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	<title>Tertúlia Crioula &#187; Ricardo Serrado</title>
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	<description>Um espaço de discussão e opinião</description>
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		<title>Queiroz: o regresso do “futebolzinho” português</title>
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		<pubDate>Tue, 13 Jul 2010 10:14:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Serrado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Autores convidados]]></category>

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		<description><![CDATA[            Em 2008, em plena fase final do Europeu, era anunciado que Scolari estava de malas aviadas para o futebol inglês. O seleccionador brasileiro estava à frente da equipa das quinas desde 2004, com resultados inegáveis, mas a sua imagem em 2008 estava já gasta, ainda para mais após um difícil apuramento para o europeu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">            Em 2008, em plena fase final do Europeu, era anunciado que Scolari estava de malas aviadas para o futebol inglês. O seleccionador brasileiro estava à frente da equipa das quinas desde 2004, com resultados inegáveis, mas a sua imagem em 2008 estava já gasta, ainda para mais após um difícil apuramento para o europeu da Suíça. Nós que estamos tão habituados a sermos os primeiros, estranhámos a dificuldade que Scolari teve para se qualificar para um Europeu, apuramento que, contudo (ao contrário do apuramento para o Mundial da África do Sul), nunca teve dependente de terceiros.</p>
<p style="text-align: justify;">             Meses depois era anunciado Carlos Queiroz como seleccionador nacional com a (quase) unanimidade da sociedade portuguesa que se queria ver livre do seleccionador brasileiro que tantas dificuldades teve para qualificar Portugal para o Euro e que, ainda por cima, se deixara eliminar nos quartos de final frente à (modesta) Alemanha por 3-2.      Carlos Queiroz era, na altura, o nome consensual e lógico para muitos agentes federativos, para a grande maioria dos jornalistas e comentadores, bem como para a sociedade “futebolística”. Nunca percebi muito bem porquê, à luz da carreira do actual seleccionador. Pensei: “estaremos de volta ao “futebolzinho” que caracterizou o nosso futebol durante décadas?” De partida estava Scolari que, para a maioria, não deixava saudades. O “sargentão” era um homem arrogante, teimoso e politicamente incorrecto. Batia nos adversários, chateava-se nas conferências de imprensa e parecia não ouvir ninguém. Por isso os portugueses não simpatizavam com ele. É um pouco como Mourinho. Se hoje é consensual (também não poderia ser ao contrário, à luz dos resultados) durante muitos anos era mal amado pelo povo luso devido ao seu estilo pouco comum entre portugueses. Todavia, ainda hoje, muitos portugueses não se revêem no estilo de Mourinho, esperando ansiosamente pela sua queda. Queiroz tem uma imagem contrária: é politicamente correcto, parece ter sempre um raciocínio lógico, não é arrogante e tem (aparentemente) um temperamento calmo. É, em suma, muito mais <em>low profil,</em> à imagem dos que os portugueses se identificam. Ao invés, tem um discurso aparentemente erudito, mas sempre evasivo. Isto é, Queiroz fala bem mas diz pouco.</p>
<p style="text-align: justify;">            À margem dos (aparentes) traços de personalidade que podemos delinear aos seleccionadores o que importa é a competência. Tudo o resto não interessa. E convém questionar: à chegada à selecção nacional portuguesa em 2008, o que tinha ganho Carlos Queiroz no futebol de alta competição? Ou pelo menos, o que é que atingiu no futebol de topo (leia-se, futebol de alta competição – não estamos a falar de escalões de formação)? Pouco. Muito pouco e nada de significativo, ao longo de uma vasta mas muito pouco ganhadora carreira. E teve oportunidades que sobra para provar o que valia. À frente do Sporting (de Figo, Balakov, Paulo Sousa, Peixe, etc.), do Real Madrid (de Zidane, Figo, Ronaldo, Raul, etc.) e da selecção nacional entre 1992 e 1994, quando falhou o apuramento para o mundial dos EUA, em 3.