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	<title>Tertúlia Crioula &#187; Nivaldo Vicente</title>
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	<description>Um espaço de discussão e opinião</description>
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		<title>O Modelo de Turismo Low Cost: A Revolução dos Tempos Modernos</title>
		<link>http://tertuliacrioula.com/2009/11/o-modelo-de-turismo-low-cost/</link>
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		<pubDate>Thu, 26 Nov 2009 10:31:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Nivaldo Vicente</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autores convidados]]></category>

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Viajar de avião foi,  durante muitos anos, um serviço de luxo apenas acessível à camada  social mais abastada. Algumas décadas volvidas, o fenómeno turístico  massificou-se e as viagens aéreas entraram para a fronteira de possibilidades  de consumo do público em geral. Para isso, muito contribuíram as denominadas low cost Carriers ou [...]]]></description>
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<p>Viajar de avião foi,  durante muitos anos, um serviço de luxo apenas acessível à camada  social mais abastada. Algumas décadas volvidas, o fenómeno turístico  massificou-se e as viagens aéreas entraram para a fronteira de possibilidades  de consumo do público em geral. Para isso, muito contribuíram as denominadas <em>low cost Carriers</em> ou Companhias de Baixo Custo.</p>
<p>Estas companhias vieram  ampliar de forma significativa o universo da aviação civil e ganhar  quota de mercado às companhias tradicionais.</p>
<p>Actualmente conservam  uma grande fatia das viagens médio curso, detendo mais de 20% do mercado  das rotas dentro da Europa e dos Estados Unidos (segundo a OAG &#8211; <em>Official Airline Guide</em>). Representam um modelo de negócio muito  diferente do que caracteriza as transportadoras que até agora  dominavam a aviação civil, e que se rege, na sua génese, pela diferenciação  baseada no preço.</p>
<p>Conseguem comercializar  viagens de avião a 5 euros (pouco mais que uma das nossas notas de  500 escudos), o mesmo valor que pagamos pela deslocação de táxi desde  o aeroporto até o centro da capital ou menos do dobro do custo do percurso  Praia-Assomada nos ‘apertados’ <em>hiaces</em>.</p>
<h2>A  ‘Fórmula Mágica’</h2>
<p><strong>Como conseguem estas  companhias ser lucrativas praticando preços tão baixos?</strong></p>
<p>A resposta não  é tão complexa quanto possa parecer. Na verdade, são empresas com uma estrutura de custos muito  baixa, que conseguem transportar vários milhares de pessoas (nalguns  casos milhões) para aeroportos de pequena dimensão e que requerem  menos serviços de assistência afectos às operações de embarque  (em relação às bagagens, por exemplo) do que as companhias regulares.</p>
<p>Esta nova filosofia de  gestão está assente em 2 vectores-chave:</p>
<ol>
<li>
<h3>Minimização de  custos e… da qualidade:</h3>
<ul>
<li>Escolha dos  aeroportos: voam para aeroportos secundários e mais económicos na  alocação dos <em>slots</em> e menos congestionados. Aterram em horários  menos procurados (logo pela manhã ou ao final do dia) o que possibilita <em> turn-arounds</em> mais curtos. Em média, o <em>turn-around</em> de uma <em> low cost</em> dura cerca de 25 minutos – durante os quais o avião  aterra, desembarca passageiros e bagagem, verifica/limpa/atesta a aeronave,  embarca novos passageiros e bagagem e parte &#8211; contra os 50 minutos de  uma companhia tradicional;</li>
<li>Eliminação dos serviços  de bordo gratuitos, como refeições e snacks e aplicação de taxas  aos serviços considerados suplementares como o transporte da 1ª  bagagem, a escolha de lugares a bordo ou a prioridade no embarque;</li>
<li>Estrutura de recursos  humanos compacta: apenas pertencem aos quadros destas empresas os pilotos,  oficiais e assistentes de bordo, subcontratando os restantes funcionários.  Para além de disporem de uma equipa de profissionais bastante reduzida,  esta é também multi-funcional sendo exemplo disso mesmo o facto de,  por exemplo, o pessoal de bordo também fazer a limpeza dos aviões  ou atender nos balcões de <em>check-in</em>;</li>
<li>Gestão da frota: Adquirem  aviões novos e de pequena dimensão, conseguindo elevadas taxas de  ocupação nos seus voos com menores consumos de combustível. A frota  é geralmente adaptada (muitas vezes <em>narrow body</em> de capacidade  baixa ou média) conseguindo rentabilizar o espaço físico do avião  em cerca de 15% (uma vez que existe uma única classe a bordo), sendo  todos os seus aviões do mesmo modelo reduzindo custos com o armazenamento  de peças e com a manutenção.</li>
