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	<title>Tertúlia Crioula &#187; Rita Ramos</title>
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	<description>Um espaço de discussão e opinião</description>
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		<title>Batuque – Património imaterial e memória da cultura cabo-verdiana</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jun 2010 14:06:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rita Ramos</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autores convidados]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura Popular]]></category>

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		<description><![CDATA[ Mais uma vez venho com algumas interrogatórias acerca deste elemento do património imaterial da matriz africana. Antes das interrogatórias, a exposição de ideia acerca do Batuque nos faz lembrar o que de fato acontecia com as demonstrações no campo da cultura popular. Até o momento há muito pouco estudo acerca deste património imaterial cabo-verdiano. No [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong> </strong>Mais uma vez venho com algumas interrogatórias acerca deste elemento do património imaterial da matriz africana. Antes das interrogatórias, a exposição de ideia acerca do <em>Batuque</em> nos faz lembrar o que de fato acontecia com as demonstrações no campo da cultura popular. Até o momento há muito pouco estudo acerca deste património imaterial cabo-verdiano. No âmbito de leituras e releituras procurar conceituar o <em>batuque</em> e colocar este elemento na gama de definições de áreas não é uma tarefa ainda possível visto que encontramos significações para o <em>batuque </em>como “dança” outros como “canto”.  Entendemos que o batuque agrupa em ambas áreas na sua forma de expressar.<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn2">[2]</a>  Por conta de algumas indefinições, faz se necessário de fato estudo semiótico e a relação musical com as tradições orais, com a contribuição da antropologia para auxiliar não somente na definição dos conceitos, mas também apresentar de forma mais firme o significado do <em>batuque </em>e passar para novas gerações o rico contributo que tem este património de matriz africana.</p>
<p style="text-align: justify;">Acerca da proibição das manifestações culturais, no que diz respeito ao batuque a repressão é publicada em forma de edital no <em>Boletim Oficial de Cabo Verde</em>, nº 13 de 31 de Março de 1866.<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn3">[3]</a> O texto proibitivo indica que o batuque era “divertimento” que “se oponha a civilização, ofensivo a boa moral, inconveniente e incómodo”, na interpretação o documento apontava atitudes de intolerância sobre esta manifestação cultural. Segundo o texto documental o <em>batuque</em> deveria ser reprimido por ser praticado por escravos e libertos, e que não era correto apoiar “uma prática que exortaria a embriaguez e a imoralidade”. Com os mesmos motivos e fundamentado no art. 249º, nº 1, do código administrativo sob a égide do administrador do concelho da Praia, José Gabriel Cordeiro determina a proibição do <em>batuque </em>em toda área da cidade, e que as pessoas flagradas com a prática da mesma, que estas sejam presas e entregues ao poder judiciário.  </p>
<p style="text-align: justify;">Sobre a natureza e do uso dos costumes deste património, Baltazar Lopes na Claridade de nº 7, afirmou que este costume era parte integrante e utilizado nas formalidades de casamento, e que ao contrário do que era exposto, o <em>batuque </em>era “cerimónia generalizada no arquipélago”.<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn4">[4]</a></p>
<p style="text-align: justify;">Entre os conceitos e definições encontrados chamou-me atenção: o <em>batuque</em> “é uma espécie de dança formado por mulheres que cantam sem uso de instrumentos”. Jorge Morbey Pereira e Maria Luísa Ferro,<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn5">[5]</a> sobre a origem na sua forma essencialmente de representar, existe a discussão de que a origem do <em>Batuque </em>pode ser tanto banto, quanto sudanesa e tratar-se de um termo talvez banto, “ku-beta”, cuja designação que dizer: <em>batuque</em>.<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn6">[6]</a></p>
<p style="text-align: justify;">Maria Luísa Ferro Ribeiro, afirma que o conjunto das batuqueiras é formado por uma cantadeira ou cantador, este na condição de solista, um grupo que faz um coro, e este com a “tchabeta”, no meio do terreiro a dançarina é acompanhada pelo cimbó.[7]</p>