º lugar, atrás da Itália e da Suíça (essa super potencia futebolista). Em nenhuma destas frentes triunfou. Aliás, falhou, rotundamente. Mais: Queiroz apenas triunfou, como treinador principal, nas camadas jovens da selecção nacional, já lá vão 20 anos. Depois disso teve uma carreira de alto nível completamente vulgar onde deu mostras suficientes de uma gritante incompetência para treinar equipas de alta competição. Foi assim em todo o lado e em toda a sua carreira. Por onde passou arranjou anti-corpos. No Sporting, entre 1994 e 1995, incompatibilizou-se de imediato com Cadete, Pacheco e Balakov. Hoje são Deco, Nani, Ronaldo, cada um à sua maneira, a mostrar a sua insatisfação para com o treinador. No Real Madrid, com uma equipa que tinha acabado de se sagrar campeã europeia, teve uma carreira desoladora, muito pior do que a do tão criticado Pelegrini, estando desde cedo arredado do título.</p>
<p style="text-align: justify;">            Por isso me perguntei em 2008, quando ainda se falava da sua nomeação para seleccionador, que provas de competência tinha dado Queiroz no futebol de alta competição? Não encontrava resposta. Por isso me preocupei com a sua nomeação. Estávamos à beira de cometer um erro grave e de hipotecar o futuro da nossa selecção. Sim o futuro porque, também aí, não me parece que Queiroz tenha tido o papel que muitos preconizam. Teve um papel fundamental nos escalões de formação e na criação da”geração de ouro”, geração de inegável valor mas que, curiosamente, teve uma importância residual no xadrez internacional do futebol. Li há pouco por um dos editores chefes do <em>Record</em> que “Carlos Queiroz soube semear os frutos para outros colherem mais tarde”. Fiquei estupefacto com tais afirmações. Pergunto: quantos elementos da geração de ouro estiveram no Euro 2004? 3. Quantos eram titulares? 1. Quantos elementos dessa ínclita geração estiveram no mundial de 2006? 1. Figo. E em 2008? Onde, apesar de cairmos nos quartos de final frente à Alemanha, tivemos uma prestação muito mais empolgante (vitórias claras contra a Turquia e República Checa) e dignificante do que a do Mundial de 2010? Nenhum. Com excepção da brilhante campanha no Euro2000, a “geração de ouro” pouco mais fez, apesar de uma boa a prestação no Euro96.</p>
<p style="text-align: justify;">            A geração que mais ganhou no futebol português é uma geração “sem nome” que nada tem a ver com Carlos Queiroz e que foi potenciada por Scolari. Estamos a falar de Ricardo, Miguel, Nuno Gomes, Fernando Meira, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Jorge Andrade, Petit, Costinha, Maniche, Deco, Ronaldo, Pauleta, Simão, entre muitos outros.</p>
<p style="text-align: justify;">O editor chefe do<em> Record</em> diz-nos também que não concorda que Portugal, actualmente, deixou de jogar para ganhar porque “antes da derrota com a Espanha, levava 18 jogos sem perder”. Caro Sr., Desafio-o a contar os empates de Portugal nestes últimos 2 anos, em vez de contar as “não derrotas”. Até porque nunca se afirmou que Portugal jogava para perder. Lógico. Diz-se, isso sim, e isso parece me evidente num estilo preconizado durante décadas pela pequenez da mentalidade portuguesa, que Portugal com Queiroz joga, de facto, para não perder. Basta ver os números. No mundial, em 4 jogos vencemos 1, por sinal frente à selecção mais fraca da competição que tem nas suas fileiras, inclusive, futebolistas não profissionais. A mesma selecção que cometeu o erro ingénuo e amador de inscrever como 3.º guarda-redes um jogador de campo! Perdemos apenas 1 jogo? Certo. Mas empatámos quantos? Tal como o apuramento, as vitórias contam-se facilmente, pois são poucas e pouco expressivas, ao contrário dos empates que parecem demasiados. Mas, mais do que os resultados, importa criticar as exibições que não foram consentâneas com o futebol apresentado nos últimos anos. Portugal não ganhou nem encantou na África do Sul.</p>
