atenção para um facto que pode ser caracterizado de ‘bom’ ou ‘mau’, conforme o ponto de vista, e que na minha perspectiva pode ser caracterizado como ‘mau’.</p>
<p style="text-align: justify">De entre todos os debates sobre esta matéria aos quais tenho presenciado, um facto digno de nota salta à vista: por um lado, e de forma justíssima, o crioulo é exaltado como um factor de identidade cultural do povo cabo-verdiano enquanto, por outro lado, uma outra entidade igualmente importante na construção da identidade cultural dos cabo-verdianos é remetido para o esquecimento, embora a sua presença na cultura e no dia-a-dia dos cabo-verdianos seja tão pregnante como a própria presença do crioulo. A entidade à qual me refiro é a língua portuguesa. A língua que, assim como o crioulo, marca presença nas nossas vidas e de forma não pouco significativa.</p>
<p style="text-align: justify">Em todos os debates acerca da oficialização do crioulo existe algo comum entre os ‘a favor’ e os ‘contra’: a sub valorização da língua portuguesa; esta sub-valorização, parece-me, é tacitamente assumida pelos defensores da oficialização do crioulo e por parte dos não defensores do crioulo passa-se o mesmo, na medida em que a língua portuguesa é implicitamente considerada de somenos importância. Com base nisto assumirei aqui uma posição que visa a valorização do português como parte igualmente integrante da identidade cultural do povo cabo-verdiano.</p>
<p style="text-align: justify">Em primeiro lugar, devo aqui ressaltar que a ‘valorização’ do português aqui assumida não o é por contraposição a uma desvalorização do crioulo. Apenas defendo que ambas as línguas são fulcrais na formação da cultura cabo-verdiana, e nenhuma mais do que a outra. Em segundo lugar, devo ressaltar igualmente que não é minha intenção com este artigo apresentar uma parafernalha de argumentos contra ou a favor da oficialização do crioulo. Obviamente tenho a minha própria posição sobre o assunto e desde já avanço que sou a favor da oficialização do crioulo. No entanto, a minha posição sobre a matéria não é tópico deste texto – ao contrário do que pode parecer pelo título escolhido para este mesmo artigo.</p>
<p style="text-align: justify">Há quem diga, e com razão, que o crioulo é a nossa língua materna; há quem diga até que o crioulo é “a língua da mãe” dos cabo-verdianos. Mas agora digo que se o crioulo é a nossa língua materna, então o português é a nossa língua ‘paterna’ (“a língua do pai”?). Pois o português, como o crioulo, está presente nas nossas vidas desde muito cedo, desde a nossa tenra infância. Quem poderá dizer que aprendeu a ler, a escrever e a contar em crioulo? Ninguém, penso eu. Todos os cabo-verdianos aprenderam a ler, a escrever e a contar em português. Porventura muitos cabo-verdianos não o dizem com agrado, mas é a verdade. As primeiras frases que aprendemos a ler em voz alta na escola eram frases do português e não do crioulo. Os primeiros versos que aprendemos a recitar (com aquele tão característico gesto de fazer um círculo com os braços enquanto recitávamos) eram em português. As primeiras ortografias que aprendemos a escrever eram em português, bem como as caligrafias. No ciclo preparatório, quando nos foi introduzida a língua francesa, era por comparação com o português que aprendíamos esta tão romântica língua. Já no liceu, quando começámos a dar os nossos primeiros passos no inglês, foi igualmente por comparação com o português que aprendemos a mais universal de todas as línguas contemporâneas. Já no ensino universitário o mesmo se passa. Foi em português que começámos a construir os textos académicos onde, de forma tentativa, defendíamos e continuamos a defender os nossos pontos de vista sobre este ou aquele tópico. O português é a língua na qual a nossa formação académica foi e continua a ser construída. E isso é um facto.</p>
<p style="text-align: justify">Mas não foi apenas na escola que o português teve papel preponderante na nossa formação. Até nos momentos de lazer o português esteve presente. Quem não se recorda de ver os clássicos dos filmes animados? Quem não se lembra de ver os magníficos episódios de <em>As Aventuras de Tom Sawyer </em>ou de <em>Alice no País das Maravilhas</em>, apenas para dar alguns exemplos. Quem não se lembra do interessantíssimo <em>Transtel</em>, cujos episódios sobre ciência, por exemplo, eram completamente fascinantes? Estes são apenas alguns dos programas da Televisão de Cabo Verde da altura e todos eles eram ou legendados ou dobrados em português. Qual foi a língua na qual lemos os nossos primeiros romances, contos e poemas? Não certamente o crioulo mas o português. Até as nossas primeiras cartas de amor foram escritas em português, não em crioulo.</p>