</ul>
</li>
<li>
<h3>Simplificação  de processos:</h3>
<ul>
<li>Modo de distribuição:  não permitem reservas mas apenas a compra efectiva do bilhete, o que  reduz o custo associado à gestão das reservas. A venda é feita maioritariamente  na internet, directamente ao consumidor final, eliminando  os custos de intermediação com pessoal e com papel;</li>
<li>Responsabilização  do cliente: uma vez que estas transportadoras apenas comercializam voos  directos descartam-se das ‘dores de cabeça’ causadas pelas perdas  de voos de conexão e qualquer alteração às condições iniciais  do bilhete comprado (alteração de nome ou data de voo por ex.) que custa,  muitas vezes, mais do que o valor do bilhete;</li>
<li>Sistema básico de  tarifas: não existindo as tradicionais classes (económica e executiva  por exemplo) as compras com bastante antecedência significam preços  mais económicos que vão aumentando à medida que se aproxima a data  da viagem, reagindo de forma natural à elasticidade da procura;</li>
<li>Possibilidade, em alguns  casos obrigatoriedade, de realização do <em>check-in</em> online. A Ryanair, por exemplo, deixará de ter balcões nos aeroportos pelo  que ‘obriga’ os passageiros a efectuarem o <em>check-in</em> on-line, contra o pagamento  de cerca de 40EUR para a impressão dos <em>boarding passes</em> no aeroporto;</li>
<p>Aliada a esta perspicaz  estratégia de redução acentuada de custos, as transportadoras de  baixo custo ainda conseguem gerar receitas através da venda de publicidade  no interior dos aviões (nas revistas de bordo por ex.) e nos sites  &#8211; sítios (para empresas de rent-a-car ou seguradoras  por ex.) que irão contribuir também para a tarefa de redução de  tarifas. Uma vez que transportam dezenas de milhões de pessoas, estas companhias tornam-se muito atractivas para empresas que pretendam  publicitar os seus produtos.</ul>
</li>
</ol>
<h3>E como fica a segurança  no meio disto tudo?</h3>
<p>Ao contrário do que  vem sendo proclamado, este esforço de contenção de custos em nada  afecta a segurança das viagens. Na União Europeia, por exemplo, os  regulamentos impostos aplicam-se por igual a todas as companhias, indistintamente,  e a manutenção das aeronaves segue os procedimentos regulamentares  do <em>ICAO (International Civil Aviation Organization).</em></p>
<p>Estas transportadoras  acabam por ser bastante mais perspicazes que as companhias regulares  uma vez que se comprometem a fornecer apenas aquilo por que as pessoas  estão dispostas a pagar.</p>
<p>E no final a fórmula  resulta, pois o passageiro só paga pelo que serviço que usufrui.</p>
<h2>Companhias Lowcost</h2>
<p><strong>Acerca da possível entrada das low cost no mercado cabo-verdiano</strong></p>
<p>Foi noticiado durante  o mês de Setembro que a companhia irlandesa RyanAir estaria a estudar a possibilidade  de incluir Cabo Verde na lista de destinos abrangidos pelos seus voos  de ‘muito’ baixo custo! Mas, para além da possibilidade de viajarmos entre  Portugal e Cabo Verde por preços significativamente mais baixos, qual  o real impacto da entrada de uma <em>low cost</em> no mercado Cabo-verdiano?  As respostas vão muito além das viagens a baixo custo!</p>
<h2>O Impacto na Aviação Civil e no Turismo</h2>
<p>As companhias de baixo  custo transformaram-se em pouco tempo num caso de sucesso e têm  obrigado as companhias regulares a reverem as suas políticas comerciais.  Sendo o preço a arma mais importante das low cost, a entrada da Ryanair  iria pressionar a aliança TAP/ TACV a assumir uma nova postura reduzindo  grandemente as tarifas com o risco de perder quotas de mercado significativas.  As promoções iriam tornar-se assim uma prática comum.</p>
<p>Recorro àquilo que se está a  verificar na rota Lisboa/Funchal, um exemplo claro de como as companhias  regulares têm enormes dificuldades em competir com os modelos de gestão  das companhias de baixo custo. Neste caso, a LCC Easy Jet atingiu em  poucos meses quotas de mercado significativas com taxas de ocupação  sempre superiores a 90% num mercado antes dominado pela aliança portuguesa  TAP/SATA, registando uma transferência de cerca de 26% do mercado para  esta nova concorrente. Esta nova alternativa levou a uma redução abrupta  do preço dos bilhetes, onde antes da liberalização, a rota Lisboa/Funchal/Lisboa  custava em média cerca de 430EUR para não residentes a EasyJet chegou  a vender o mesmo percurso por valores, em média, pouco acima dos 50EUR</p>