<p style="text-align: justify;">A “equipa de todos nós” com Queiroz voltou a jogar, como fez durante décadas, para não perder. Joga no erro do adversário. Em 4 jogos, Queiroz montou 4 estratégias diferentes. Jogou, em alguns deles, com 4 defesas centrais independentemente dos mesmos se posicionarem noutras posições no terreno (Carvalho, Alves, Costa e Pepe). Carlos Queiroz não personalizou uma equipa, não criou um grupo. Não criou, muito menos, uma equipa com mentalidade vencedora como víamos desde, fundamentalmente, 2004. Acabou por destruir a dinâmica ganhadora que se tinha construído nos últimos anos, bem como a relação de proximidade entre a selecção e todos nós (por isso se chama equipa de todos nós, porque o povo se deve rever nela. Será que isso acontece hoje?). Agora monta-se uma estratégia em função das forças e fraquezas da equipa adversária, sem ter em conta a própria personalidade e identidade da equipa portuguesa. Foi assim frente ao Brasil e contra a Espanha. Jogou-se claramente no erro do adversário. Deixámos de olhar os oponentes nos olhos para termos de volta o “futebolzinho” português (que tantas saudades os português parecem ter – do politicamente correcto; do inofensivo; do pouco arrojado…) que se amedronta frente à Espanha, frente ao Brasil e, imagine-se, frente à Costa do Marfim, selecção que, como disse Jorge Jesus, está a décadas da realidade das selecções europeias.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais preocupante que tudo isto, é que voltou a ser deprimente ver a nossa selecção jogar, tal como o era antes de 2000 (com excepção do Euro96). É triste ver o nosso futebol. Portugal cumpriu os mínimos neste mundial mas foi uma selecção que, ao contrário de outros anos, não empolgou. Jogou mal. Foi vulgar e passou completamente despercebida do certame. Para uma selecção que foi com Humberto Coelho e Scolari uma das equipas que melhor futebol praticava dos respectivos torneios, esta selecção de Queiroz, é desoladora. Para uma equipa que era considerada a última selecção romântica da Europa pelo seu futebol perfumado, esta que se apresentou na África do Sul é consternadora. Meteu dó ver Portugal jogar.</p>
<p style="text-align: justify;">Que dirão outros treinadores portugueses, com competência demonstrada em várias frentes e no futebol de alta competição (como Fernando Santos, merecidamente nomeado seleccionador grego) ao serem preteridos no seu país por um treinador que, não obstante ter feito um excelente trabalho nas camadas de formação da selecção, nada provou no futebol de alta competição. Como me disse há pouco tempo alguém que conhece de perto o trabalho de Queiroz e ligado à FMH, “Carlos Queiroz não tem a capacidade de liderança para ser um treinador de alta competição […] Queiroz é o melhor 2.º treinador [adjunto] do mundo.” Palavras sábias de alguém que percebe muito de futebol mas que, por razões óbvias, não vou identificar.</p>
<p style="text-align: justify;">Mais do que não ganhar, Queiroz desculpabiliza-se, sistematicamente com factores alheios. Mourinho à sua maneira já criticou a forma de actuar do seleccionador português neste capítulo. Queiroz não protege os jogadores (prefere-se proteger a ele), arranja conflitos com eles e, mais inquietante arranja consecutivamente desculpas para as suas falhas e limitações. Ou são os 7 ou 8 penaltis por assinalar na fase de qualificação que, ao serem marcados, nos colocariam no topo da classificação do nosso grupo de apuramento; ou é a vaca que não tem leite (!); ou são os golos que não entram, porque esbarram na trave ou nos postes; ou é o árbitro que valida um golo quando este está, imagine-se, 10 mm fora de jogo. Depois do jogo com a Espanha repetiu isto vezes sem conta. Disse sempre que não se queria desculpabilizar com o árbitro mas que o golo espanhol foi marcado em posição irregular, e se este não fosse validado o resultado poderia ter sido diferente. Villa estava, escandalosamente (!), uns escassos cm fora de jogo. Pois, como se costuma dizer em língua portuguesa corrente: “se a minha avó não morresse ainda hoje era viva.” Realmente, se o Eduardo não tivesse inspirado nesse dia, também o resultado poderia ter sido diferente. Alguém tem que avisar o professor Queiroz que o futebol não é uma ciência exacta.</p>