<p style="text-align: justify">No seguimento do que foi aqui dito é justo dizer que, assim como o crioulo, o português é factor determinante na nossa formação pessoal, académica e cultural. Assim como o crioulo, o português tem-nos acompanhado durante toda a nossa vida e por vezes de forma mais relevante do que o crioulo. Não estou com isto a tentar dizer que o português é, de alguma maneira, mais ‘importante’ do que o crioulo apenas quero fazer notar que, a par com o crioulo, o português também é a <em>nossa língua</em>, faz parte da nossa identidade cultural e, como tal, não pode ser reduzido somente ao estatuto de ‘língua oficial de Cabo Verde’. O português é mais do que apenas a nossa língua oficial, é uma das duas principais línguas faladas e escritas pelo povo cabo-verdiano.</p>
<p style="text-align: justify">Até agora, tudo o que foi dito serve de mote a uma questão que me tem surgido frequentemente: após a oficialização do crioulo será que não nos vamos deparar com uma paulatina ‘desoficialização’ do português? Será que com o fenómeno da oficialização do crioulo e com o passar dos anos a língua portuguesa não acabará por cair no esquecimento, sendo o seu domínio apenas reservado a alguns círculos eruditos restritos? Note-se que nos restantes países africanos de expressão portuguesa esta hipótese não seria plausível, pois nestes países o português é efectivamente a língua de unidade nacional; os vários dialectos distintos entre si falados na maioria destes países ditam que assim seja. Em Cabo Verde, porém, o português não desempenha essencialmente este papel: qualquer cabo-verdiano compreende bem as nove variantes do crioulo. Uma vez que falar o português em Cabo Verde não facilita necessariamente a comunicação entre os cabo-verdianos, sendo que todos nos entendemos perfeitamente em crioulo, será que o português vai sobreviver como língua dominada pelo grosso da população por muito tempo após a oficialização do crioulo?</p>
<p style="text-align: justify">A minha perspectiva sobre este ponto é um pouco pessimista. Para elucidar as causas deste pessimismo apresentarei duas justificações comummente dadas, mas a meu ver falaciosas, a favor da oficialização do crioulo, ou melhor, a favor da ‘desoficialização’ do português. A primeira é a de que o português <em>não é </em>a nossa língua materna, de que o português é uma língua estrangeira e estranha aos nossos costumes. Esta ideia, embora errada como tive a oportunidade de argumentar acima, está muito presente na mente de alguns cabo-verdianos, se não da sua maioria. A segunda justificação para a ‘desoficialização’ do português é a de que os cabo-verdianos não conseguem expressar-se tão bem em português como se expressariam se o fizessem em crioulo.</p>
<p style="text-align: justify">É um facto que o português é uma língua de difícil aprendizagem, como todos nós tivemos oportunidade de constatar, mas este facto não justifica o ‘anti-portuguesismo’ – se me permitem o neologismo – presente nos (pseudo) argumentos apresentados. Em resposta à sobre-valorizada dificuldade que os cabo-verdianos apresentam ao aprender o português, tenho a dizer que nada nos garante que a aprendizagem do crioulo não venha a ser igualmente uma tarefa árdua para os nossos futuros alunos, pois estamos a falar do domínio de regras de construção de frases e interpretação das mesmas num contexto académico e não do uso quotidiano que fazemos do crioulo.</p>
<p style="text-align: justify">Por outro lado, o português não é de difícil aprendizagem apenas para cabo-verdianos, mesmo no caso de portugueses e brasileiros a aprendizagem do português não é menos difícil: que o digam as médias das provas nacionais de língua portuguesa realizadas em Portugal nos últimos anos lectivos. O que me leva a crer que talvez a dificuldade dos cabo-verdianos em aprender o português (assumindo que seja assim tanta) pode estar nos moldes em que esta disciplina é ensinada e pelas pessoas possivelmente despreparadas que a leccionam. Relativamente ao facto de os cabo-verdianos não se expressarem tão bem em português como o fazem em crioulo, assumo que em termos de fala os cabo-verdianos, por vezes, não têm tanta facilidade na comunicação. O sotaque, por vezes ‘carregado’, com que falamos português pode ser a causa desta falta de destreza na fala do português. Mas em termos de escrita, a situação é diferente: os cabo-verdianos desde sempre foram elogiados pelos belíssimos trabalhos académicos apresentados, pelo menos aqui em Portugal têm sido assim. Os cabo-verdianos não têm mais dificuldades em exprimir os seus pontos de vista, em defender as suas teses, em relacionar conceitos, etc. do que qualquer outro falante da língua portuguesa.</p>