<p style="text-align: justify;">Fig.1</p>
<p style="text-align: justify;"> <a href="http://tertuliacrioula.com/wp-content/uploads/2010/05/Nova-imagem.png"><img class="alignnone size-full wp-image-1110" title="Nova imagem" src="http://tertuliacrioula.com/wp-content/uploads/2010/05/Nova-imagem.png" alt="" width="527" height="342" /></a></p>
<table cellspacing="0" cellpadding="0" width="100%">
<tbody>
<tr>
<td>Elemento do património imaterial caboverdiano, o Batuque faz parte da cultura santiaguense por ter suas características raízes da cultura africana. Colecção João Loureiro – Data: 1910</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p style="text-align: justify;"> Na sua expressão corporal as mulheres balançam os quadris no ritmo das palmas sobre almofada apertada fortemente entre as coxas acompanhado de uma música de improviso ao som das vozes das companheiras de roda. Ao convite de uma delas saltam para o centro da roda em um bailado colectivo.</p>
<p style="text-align: justify;">Santiago é a única ilha que conserva o <em>batuque,</em> traço cultural de origem africana.<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn8">[8]</a>  O contexto antropológico referido por Maria Manuela Oliveira Fabião<a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn9">[9]</a> em sua tese de Mestrado apresentada em citação subescrevendo o autor Baltazar Lopes indica como sendo o <em>batuque </em>evento de grande importância que antecede as cerimônias, onde existe um cerimonial cujo traço característico corresponde a reserva, ao silêncio da noiva diante da nova vida. Maria Fabião afirma ainda que o <em>batuque </em>representa não somente as tradições, mas também no século XIX, esta tradição foi alvo de críticas e repreensão por parte da colónia que tinha entendimento de que a manifestação do batuque estava envolta de aspecto erotizando  na sua expressividade. O que percebemos é a ausência de  entender, respeitar o “outro” na sua raiz cultural.</p>
<p style="text-align: justify;">O filme realizado por Catarina Rodrigues rodado na Cova da Moura, Amadora, Portugal, no ano de 1997, titulado <em>“Mulheres do Batuque</em>”, enfoca a representação e história desta “dança” tradicional de origem africana. Para estas mulheres, o <em>Batuque </em>é mais que uma representação, mais que tradição: é essência de vida, alma e que dá dignidade a sua maneira de ser.</p>
<p style="text-align: justify;">Acerca de algumas interrogatórias enunciadas a princípio, cumpre estas a serem respondidas pelos próprios cabo-verdianos:</p>
<ul style="text-align: justify;">
<li>Será que o regime colonial português hostilizou o batuque por este ser um traço cultural de origem africana?</li>
<li>O <em>batuque </em>ecoou como forma de resistência a política que desejava impor valores europeus para um povo híbrido e miscigenado e que apresentava um entendimento que a expressão cultural era primitiva e depreciativa, com teor “lascivo”  para os padrões europeus?</li>
<li>A representação exibia a forma de resistir a maneira de agir e pensar que não coadunava com o modelo de “aceitação” da cultura portuguesa?</li>
</ul>
<p style="text-align: right;">Por: Rita de Cássia Silva dos Santos Ramos <a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn1">[1]</a> </p>
<hr style="text-align: justify;" size="1" />
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1">[1]</a> Professora &#8211; Governo do Estado da Bahia, Brasil, Especialista em Educação Infantil, Mestre em Arte, Património e Teoria do Restauro – Universidade de Lisboa.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref2">[2]</a> Fabião, Maria Manuela Oliveira, p.110, Apud, Gonçalves, 1922</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref3">[3]</a> Ver: SEMEDO, Maria R. Turano e José Maria, Praia, 1997, pp.127-128</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref4">[4]</a> Ver: artigo escrito por Baltazar Lopes, Claridade, nº 7, no ano de 1949, p.46.</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref5">[5]</a> Boletim de Propaganda e Informação de Cabo Verde, pp.13-14, ano XIII, nº 148, 01 de Janeiro de 1962</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref6">[6]</a> Pereira, Jorge Morbey Ferro Ramos, 1967, p.17</p>