<p style="text-align: justify;">Voltaram as desculpas ao futebol da selecção. Voltou o “futebolzinho” português que tanta falta fazia a este povo que não que se compadece com arrogância, com teimosia e aparentemente com bom futebol. Prefere o “futebolzinho”. O politicamente correcto. Ou pelo menos prefere o “futebolzinho” à arrogância. Ao menos com ele sempre tem mais uma coisa para se lamentar. É a nossa sina. O nosso fado que durante alguns anos pareceu estar ausente. O futebol alegre, divertido, emocionante, das bandeiras nas janelas e nos carros; o futebol emocional deu lugar ao futebol-ciênciaexacta do professor; ao futebol racional. O “futebolzão” deu lugar ao “futebolzinho”.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p>Ricardo Serrado (historiador e doutorando em história contemporânea pela GCSH, UNL)</p>
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		<title>A importância da História</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Mar 2010 18:09:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Serrado</dc:creator>
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		<description><![CDATA[História. Palavra que, na língua portuguesa, contem mais que um significado. Pode significar memória, passado, cronologia, conto, narração, etc. No meu entender, todavia, história é muito mais do que isto. É, para mim, a ciência social que visa estudar, compreender e analisar as sociedades humanas organizadas.             A língua portuguesa deveria ter, por isso, tal [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;">História. Palavra que, na língua portuguesa, contem mais que um significado. Pode significar memória, passado, cronologia, conto, narração, etc. No meu entender, todavia, história é muito mais do que isto. É, para mim, a ciência social que visa estudar, compreender e analisar as sociedades humanas organizadas.</p>
<p style="text-align: justify;">            A língua portuguesa deveria ter, por isso, tal como (por exemplo) a inglesa, algo que distinguisse a ciência social do conto, isto é, que delimitasse o que é história (history) e o que é “estória” (story). A “estória” conta, ficciona, narra, descreve, relata. A história compreende, conclui, discute, reflecte, interpreta, estuda e analisa. A primeira é ficcional a segunda é cientifica.</p>
<p style="text-align: justify;">            Vivemos numa época de revolução tecnológica. Se no inicio da década ainda tínhamos alguns resquícios do que foi o século XX, hoje é claro para mim que estamos nitidamente a entrar numa nova “Era” que pouco tem a ver com o século passado. A internet e as novas tecnologias têm vindo a mudar abruptamente o “velho” mundo e quem nascer nos dias de hoje já terá pouco do que foi o homem do século XX. O paradigma está a mudar. A televisão, a rádio, o papel (da mesma forma que o papiro e o pergaminho foram substituídos, também o papel o será – provavelmente neste século), entre outras coisas, terão neste século uma função completamente distinta da que tiveram no passado. A “Era” digital tomará posse e secundarizará as velhas máquinas do século XX. O cinema, a música, a televisão, a rádio, os jornais e revistas, entre outras coisas, já se estão a adaptar a uma nova realidade que os colocarão subalternos à internet, às redes sociais, ao telemóvel e aos formatos digitais. Hoje temos um mundo à distância de um clique. Compramos, vendemos, visitamos, falamos, conhecemos pessoas e lugares na comodidade da nossa casa. Podemos, de facto, fazer grande parte da nossa vida social e cultural com um telemóvel ou com um computador portátil.</p>
<p style="text-align: justify;">            Num mundo cada vez mais dominado (diria monopolizado) pelas novas tecnologias, pela computorização e pela internet, numa “Era”cada vez mais empresarializada e desumanizada, qual o lugar de saberes como a história? Num mundo onde as novas tecnologias (e todas as áreas directa ou indirectamente ligadas ás mesmas) se assumem como paradigma, qual a importância de tirar uma licenciatura em história e em humanidades?</p>
<p style="text-align: justify;">            Tirei o curso (de história) no virar do milénio e muitos já me perguntavam: “história? Isso serve para quê?”. Outros diziam-me: “que saídas é que isso tem? Vais parar ao desemprego com certeza.” Outros ainda afirmavam: “história? Então mas a história já não está toda escrita?”. Não nego que as perguntas e as afirmações me irritavam solenemente, ao ponto de, com o tempo, deixar de responder ou, então, fazê-lo com alguma austeridade mecanizada.</p>