<p style="text-align: justify">Muitos outros bons argumentos contra e afavor da oficialização do crioulo são lançados em debates sobre esta matéria, não os abordaremos aqui porque com este artigo não é tematizado se a oficialização do crioulo é justificavel ou não; como disse anteriormente, e apesar dos bons argumentos contra, a oficializaçãodo crioulo será uma realiade muito em breve e ainda bem que assim o é. O nosso propósito com ese texto foi apenas o de chamar a atenção para um aspecto do pós-oficialização, quanto a mim preocupante: qual o futuro da língua portuguesa após a oficialização do crioulo? Será progressivamente posta de parte pela população? O seu uso tornar-se-á um privilégio de certos círculos? Será mantida em que moldes, se o for? Estas são as minhas questões por agora.</p>
<p style="text-align: justify">A título de conclusão, quero mais uma vez afirmar que a oficialização do crioulo é uma questão de justiça histórica, cultural e um imperativo imposto pela identidade cada vez mais sentida do povo cabo-verdiano. E por esse motivo penso que sequer é uma questão que deva ser debatida; o que deve ser debatido são os moldes dessa oficialização. Até porque Cabo Verde não tem nada a perder com a oficialização do crioulo, é bem o contrário. Mas por outro lado, devemos fazer tudo para que a língua portuguesa, que é nossa também, não seja paulatinamente desvalorizada em detrimento do crioulo. O futuro deve-se pautar pelo caminhar lado a lado das duas línguas. Pois se é absurdo que uma nação tenha uma língua falada e escrita no dia-a-dia, como é o caso do crioulo, sem que se reconheça essa língua como oficial, é ainda mais absurdo uma nação permitir que uma língua oficial caia no esquecimento por parte da população por mera falta de uso.</p>
<p style="text-align: right">Josiano Nereu</p>
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		<title>Jornada Cibernética a&#8230; Lado Algum!</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 10:07:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Josiano Nereu</dc:creator>
				<category><![CDATA[Colunistas]]></category>

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		<description><![CDATA[(...) quais as competências (técnicas?) de um licenciado em filosofia?, quais são as saídas profissionais, pressupondo que as há, de uma licenciatura em filosofia? (...) quais são as saídas profissionais em Cabo Verde de uma licenciatura em filosofia? (...) quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie em Cabo Verde? (...) impõe-se ainda a seguinte questão, que é aquela que de facto nos interessa: quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie na UniCV? (...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify">Caros leitores, chamo-me Josiano Nereu, sou cabo-verdiano, da ilha do Sal, e frequento actualmente o curso de mestrado em Filosofia na Universidade de Lisboa (UL). Neste exacto momento encontro-me a navegar no <em>site</em> oficial da Universidade de Cabo Verde (UniCV). Como é natural, a primeira coisa que procuro quando já estou na página inicial da UniCV é o plano curricular da graduação e da pós-graduação em Filosofia, embora neste segundo caso não tivesse esperanças de encontrar algo já estruturado, como se veio a confirmar. Clico no <em>link</em> que diz «Graduação» e aparecem quatro categorias ou áreas em que se repartem os cursos leccionados na UniCV. A licenciatura em Filosofia encontra-se na terceira destas categorias, na categoria das «Ciências Sociais, Humanas e Artes». Clico no <em>link</em> que diz «Filosofia» e&#8230;?! Não aparece nada!</p>
<p style="text-align: justify">Fico na dúvida se é um erro informático, se é a página que não está actualizada (visto que a última actualização data de 26 de Janeiro), ou se de facto o <em>link</em> leva-nos “a lado algum”. Como se não bastasse que as pessoas, os menos informados claro está, pensassem isso e outras coisas ainda menos dignificantes da própria filosofia, temos agora algo muito mais desinquietante: um caso concreto em que isso acontece, por assim dizer. Mas (in)felizmente não é apenas um problema da licenciatura em filosofia, no <em>site </em>da UniCV, todas as licenciaturas desta categoria levam “a lado algum”; carregando nos <em>links</em> das outras licenciaturas dentro desta categoria verifico que nada aparece, nem o plano curricular, nem a lista das saídas profissionais, em suma não aparece nada. Mas não são só as licenciaturas da categoria de «Ciências Sociais, Humanas e Artes» que têm este destino, em todas as categorias há algumas licenciaturas, mas não todas (já seria demais!), na mesma situação.</p>
<p style="text-align: justify">O que é que se pode dizer acerca desta jornada cibernética “a lado algum” dentro do <em>site</em> da UniCV? Pondo de parte a hipótese de em princípio não haver, de entre o corpo docente da UniCV, alguém capaz de dar conta do recado, a única explicação que se me avizinha plausível é o facto de ninguém estar disposto a empreender tão “árdua” tarefa como a de especificar o <em>perfil de competências</em> em geral de um licenciado em filosofia ou enumerar as <em>saídas profissionais</em> de uma licenciatura em filosofia. Note, caro leitor, que já nem incluo nesta tarefa fazer a (absolutamente necessária) estrutura do plano curricular, pois isso por si só já seria motivo suficiente para um esgotamento.</p>