<p style="text-align: justify;"><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref7">[7]</a> Boletim de Propaganda e Informação de Cabo Verde,  Maria Luísa Ferro Ribeiro, p. 14, ano XIII, nº 148, 01 de Janeiro de 1962 “ O cimbó de origem sudanesa, é um acessório indispensável de batuque formado por um bojo de cabeça forrado de pele, como tambor; um braço de madeira terminado por uma caravelha, um cavalete, e um arco semelhante ao flecha tendido por crinas untadas de breu como crina é também a sua única corda vibrátil”.</p>
<p> </p>
<p><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref8">[8]</a> Amaral, Ilídio, Santiago de Cabo Verde, Lisboa, 1964, p.19</p>
<p><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref9">[9]</a> Fabião, Maria Manuela Oliveira, Lisboa, 2000.</p>
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		<title>Tabanca, elemento da cultura popular do povo cabo-verdiano – reconhecimento do património imaterial e resgate da memória.</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 14:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rita Ramos</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[A cultura enquanto também produto da ação do homem na sua relação com o mundo alarga-se em vertentes. Este “produto”, quando chamado cultura popular de um povo, exige de forma atemporal ter seu registo e memória salvaguardados. O arquipélago de Cabo Verde, descoberto pelos portugueses no século XV, possui um património que necessita de um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A cultura enquanto também produto da ação do homem na sua relação com o mundo alarga-se em vertentes. Este “produto”, quando chamado cultura popular de um povo, exige de forma atemporal ter seu registo e memória salvaguardados. O arquipélago de Cabo Verde, descoberto pelos portugueses no século XV, possui um património que necessita de um estudo mais aprofundado para também estar presente na ordem do turismo cultural das ilhas.</p>
<p>A <em>tabanca,</em> elemento da gama do património imaterial do arquipélago tem como núcleo central a ilha de Santiago. É lá que ocorre a evidência deste património que une de forma híbrida a herança africana e europeia, mais precisamente europeia de origem portuguesa. O festejo da <em>tabanca </em>realiza-se em homenagem ao santo padroeiro, que corresponde à devoção dos santos dos católicos: Santa Cruz (03 de maio), Santo António (13 de junho), São João (24 de junho) e São Pedro (29 de junho). Seus membros saem em cortejo pela vizinhança em busca do santo roubado.</p>
<p>A <em>tabanca</em><em>, </em>enquanto forma de reunir e agrupar pessoas, tornou-se uma “instituição” que por muito tempo organizou e orientou a vida de seus associados, de maneira que houve interferência na comunidade por conta da sua assistência.</p>
<p>Entendemos que a cultura popular é importante para a história, e que esta também ao serviço de uma dinâmica que instrumentaliza a economia do turismo local. É pois um recurso importante para o desenvolvimento das localidades. Contudo, para que um elemento do património esteja na agenda política de um país, é fundamental a participação da comunidade local. Pretexto que permite não só consolidar identidade, mas também conhecer e valorizar a cultura popular. No entanto, diante de algumas leituras e conversas com amigos cabo-verdianos, tive a percepção que alguns, na actualidade “desconhecem” a história da <em>tabanca,</em> bem como o valor cultural deste elemento no seio da cabo-verdianidade.</p>
<p>A <em>tabanca, </em>como demonstração da cultura popular do povo cabo-verdiano viveu seu auge no período colonial, mas tem vindo a perder força após a independência e sobretudo no nosso século. De acordo com o estudo realizado por José Maria Semedo e Maria Turano <a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn2">[2]</a>, a <em>Tabanca, </em>ainda no século XX, viveu e sobreviveu a imposição  autoritária do regime colonial. <a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn3">[3]</a></p>
<p>Esta informação é expressa de forma clara no documentário realizado no ano de 2001 por Carlos Brandão Lucas, cujo título é: <em>“Brincar Tabanca”</em> – disponível na Videoteca Municipal de Lisboa. O documentário não somente trata do tema <em>tabanca,</em> da “tradição” que pede socorro para manter o brio, mas também apresenta uma série de entrevistas com estudiosos e intelectuais do arquipélago acerca deste património imaterial.</p>