<p style="text-align: justify;">            Muitas vezes pensava para mim: “como é que é possível haver gente a proferir tais afirmações, tais disparates? Será possível haver alunos universitários tão ignorantes ao ponto de não entenderem que uma licenciatura em história pode significar muito mais do que um mero emprego numa empresa; muito mais do que um lugar ao sol num qualquer escritório; muito mais do que uma formação técnica numa qualquer área de especialização. Não entendem que a história é uma das licenciaturas humanistas por excelência, com uma riqueza de saber dificilmente comparável com outras? Não percebem que é um curso que nos pode dar conhecimentos que extravasam qualquer objectivo de especialização numa determinada área? Não percebem que a história nos ajuda a compreender melhor as sociedades humanas, o Homem, e, com isso, a nós mesmos? Não alcançam que, com outros, é um curso que, acima de tudo, nos incute a importância de pensar (e não como pensar) e da busca do conhecimento; nos dota de uma atitude crítica e activa na sociedade; nos presenteia com saber, com uma postura, e com ferramentas mentais que nos tornam melhores cidadãos? ”.</p>
<p style="text-align: justify;">            Hoje a história, e outras licenciaturas humanistas (filosofia, línguas e literaturas, etc.), vivem, não obstante a história continuar a ser um curso com alguma procura, momentos de alguma fragilidade. O Ministério da Educação, por mais do que uma vez, de forma directa ou indirecta, já ameaçou extinguir a história e a filosofia do ensino secundário (parece que estará para breve!). Por outro lado, o Ministério da Ciencia Tecnologia e do Ensino Superior já, também por mais do que uma vez, deixou a sua intenção de acabar com os cursos que não tivessem um mínimo de alunos (não sendo o caso da história, são muitos os cursos de humanidades nesta situação), ignorando por completo o direito supremo dos cidadãos se poderem formar em áreas que, embora tenham menor empregabilidade, são tão dignas e úteis como as demais.</p>
<p style="text-align: justify;">            A história, apesar de ser ainda uma licenciatura com alguma procura (muitas vezes como opção para seguir outros domínios – como jornalismo, cultura, etc.), vive, tal como as outras áreas de humanidades, uma situação de alguma precariedade (e de algum “descrédito social”). Tudo em nome de um futuro onde parece não caberem as humanidades e as letras, em detrimento de uma formação técnica especializada que contribua directamente para o desenvolvimento tecnológico e\ou empresarial do país. Mais do que nunca apela-se à formação dos engenheiros, dos informáticos, dos empresários, dos gestores, ou então, aos cursos de formação média das mesmas áreas, como se fossem estas as profissões chave para o desenvolvimento humano; como se estas fossem as áreas de ensino que deveriam sustentar a sociedade onde nos inserimos.</p>
<p style="text-align: justify;">            Serão, com toda a certeza, as formações chave para o desenvolvimento tecnológico e material, mas não serão, com o mesmo grau de certeza, as formações nucleares para o desenvolvimento humano, isto é, para a humanização das sociedades e para o desenvolvimento social e cultural, tão ou mais importante que o avanço tecnológico.</p>
<p style="text-align: justify;">A história tem, neste quadro, papel fundamental. Para além das vantagens já enumeradas, a história pode dotar o cidadão de consciência histórica, cívica, humanística, factores primordiais e imprescindíveis para um melhor conhecimento das sociedades humanas, do homem, de si próprio e, consequentemente, para o desenvolvimento intelectual, cultural e social. Pode-nos ajudar, também, nesta nova “Era”, a desenvolver um melhor, mais adequado, e mais competente uso das novas tecnologias. A história, entre outros saberes, é primordial para uma sociedade consciente e activa, ciente de si. Talvez esteja aí o segredo do nosso (in)sucesso. Ao ignorarmos as ciências sociais e humanas, e as letras, como alavanca fundamental para o desenvolvimento de um país, estamos a ignorar uma identidade, uma cultura; estamos a criar cidadãos adormecidos. Especializados, sim, a produzir, também, mas sem consciência de si no “mundo”. Sem identidade. Sem memória. Sem verdadeira cidadania. Enfim, sem cultura, com tudo o que este conceito implica.</p>
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