<p style="text-align: justify">Neste momento das nossas bem mais simples observações duas questões vêm ao de cima: quais as competências (técnicas?) de um licenciado em filosofia?, quais são as saídas profissionais, pressupondo que as há, de uma licenciatura em filosofia? Relativamente à segunda questão, uma reformulação pertinente salta imediatamente à vista: quais são as saídas profissionais <em>em</em> Cabo Verde de uma licenciatura em filosofia? Com um pouco mais de raciocínio notamos que uma reformulação análoga pode ser também feita relativamente à primeira questão: quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie <em>em</em> Cabo Verde? Esticando a corda um pouco mais, isto é, levando a questão para o âmbito <em>institucional</em>, impõe-se ainda a seguinte questão, que é aquela que de facto nos interessa: quais são as competências de um licenciado em filosofia que se licencie <em>na</em> UniCV?</p>
<p style="text-align: justify">Relembrando-me agora das minhas crises &#8216;existenciais&#8217; durante estes seis anos de estudo contínuo na UL (quatro anos de licenciatura e dois de mestrado), confesso que <em>todas</em> estas questões, de uma forma ou de outra, já me assolaram o espírito. Mas desde há algum tempo para cá esta última tem-me deixado mais inquieto. Passo a explicar.</p>
<p style="text-align: justify">Antes de mais, que fique bem claro (nem podia ser de outro modo) que o valor e a utilidade, para a sociedade em geral, para o mundo académico e para cada indivíduo que se lhe dedique, da filosofia nunca foram uma questão de disputa para mim, apesar de inúmeras opiniões em contrário das quais já fui testemunha. As minhas preocupações são bem outras. Mas não podendo, neste momento, falar apropriadamente de todas, vamo-nos restringir à última questão, que é aquela que mais frequentemente e de forma mais preocupante me tem tirado o sono (apenas no sentido figurado, é claro). Pessoalmente, a questão das saídas profissionais de uma licenciatura em filosofia, e em particular das saídas profissionais de uma tal licenciatura <em>em</em> Cabo Verde, não é em si a que mais me incomoda. A questão que mais me incomoda é a seguinte: será que quando eu voltar para Cabo Verde (como é natural) poderei vir a <em>fazer filosofia</em> como se faz em países mais desenvolvidos? Dito de outra forma, quais as condições (bibliográficas, editoriais, de competêtencia académica, de ambiente académico, de divulgação, de debate, etc., etc.) que a UniCV terá possibilidades de pôr à disposição dos seu alunos e professores de filosofia?</p>
<p style="text-align: justify">Não é minha intenção, ao levantar esta(s) questão(ões), querer dizer que tais condições não existem ou que não virão a existir. A minha intenção é apenas levantar uma outra questão <em>fundamental</em>, que deve ser considerada por qualquer instituição que se propõe leccionar um curso de filosofia: quais são, ou virão a ser, as medidas que a UniCV deverá tomar para que as condições acima enunciadas sejam satisfeitas? Ou melhor ainda: tem a UniCV um plano estratégico, mesmo que apenas em linhas gerais, cuja finalidade seja a gradual concretização destas várias necessidades ligadas ao ensino, à divulgação e ao incentivo ao estudo da filosofia? Quanto a mim, não sei se existe um tal plano, mas que a sua existência seja imprescindível, a nosso ver, imprescindível porque a filosofia, ao contrário do que se possa pensar, não é uma actividade de tipo <em>solipsista</em>, isto é, não é uma actividade na qual o filósofo se encontra longe de tudo e de todos, isolado numa qualquer “caverna”; a (boa) filosofia é essencialmente uma actividade social (e é-o desde a antiguidade clássica), na qual o diálogo, a discussão, a disputa e a partilha de ideias (i.e., a divulgação) são imprescindíveis.</p>
<p style="text-align: justify">A título de conclusão permitam-me, caros leitores, uma auto-crítica. Não serão estes comentários <em>injustos</em>? Ou seja, não será exigir demais à UniCV que ela dê conta de todas estas necessidades? É justo exigir a uma instituição de ensino tão incipiente como a UniCV que possua já um tal plano estratégico, mesmo que em traços gerais? Se é justo ou não, fica a cargo do leitor analisar. Mas que seja uma exigência pertinente e merecedora de atenção é sem dúvida alguma indubitável. Assim como o é o facto de, se a examinarmos com a devida atenção, termos mais hipótese de ir ter a algum lado, e não de desembocar “a lado algum”.</p>
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