<p>A intelectualidade cabo-verdiana entrevistada procura nos dar um traço de entendimento do que foi ou que poderá ter sido, e de que maneira vive este belo património imaterial da cultura popular na atual conjuntura. Entre as vozes, aparecem José Semedo, que realizou um excelente estudo acerca da <em>tabanca</em>, referência para quem quer iniciar o “conhecer” <em>tabanca. </em>Outros cabo-verdianos de elevada importância falam sobre <em>tabanca</em>, entre tantos fatos que nos chama atenção, em determinado momento Félix Monteiro, que escreveu diversos artigos sobre a <em>tabanca</em> na revista <em>Claridade  <a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftn4"><strong>[4]</strong></a></em>, nos idos de 1940. Félix Monteiro escreveu um artigo nas revistas <em>Claridade </em>6 e 7.A revista de nº 6, de Julho de 1948, o artigo tem em pauta: <em>a evolução semântica, organização, ciclo de festas, abstinência sexual, linguagem humorística, ritual funerário.</em></p>
<p>Na revista <em>Claridade</em> de nº 7, de dezembro de 1949, Félix Monteiro dá continuidade ao tema ao apresentar o tópico “lenda. Nos pontos seguintes, Félix apresenta de forma textual as relações simbólicas da tabanca como o <em>totemismo, magia, corda, sincretismo, a tabanca e os candomblés,</em> o qual ele faz uma análoga com os <em>candomblés</em> de Salvador, Bahia, Brasil. São situações elementares que nos interrogam: até que ponto há de fato simetria nesta comparação entre a <em>tabanca</em> de Cabo Verde e o <em>candomblé</em> da Bahia?</p>
<p>Continua o artigo acerca dos “orixás fálicos”, “possessão fetichista”, o” tambor da magia”, e culmina o artigo falando acerca do “sincretismo”. O artigo de Monteiro amplia a carência e necessidade de estudos no campo da etnologia, antropologia para entender os signos e seus símbolos apresentados na “encenação” da <em>tabanca. </em>O <em>simbolismo e os significados destes, não</em> só sublinha participação da comunidade, como revela a necessidade de salvaguardar a tabanca no ciclo de festas populares na comunidade local. <em> </em></p>
<p>No documentário Félix Monteiro diz não lembrar-se do que escrevera. Porque abordo este ponto? No universo académico há poucos estudos acerca deste património imaterial cabo-verdiano, o que nos leva a questionar se ainda há o preconceito inspirado no período colonial, ou será que o interesse ainda não foi despertado de maneira que houvesse um estudo mais aprofundado sobre este elemento do património imaterial da cultura popular da ilha “crioula”. Em outras ilhas do arquipélago ainda existe o desfile da <em>tabanca</em>, contudo, é na ilha de Santiago que o cortejo ainda marca forte presença.</p>
<p>Em sua complexidade hierárquica há personagens e cenários cuja encenação representada no seu cortejo com a participação do povo nos faz lembrar as romarias portuguesas.</p>
<p>Semedo nos apresenta algumas personagens, mas não diz a função destas personagens: Rainha do agasalho que é a pessoa que comprou o santo, rei da tabanca: responsável pelo acolhimento e alimentação, os oficiais e cativos que dormem em sua casa no dia do cortejo, há ainda: cativos ladrões (geralmente acompanhado por duas mulheres), rainha da tabanca, rei da corte, comandante, rainha do campo, filhas de santo, falcão.</p>
<p>Função: Em torno de sua função, a tabanca funcionou no passado colonial como uma espécie de irmandade, cujo objectivo era fomentar o auxílio mútuo entre os membros associados. O auxílio envolvia ajuda em caso de morte, bem como outras necessidades de amparo aos associados.</p>
<p>Devoção: A tabanca “cumpre” basicamente a devoção aos santos católicos, Santa Cruz, Santo António, São João e São Pedro. Este é o lado religioso. Para o lado considerado profano, estabelece o ritual simbólico do roubo do santo, bem como a festa com a participação do povo que culmina com dança, bebida e comida. A dança, geralmente é o batuque, a bebida, o grogue, e a comida é a cachupa.</p>
<p>Sobre o património imaterial cabo-verdiano, como já foi exposto há lacunas acerca deste que carecem de estudos nas áreas de antropologia, etnologia para compreender um legado tão híbrido quanto a mestiçagem cabo-verdiana. Existe de facto uma necessidade de conhecer este lado da história do património de Cabo Verde, tendo em conta que o próprio documentário apresenta a inquietação de conhecer o notório, mas desconhecido do ponto de vista histórico e que merece não somente juízo de valor histórico, mas também valor por ter valor na evolução da sociedade cabo-verdiana. O documentário existe a pergunta: o quê é a tabanca? As respostas além de serem as mais vagas possíveis, revelam outro dado importante: o jovem do arquipélago não tem interesse na tabanca por desconhecer de facto o que já foi notório, mas também, segundo a resposta de um jovem cabo-verdiano, as músicas da actualidade são mais interessantes.</p>