<p>Um dado que espelha a  diferença produtiva entre as companhias regulares e as <em>low cost</em> é a média de passageiros transportados por colaborador. A TACV transportava,  há cinco anos, cerca de 500 mil passageiros com uma equipa de 800 trabalhadores,  ou seja registava uma média de 625 passageiros por colaborador contra  a abismal média da Ryanair, que ultrapassa os 10 mil passageiros transportados  por colaborador.</p>
<p>Tempos de desespero requerem  medidas desesperadas, e num cenário hipotético de liberalização  de mercado a TACV iria sentir-se obrigada a empreender iniciativas arriscadas.  A estratégia de diferenciação pelo preço teria de ser adoptada num  ambiente de concorrência tão selvagem onde a redução dos custos  poderia determinar a sua sobrevivência. Para não perder a maior fatia  da quota de mercado a redução das tarifas seria rapidamente uma realidade  mas com a impossibilidade de competir com os preços lowcost a companhia  de bandeira cabo-verdiana poderia ter de optar pela introdução de  tarifas exclusivas para residentes e emigrantes esperando que este grande  segmento continuasse a optar pela companhia de bandeira.</p>
<p>A desfragmentação das  tarifas aéreas poderia constituir uma outra forma de gerar receitas,  cobrando os serviços-extra separadamente, ao contrário do que é apanágio  das companhias regulares.</p>
<p>A aposta no mercado online  seria uma outra saída provável através da dinamização do sítio da  companhia.</p>
<p>À semelhança do que  aconteceu na rota Lisboa/Funchal, onde, seis meses após o início da  operação, a companhia inglesa Easy Jet já detinha mais de 10% da  quota deste mercado antes totalmente monopolizado pela aliança TAP/SATA,  também Cabo Verde poderá viver uma autêntica revolução na conjuntura  Económico-Turística, conseguindo um aumento exponencial,  e sem precedentes, do número de turistas. Este crescimento no número  de visitantes fará também aumentar os gastos diários por turista  bem como as taxas de ocupação hoteleiras, sendo provável que se registem  quebras apenas na estadia média, largamente compensada pelo aumento  significativo de turistas. O turismo, representando cerca de 19,4% do  PIB cabo-verdiano (Câmara de Comércio Portugal Cabo Verde), iria ver  aumentado o seu peso na economia nacional à semelhança do que aconteceu  com o arquipélago madeirense. Haveria também espaço para novos nichos  de mercado uma vez que, segundo a NFO Infratest (2002), mais de metade  do tráfego <em>low cost</em> é constituído por pessoas que de outra  forma não se deslocariam de avião àqueles destinos.</p>
<p>Esta abertura iria potenciar  largamente o turismo quer de lazer quer de negócios, enquanto muito  provavelmente as operações charter iriam ser bastante afectadas, uma vez que os turistas passariam a programar livremente a sua viagem,  a data, a duração da estadia e o hotel, a preços muito provavelmente  inferiores aos dos pacotes turísticos e sem as condicionantes destes  últimos. Este cenário, em última análise, levaria os operadores  turísticos a reduzirem a frequência das suas operações em consequência  de deslocarem os seus recursos para rotas e destinos mais lucrativos.</p>
<p>As companhias de baixo  custo costumam canibalizar grande percentagem do tráfego aéreo instalado,  e, uma vez que dependem na sua maioria de sistemas de incentivos ao estabelecimento  de rotas e frequências, são muito flexíveis na substituição de  rotas, criando incerteza e instabilidade no desenvolvimento económico  dos destinos para onde voam. Na existência de condições mais atractivas  em outro mercado desaparecem com a mesma rapidez que apareceram.</p>
<p>A entrada de uma <em>LCC</em> em Cabo Verde poderia, em última instância, causar uma descontinuidade  no modelo de distribuição turística, e haveria a necessidade, por  isso, de se desenvolver programas sustentados de promoção turística  e colocar em prática acções focalizadas em ‘vender’ o destino  de uma forma homogénea. Haveria que se fazer passar uma mensagem uniforme  entre os diversos agentes do sector, centrado nos segmentos de turistas  que pretendêssemos captar e fidelizar.</p>
<p>O modelo de turismo <em> low cost,</em> apesar de ser muito atractivo e de rápido retorno, a  longo prazo poderá não será mais do que um modelo de massificação,  de baixo preço mas também de pouca criação de valor.</p>
<p><em><br />
<strong>Sobre o autor:</strong></em></p>
<p><em>Nivaldo Vicente, 26 anos, consultor  de Viagens na <a href="http://www.gate.pt/">Travel Gate</a> (desde 2006). contacto: <a href="mailto:nivaldovicente@gmail.com">nivaldovicente@gmail.com</a></em></div>
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