<p>Entendemos que ao longo do tempo, o património imaterial evolui de forma natural. Contudo, na ilha de Santiago a tradição da <em>tabanca</em> existe, mas sem o vigor do período colonial. Por conta de ainda não haver estudo mais apurado no assunto alguns questionamentos:</p>
<ol>
<li>Face a proibição de cunho político autoritário, será que as personagens existentes e envolvidas na tabanca representavam o “poder” vigente, de maneira que a representação do rei, rainha e governador da tabanca era uma intimidação a Portugal?</li>
<li>Cabo Verde, perante as outras colónias africanas no domínio português, no meu entendimento era a mais “independente culturalmente” Sendo assim, há no ritual da <em>tabanca</em> o momento do roubo do santo. No entanto, o objeto do roubo é a bandeira. A bandeira é um símbolo importante para uma nação. No decorrer do tempo áureo da <em>tabanca</em>, será que havia o “nascimento” de um consciente coletivo acerca do desejo de ser independente representado no cortejo da <em>tabanca</em>?</li>
<li>O que representa o “beijo” das varas sagradas?</li>
<li>Será uma união do sagrado com o profano o rosário “rezado” por tambores africanos?</li>
<li>No ritual, há o momento de distribuição de comida. Este momento assemelha a também o momento com o candomblé da Bahia. Será este também um dos pontos comuns entre a <em>tabanca </em>e o <em>candomblé </em>dito por Félix Monteiro?</li>
</ol>
<p><span style="text-decoration: underline;">Alguns exemplos audiovisuais da <em>Tabanca</em>:</span><br />
<strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=ZQaRtDs8LGg&amp;feature=related" target="_blank">Ferro Gaita &#8211; Rei Di Tabanka</a> </strong></p>
<p><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=4Fn725ipJKM" target="_blank">Batuko Tabanka (voces de Cabo Verde)</a></strong></p>
<p><strong><a href="http://www.youtube.com/watch?v=bjks3WpPvvQ" target="_blank">Tabanka de Achada Grande 2007</a></strong></p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p>FILHO, J. L. (1981). <em>Cabo Verde, subsídios para um levantamento cultural.</em> Lisboa: Plátano Editora.</p>
<p>FILHO, J. L. (1985). <em>Defesa do património sócio-cultural de Cabo Verde.</em> (J. A. Ribeiro, Ed.) Lisboa: Ulmeiro</p>
<p>FILHO, J. L. (2003). <em>Introdução à cultura cabo-verdiana.</em> Praia: Instituto Superior de Educação &#8211; República de Cabo Verde.</p>
<p>LUCAS, C. B. (Realizador). (2001). <em>Brincar Tabanca</em> [Filme].</p>
<p>MONTEIRO, F. (Julho de 1948). Tabanca , evolução semântica. (S. d. Lda., Ed.)<em> Claridade, revista de arte e letras</em> , pp. 14-18</p>
<p>PEIXEIRA, L. M. (2003). <em>Da mestiçagem à caboverdianidade,Registos de uma sociocultura.</em> Lisboa: Edições Colibri</p>
<p>SEMEDO, M. R. (1991). <em>A Tabanca de Cabo Verde: aspectos culturais</em> . Itália.</p>
<p>SILVA, F. E. (2005). <em>Cabo Verde, 30 anos de cultura : 1975-2005.</em> Praia: Ministério da Cultura de Cabo Verde &#8211; Instituto da Biblioteca e do Livro.</p>
<p>SOUSA, T. d. (1958). <em>Cabo Verde e a sua gente .</em> Praia, Cabo Verde: Ed. Propaganda.</p>
<hr size="1" /><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref1">[1]</a> Professora &#8211; Governo do Estado da Bahia, Especialista em Educação Infantil, Mestranda em Arte , Património e Teoria do Restauro – Universidade de Lisboa.</p>
<p><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref2">[2]</a> TURANO, J. M. (1997). <em>Cabo Verde &#8211; o ciclo ritual das festividades da tabanca.</em> Praia: Slpeen &#8211; Edições.</p>
<p><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref3">[3]</a> Os documentos históricos descritos por Semedo e Turano: Boletim Oficial nº 17, de 28 de Junho de 1920, portaria nº 439, o documento trata das concessões para permissão das <em>Tabancas.</em> A portaria de nº 52, de 26 de abril de 1923, proíbe a manifestação da <em>tabanca </em>como espetáculo, mas permite a mesma a socorrer os associados mediante as formalidades legais.</p>
<p><a href="http://tertuliacrioula.com/wp-admin/post-new.php#_ftnref4">[4]</a> <em>Claridade, </em>Revista de arte e letras criada no ano de 1936 na cidade de Mindelo.</p>
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